sábado, 12 de dezembro de 2009

Piano e coração (Cruz e Sousa)

O piano, o piano e o coração.
Ó melodias do coração, ó harmonias do piano.
Chopin, Gounod, Métra, Strauss, Beethoven, Gottschalk, constelação gloriosa de boêmios de ouro!...
Quando o piano musicaliza, caracteriza, espiritualiza as longas escalas cromáticas, os adoráveis "allegros", os interessantes "pizzicatos", quem fala primeiro que os cérebros artísticos, é o coração.
Ele canta mais que todos os órgãos humanos.
O coração é o pulso do cérebro artístico.
Pela temperatura e o grau de sentimento de um, o músico estabelece a proporção do outro.
Um dirige, outro executa.
Um tem a fórmula, outro funciona.
Um é o oxigênio, outro o carvão.
Um faz o relâmpago, outro produz o raio.
Coração e cérebro aliam-se, homogeneizam-se.
Assim o piano, eternamente assim.
O coração é a luta, as grandes tempestades desoladoras, varadas de cóleras surdas de vendavais gargalhantes e intérminos, de frios que estortegam, enregelando as noites soturnas das trevas compridas e absolutas; o coração é a maciosidade dos linhos, a candidez consoladora dos luares estrelados, a fluidez elétrica dos perfumes excitantes, as expansivíssimas alegrias, castamente sonoras e sonoramente castas.
O coração ruge e vibra.
Assim o piano.
Cada palpitação do piano, é uma fibra do coração, que bate.
Tem os mesmos triunfos, os mesmos humorismos fúnebres, as mesmas impotências e coruscações, o piano.
Chora e canta, ri e soluça.
Quanta vez o artista não canta, não ri e chora e soluça com o piano.
Dizei à sensibilidade que emudeça.
À sombra que se subdivida, partícula por partícula, pela própria sombra.
O piano, como o coração, representa um ser complexo, com os elementos necessários, com os nervos, com os músculos de vitalidade dispostos, preparados, desenvolvidos, de forma a infiltrar nos demais seres, a seiva psíquica, a sangüinidade simpática da arte.
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Esta foi em homenagem à Rita, pela crônica "Música".
Data: 12/12/09.

Abismo

Não posso mover meus passos por este atroz labirinto.
Não posso mover meus passos por este atroz.
Não posso mover meus passos por este.
Não posso mover meus passos por.
Não posso mover meus passos.
Não posso mover meus.
Não posso mover.
Não posso.
Não.
Não posso.
Não posso mover.
Não posso mover meus.
Não posso mover meus passos.
Não posso mover meus passos por.
Não posso mover meus passos por este.
Não posso mover meus passos por este atroz.
Não posso mover meus passos por este atroz labirinto.

"Não posso mover meus passos por este atroz labirinto": frase de Cecília Meireles, em "O Romanceiro da Inconfidência".
Data: 18 de novembro de 2009.

Conforme eu tinha dito no encontro, me inspirei numa letra do Caetano Veloso e Gilberto Gil em que eles faziam exatamente esse jogo com as palavras. Eis a letra:

Batmacumba
batmacumbaieiê batmacumbaobá
batmacumbaieiê batmacumbao
batmacumbaieiê batmacumba
batmacumbaieiê batmacum
batmacumbaieiê batman
batmacumbaieiê bat
batmacumbaieiê ba
batmacumbaieiê
batmacumbaie
batmacumba
batmacum
batman
bat
ba
bat
batman
batmacum
batmacumba
batmacumbaie
batmacumbaieiê
batmacumbaieiê ba
batmacumbaieiê bat
batmacumbaieiê batman
batmacumbaieiê batmacum
batmacumbaieiê batmacumba
batmacumbaieiê batmacumbao
batmacumbaieiê batmacumbaobá

