segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011
Intimidade
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
Por uma TV melhor
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Diferentes formas de lutar pelos direitos
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Escrito rápido
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
Para Miguel Sanches Neto
Vou sentir falta, Miguel, dos teus contos, dos teus raciocínios tão lúcidos, que é um dos elementos que mais procuro nas crônicas que leio, mesmo que algumas vezes tenha me assustado com certos radicalismos e até brigado com você, sem você saber. Uma das particularidades dos teus textos é que, como Olavo Bilac fazia com os sonetos, você consegue encaixar vários assuntos numa só crônica ou conto. Mesmo que às vezes cansasse, pois os textos ficavam muito longos e eu lia diretamente no computador, era um prazer lê-los. Também foi através de crônicas que ganhei essa intimidade que a gente acaba tendo com autores que lemos continuamente. Fiquei sabendo sobre a sua família e o seu lar - algumas das que mais aprecio falam sobre o Antônio, outras sobre a Camila, por exemplo.
Confesso que ainda não li nenhum livro teu, te conheço pelas crônicas mesmo. Acho que comecei a lê-las e colecioná-las em 2008, embora tenha duas de 2006 nos meus arquivos. Copio da Internet e colo - está cada vez mais raro extrair dos jornais de papel, seja recortando, seja xerocando - , e ou imprimo ou copio a mão. Sim, acho uma delícia copiar a mão, embora pertença, por convenção de nascimento, à geração que prefere digitar. Coloco tudo numa pasta com plásticos, junto com outros cronistas, cada um tem o seu próprio plástico. Amo esse tipo de texto em que, teoricamente, dá para se fazer tudo, mas que jamais dispensa uma olhada crítica para a realidade.
Enfim, a vida segue. Costumo brincar que para mim agora só falta nos conhecermos pessoalmente (espero que até lá já tenha lido um livro seu). Mais uma vez, boa sorte.
P S: Na crônica passada, esqueci de dar o crédito para a pessoa que o merece, então aí vai: quem me chamou para escrever crônicas para um jornal da faculdade foi a aluna de Jornalismo Juliana Cordeiro. Meus agradecimentos.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Início de tudo...
Início de tudo...
Oficialmente, tudo começou numa noite do final do ano passado. Na confraternização de final de ano do meu estágio, uma amiga de repente sugeriu que