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Labirinto

Autor: Fábio Antonio Filipini (Phylypyny)
Inspirado na frase de Cecília Meireles:
"Não posso mover meus passos por este atroz labirinto."
Seus lábio estão divididos.
Não posso mover meus passos por este atroz labirinto.
Compromisso acabou, mas o amor persiste.
O vazio no coração o mantém na ponta do medo.
Não bastará uma única taça de vinho para diluir a tristeza que deixaste...
Teus olhos ainda encantam.
Sorriso hipnotiza.
Deixaste migalha de carinho.
Dei a textura do meu interior.
Hoje? Dor.
Então, o jeito é microoxigenar o sentimento que preso está neste caminho.
Tem dias que um gole de vinho dá vida à saudade da gente,
mas espero que com o tempo você seja somente borra no fundo de meu coração.

Nome querido

Autor: Fábio Antonio Filipini (Phylypyny)

Inspirado na frase de Manuel Bandeira:
"Que o nome querido já nos soa como os outros."

Hoje?
Está lá.
Pensará ter perdido
Teu sorriso escondido.

Aqui?
O tempo castiga-me.
Você?
Esquece-me.

Então, um dia
Não sei quando, espero
Que o nome querido
já nos soe como os outros.

sábado, 21 de novembro de 2009

As folhas obedecem ao vento
Assim como boas meninas obedecem aos pais
Para onde vão
Não importa
Lentamente desaparecem
Até que o nome querido soe como os outros
Até que a face desconhecida habite o espelho
E como a lembrança de um sonho bom
Têm seu fim no esquecimento.


"Que o nome querido já nos soa como os outros" (Manuel Bandeira)

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Olá,

Leiam aqui um artigo interessante do Itaú Cultural sobre Cortázar.

Abraço a todos.

domingo, 8 de novembro de 2009

Por Cristiane Dalla Bento

A IDOSA

Do apartamento no terceiro andar a senhora de cabelos brancos observa pela janela do quarto as pessoas passando na rua. Com um corpo decrépito, roupas cheirando naftalina e rosto enrugado, seus olhos fundos e fracos seguem os passos de quem se aventura a viver.

Sua quase imobilidade e seu olhar perdido podem durar horas que não serão notados. A respiração deixa o vidro um pouco embaçado, mas ela não se importa. Há muito tempo sua vida não tem mais qualquer sentido.

Faz frio, porém mesmo que estivesse quente ela não sairia de casa. O agravamento da velhice lhe limita os movimentos e caminhar é muito penoso. Há anos a envelhecida mulher não sai do pequeno apartamento e daquele quarto. A última vez foi no enterro de uma das quatro irmãs.

O corpo reconhece a fatalidade do envelhecimento, no entanto, não se entrega. Na monotonia da sua vida, o que lhe dilacera a alma é a solidão. Sem filhos, sem amigos, sem parentes. Aos 98 anos a anciã magra e de cabelos ralos não tem com quem conversar. Além disso, ninguém dá atenção a uma pessoa que houve pouco e demora muito para pronunciar qualquer frase. Sua limitação física dificulta qualquer contato com o mundo e com as pessoas.

Está sempre isolada e sozinha. Não consegue acompanhar a programação da televisão. Novelas, não entende, filmes menos ainda. Os noticiários são extremamente rápidos e sua mente cansada já não acompanha a realidade. Mal sabe escrever o nome, quanto mais ler. Só lhe resta ver os outros passando na rua pela triste e solitária janela.

Algumas vezes chegou a acenar para uma pessoa ou outra que a notavam na vidraça, mas todas viravam o rosto e seguiam seus caminhos. O isolamento aumenta quando chove, já que nesses dias há menos gente na rua.

A solidão lhe consome. Às vezes pensa que vai enlouquecer. Chega a ver pessoas que fizeram parte da sua vida transitando pela calçada, mas logo se dá conta que é imaginação.

Uma ocasião estava certa que uma mulher de vestido azul era uma antiga vizinha, chegou até a prender a respiração de surpresa e por alguns instantes imaginou como seria encontrar alguém conhecido. Contudo, a mulher se foi e a idosa voltou à rotina de apenas olhar os outros indo e vindo.

Da sua vida só lhe resta olhar pela janela e aceitar a monotonia da sua existência, de onde só a morte a resgatará da devastadora solidão.


*****************


(Donna con Ventaglio - Gustav Klimt)


MULHER

Movimento

Formas sedutoras

Geométrico Mozaico

Sensualidade e leveza

Olhar majestoso e sedutor

Tranquilidade imponente

A natureza se aperfeiçoa na mulher


**************


Majestosa K 626

O prodigioso gênio envelhece e se aprimora

Nasce sua última sinfonia

Canta nobreza da morte

Em majestosa harmonia

As cordas evocam

Sublime beleza

Unindo instrumentos e vozes

Em perfeita melodia

O talentoso autor

Ao fechar dos olhos

Enaltece o Criador

E se rende à Sua Glória


http://www.youtube.com/watch?v=FrEQ-N6CNKo&feature=player_embedded


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Caos Interior


























Subjgado interior

ao amor não

correspondido, escondido.


Um borrado desejo sensual

que corta as arestas

tontas da alma.


A prepotência superficial

na abastada e mórbida

paixão incessante.


Então que seja

o fim, para não ter que....

terminar.



Postado por: Fábio Antonio Filipini, Inspiração na Obra Judith, de Gustav Klimt

Lacrimosa

Triste é a dor mortal
julgada na

beleza dos

olhos de censura.

Lascivo é o querer que
tortura o desejo.
Vida agora tolerável
em verdades aceitas.

Piedade, ó tempo, para que
lágrimas não afoguem o coração
coberto de dor em busca do
descanso eterno.

Amem.


Postado por: Fábio Antonio Filipini, inspiração Requiem em Ré Menor, KV 626 - Mozart.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Solidão


“Chega! Não agüento mais.
Você fica aí me olhando,
Sem dizer nada.
Depois de tudo o que já passamos.
Uma vida inteira!
Agora os anos se foram.
Nós precisamos conversar mais.
O tempo que nos resta não pode
simplesmente passar como um filme pela janela.
E então?
Você continua calado.
Se cala e me encara.
Olha nos meus olhos, e nem eles dizem nada.
Por que não responde?
Me sinto tão só.
Não tem mais o que dizer?
Você me enfurece com esse silêncio.
Tenho vontade de te sacudir e
Fazer você reagir.
Vamos, fala alguma coisa!”

Mas a imagem refletida no espelho,
Continuou calada...

domingo, 18 de outubro de 2009



A brisa noturna chega
Mais tarde, uma estrela sorri
As siluetas das árvores
Já não são mais as mesmas
No céu violeta
A espera pelo despertar é sonolenta.

***************


(A Esperança I - Gustav Klimt)


Fio dourado desce para cima
Mergulha num infinito anoitecer
Percorre trilhas perdidas
Direções desconhecidas
E num sopro misterioso
Continua o que não tem fim.



(temas: Mozart: concerto nº3 e Gustav Klimt: A Esperança I, respectivamente)

sábado, 17 de outubro de 2009

A costureira e as crianças

“A agulha, em suas mãos, movia-se como se tivesse vida própria”.
Leticia Wierzchowski.

“Naqueles dias ditosos

Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!"
Casimiro de Abreu.

A costureira é daquelas antigas, que costuravam usando esteira e agulha, sentadas numa cadeira de balanço, sofá ou poltrona. Esta senta numa poltroninha. É uma mulher jovem, não deve ter trinta anos, mas já tem ares de respeitável matrona, devido aos dois filhos que possui e que cria sem apoio masculino. Destaca-se a pele curtida de Sol em meio ao pano branco que tece por encomenda. Por sorte, ela trabalha no que gosta, mas fica o dia inteiro assim. Os dedos ficam embrulhados nos dedais quase o tempo todo, de modo que ela quase não os sente. Sem falar no silêncio que engolfa a casa, pequena e sombria. Mesmo assim, esse trabalho tem o dinamismo encantador proporcionado pelos movimentos da agulha, rápidos e cortantes. Vendo essa mulher trabalhar uma vez, fiquei imaginando que foram seus gestos que inspiraram a sinfonia número 40 em Sol Menor a Mozart.
Quando tomava da esteira e começava seu trabalho, curiosamente começava espetando a agulha por baixo, ou seja, na face oposta à voltada para ela. No início estava calma, espetando e passando o fio quase invisível por onde se era necessário. Até que de repente se assanhava e ia abandonando a placidez para fazer com mais paixão e até certa violência. Era quando erguia a agulha até o limite, arriscando perder o fio pelo buraquinho. Ao puxar tudo, não mais espetava no tecido, e sim cravava nele o metalzinho, como se o estivesse ferindo de morte. Mesmo quando o vôo vinha de baixo, era com a mesma intenção assassina. Os olhos da criatura se arregalavam de prazer. Mas logo acabava o entusiasmo, pelas repetidas perdas do fio e pelo próprio cansaço no braço.
Disse que os movimentos da agulha inspiraram Mozart, porém disse errado. Não foram só eles, não, as brincadeiras dos filhos da costureira também devem tê-lo inspirado de algum modo.
Brincando do lado de fora, os dois meninos e mais quatro amigos preferiam correr, se agitar e gritar muito, a ponto de serem considerados “endemoninhados” pelos vizinhos que eram mal-humorados. A costureira não costumava se importar, seu dever era apenas alimentar e vestir os filhos.
Quando lá estive, observei que eles brincavam do que hoje chamaríamos de “pega-pega” ou “pique”, porém de forma um pouco diferente. Quem pegava era o menorzinho e mais medroso, um garotinho de pele muito branca, loirinho e de olhos azuis. Os outros se escondiam atrás de árvores, pedras e casas, e quando esse menininho passava inadvertidamente logo dava de cara com um deles e morria de susto. Virava-se e dava com outro. Tentava correr, e vinha um terceiro barrar-lhe o caminho. E assim ia a brincadeira.
Ocorreu que um dos filhos da costureira teve a idéia de meter-se pela janela dentro de casa. Pouco depois, a vítima passou, e o grito para assustar que o filho da costureira deu foi tão forte que o loirinho finalmente criou coragem e fugiu para casa, escandaloso. Mas não foi só. A costureira, que ainda estava no momento de êxtase, jogou longe a esteira com a agulha, e se a poltrona fosse mais alta com certeza teria se empoleirado nela. Substituiu com um rápido grito, pondo a mão no coração, que batia descompensado. Eu pensei que tinha acontecido alguma coisa com algum dos meninos, e também fiquei assustadíssima.
O garoto veio correndo (ou rolando?) para sair pela porta da frente da casa, sem ter consciência do susto pregado na mãe e na visita. Ao ver aquilo, nós duas imediatamente compreendemos tudo. Ela chamou-o pelo nome, gritou com ele e bateu com a mão mesmo, até esta ficar vermelha. Trancou-o no quarto e em seguida foi à janela chamar o outro e aplicou-lhe os mesmos castigos.
Não posso negar que ficou um clima extremamente chato depois disso, e acabei indo embora mais cedo do que pretendia, com pena daquelas duas pestes. Antes de ir, porém, ainda tive oportunidade de vê-la retomar o trabalho e cravar a agulha em lugar de espetá-la no pano, mas desta vez com uma raiva ainda não de todo apaziguada, como se estivesse descontando em alguém. Deve ter encerrado mais cedo naquele dia, disso tenho certeza.
Ninguém me tira da cabeça que essa mulher tem pelo menos um pouco de inveja da alegria fresca dos filhos, e que os momentos de volúpia com a agulha eram a única alegria fresca que a vida dura lhe permitia desfrutar.
Fim.
Data: 15/10/09.

A vida e a morte

A vida e a morte, de Gustav Klimt (1910-1915, óleo sobre tela).
A vida e a morte
"Os Nomes
Duas vezes se morre:

Primeiro na carne, depois no nome:
Esvaziando-se de seu casto conteúdo
-Tantos gestos, palavras, silêncios -
Até um dia sentimos
Com uma pancada de espanto (ou de remorso?)
Que o nome querido já nos soa como os outros”.
Manuel Bandeira.
“Quando somente uma é a verdade, não existe verdade; quando a ordem é sempre a mesma – eis a barbárie! Então a única lei é a inércia, e tudo perde a força. As coisas todas perdem sua vontade – pois força do todo é força nenhuma!”
Gustavo Diaz, em “Caim”.

A morte escura, em expectativa. Na verdade, um esqueleto envolto numa capa, segurando um cetro vermelho e sorrindo sarcasticamente. Não passa de uma figura ridícula. Mas amedronta. Talvez porque represente o nosso futuro.
Contingentes de vida coloridos estão numa situação esquerda, irremediavelmente ligados a ela, é só uma questão de tempo para que passem para o outro lado. E não voltem mais. E desapareçam do mundo dos vivos aos poucos. Será que é disso que temos medo? Vão na direção da morte, como se fossem um barco à deriva, mais um grupo de pessoas. Há crianças, adolescentes, adultos e velhos. Homens e mulheres. Parecendo não saber para onde a vida os leva. (Se ficassem pensando na morte, não viveriam. Ninguém se encantaria com um nascimento, ninguém se preocuparia com sobrevivência, nem com bondade, alma, progresso, desenvolvimento das ciências e das artes...)
Todos os dias duelamos com a morte, para tirar da vida essas e outras coisas. Mas um dia perdemos. Não se pode ganhar todas. Também precisamos descansar, como a anciã cansada do grupo, que deseja isso mais do que tudo. Se não morrêssemos, a própria vida nos seria inútil, pois não poderíamos extrair nada dela. Fruta só com casca, sem os gomos sumarentos.
Sendo assim, escolhemos como lidar com a morte. Muitos esquecem que um dia vão se encontrar com ela, então quando acontece se rebelam; outros vão serenamente. Alguns a procuram com desespero. Alguns lucram com ela, outros perdem. Alguns matam sem querer, outros matam porque querem, e nem sempre é o corpo que morre. Há os que morrem em vida, e há os que mesmo na morte vivem. Há os espíritos que voltam e os que não voltam. E existem os que pagam um dízimo para a eternidade, a fim de que continuem vivendo mesmo depois de mortos.
Como assim? Por exemplo, numa obra de Gustav Klimt.
Fim.
Data: 10/10/09.

domingo, 11 de outubro de 2009

Criança de fronte pura e luminosa,
E olhos sonhadores, espantados:
Embora escorram as horas ociosas
E meia vida nos torne separados,
Teu rosto - é certo - acolherá risonho
Esta oferta de amor: um conto-sonho.

Tua face ensolarada não mais vejo
Nem mais escuto o teu riso argentino
E minha imagem não terá, prevejo,
Lugar em teu futuro cristalino.
Basta-me só que não deixes - proponho -
De ouvir este meu conto-sonho.

Conto que outrora começou, num dia
Em que o sol esplendia no verão
E acompanhava, simples melodia
O ritmo dos remos: seu refrão.
Eco que na memória não esmorece
Embora o ciúme do tempo diga: "esquece"

Escuta, antes que voz de acento amargo
Venha trazer notícia dolorosa,
Convocando para o final letargo
Uma donzela melancólica.
Não somos mais que crianças, querida,
Agitadas na hora de dormir.

Lá fora, a neve gelada e ofuscante,
Das borrascas a fúria e o capricho.
Dentro, a lareira, o fulgor radiante,
Do júbilo da infância ninho e nicho.
Aqui te prendem essas mágicas vozes:
Não ouvirás esses ventos velozes.

E embora se ouça a sombra de um suspiro
A estremecer no meio dessa estória,
Pelos "dias felizes" consumidos
E do verão a esvaecida glória,
Turvar não quero, com hálito enfadonho,
Todo o prazer deste conto-sonho.

Lewis Carroll
(Aventuras de Alice)

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Nossas heranças, nossos desterros

Oi, gente:
Não sei se alguém tem o hábito de ver o jornal Rascunho (eu não tenho), mas vi este texto no site www.rascunho.com.br e achei importante, até para a gente discutir no próximo encontro, talvez. No site há outros textos com o mesmo tema, porque o jornal costuma pegar no pé de quem se pensa escritor mas não desenvolve a própria voz.
Até a próxima!
Ana Lúcia.

Colunistas : Claudia Lage


NOSSAS HERANÇAS, NOSSOS DESTERROS
A diferença entre o escritor tradicional e o rebelde; e os desafios do autor contemporâneo
"É tarde demais para desfolhar um livro e pendurar as suas páginas numa árvore de arame", me disse um amigo intelectual, "tornar o texto uma explosão de imagens livres e fragmentadas, desconectadas de um passado e de um futuro, como fizeram os surrealistas". A bela imagem logo povoou a minha mente. Folhas e palavras fincadas em finas estruturas, ao sabor do sol, ventos e tempestades. "Também é tarde demais para prender personagens e enredos em descrições e explicações excessivamente racionalizadas e estabelecidas", ele continuou, "como fazia a tradição realista". O meu amigo intelectual é assim, adora lançar idéias e questões no ar, para que eu, a sua amiga escritora, as pegue antes que a gravidade as derrube estateladas no chão. "Por que tarde demais?", fiz a pergunta que ele esperava, "o que pode ser tarde ou cedo demais na escrita, na literatura?", provoquei. O meu amigo intelectual fez uma pausa profunda antes de responder. "Porque hoje não há mais lugar para manifestos", ele disse, "já que nada mais há para destruir", e após outra pausa, completou, "apenas para performances, porque ainda há muito que fazer".
E explicou que ao dizer performance, não queria dizer encenação, mas experiência. Como diz o dicionário: realização, feito, acontecimento. Ao ouvir o meu amigo intelectual, lembrei de um livro do escritor argentino Julio Cortázar, chamado a Teoria do túnel. Neste ensaio de 1947, Cortázar considera dois tipos de escritores: o tradicional, que segue um perfil de literato para quem a questão estética é voltada para os parâmetros realista e a realização estrutural da obra; e o escritor rebelde, representado pelos surrealistas, que visavam a formulação estética através da sensibilidade pessoal do artista. Para Cortázar, a diferença entre o escritor tradicional e o rebelde era total: para o último, o artista não lida mais com a obra de arte como se essa tivesse que espelhar a realidade, seguindo convenções literárias específicas. A obra torna-se massa a ser moldada pelo espírito criador do artista, pela sua maneira particular de ver o mundo.
"O escritor rebelde de Cortázar tinha o que destruir", pensou meu amigo intelectual, "uma literatura engessada, pé-no-chão, fabricada mais pelo discurso do que pela linguagem, mais pela informação do que pelo jogo literário". Do mesmo modo que o escritor rebelde buscava a sua visão pessoal da literatura, o escritor tradicional se apoderava das noções já estruturadas de gênero, narrativa, enredo, espaço/tempo, foco narrativo, personagens, sem considerar a possibilidade de questioná-los, negá-los ou recriá-los.
Como eu, o meu amigo intelectual tem grande admiração por Cortázar. Para nós dois, é apaixonante, na leitura de Teoria do túnel, acompanhar as suas reflexões e angústias. O escritor argentino sempre foi generoso em expor as suas dúvidas, seus medos, anseios e questionamentos criativos. Nunca esteve preocupado em acertar ou errar, mas sim em estar de acordo com a sua visão literária. "Vamos colocar ao lado dos dois escritores de Cortázar um outro tipo", sugeri, "o escritor contemporâneo". "Ótimo", vi os olhos do meu amigo intelectual brilharem atrás dos óculos, "esse escritor que nada mais tem a manifestar, mas muito a fazer". Para o meu amigo intelectual, o desafio do escritor contemporâneo é outro, já que ele possui em sua memória histórica tanto a afirmação quanto a negação da tradição. Na estante de sua casa, romances do século 19 dividem espaço com livros da vanguarda européia, modernismo brasileiro e outros modernos. "O escritor do início do século 21, diante de tantas informações e referências, corre o risco de se perder em um labirinto de possibilidades expressivas", proferiu o meu amigo intelectual, "limitando-se a reproduzi-las, sejam tradicionais ou vanguardistas, acrescentando pouco da sua originalidade pessoal". "Então, de certa forma, voltamos ao escritor rebelde", eu disse, "porque permanece o desafio em trabalhar o texto a partir de uma visão própria de mundo". O meu amigo intelectual pensou um pouco antes de concordar. "É verdade. Mas sem a intenção de desconstruir parâmetros, como os vanguardistas". "A intenção agora é outra", acrescentei, "é encontrar a própria voz criativa dentro de um turbilhão de vozes. Muito já foi feito, desfeito, dito e redito, a única possibilidade realmente criativa é então aquele que surge de anseios e visões muito pessoais".
"Exatamente!", meu amigo intelectual começou a gesticular, exaltado, não sei se com o que eu havia dito ou com o que ele estava prestes a dizer. "É nesse sentido que digo que ainda há muito a ser feito. O que é esperançoso, e, de certa forma, renovador. O desejo maior do escritor rebelde nunca foi destruir a narrativa realista apenas por destruí-la, mas porque ela paralisou dentro de sua convenção o espírito criativo e pessoal do artista. Esse legado permanece, basta escutá-lo. A sua mensagem fundamental é a liberação do imaginário, a expressão de uma sensibilidade particular, e não a destruição. Hoje não é necessário mais distorcer um texto, virá-lo de cabeça para baixo, abandonar completamente personagens e enredos, negar para sempre as referências da tradição". Ouvindo meu amigo intelectual, pensei nos escritores tradicionais citados por Cortázar: Flaubert, Zola, Tolstoi, Dostoievski, Proust, entre outros. Todos grandes construtores de personagens e enredos, também reconhecidos e louvados pelo escritor argentino. "O reconhecimento da tradição é inevitável", considerei, "há também um grande legado aí". "Sim", meu amigo intelectual concordou, "e por que não olhar para os dois, conhecer os dois, escutá-los?". E continuou, empolgado, "A rebeldia veio para resgatar na literatura a experiência sensível, íntima, pessoal, de quem escreve com o que escreve. Há ou houve talvez um grande engano, no escritor contemporâneo, em querer se aproximar do escritor rebelde destruindo simples e completamente as estruturas tradicionais. É como destruir uma casa sem libertar a alma aprisionada em suas paredes".
Olhei-o, atônita. O meu amigo intelectual havia esquecido algo muito importante. Ele não estava conversando com seus outros amigos intelectuais, mas com a sua amiga escritora. Não se diz essas coisas, assim, para a gente. Em seguida, olhei lentamente para os meus dedos. Era inevitável: eu tinha ruínas e almas aprisionadas nas mãos. O meu amigo intelectual percebeu enfim a minha angústia, mas, mesmo percebendo, não se deixou abater. Foi impassível: "É como eu disse: há muito a ser feito".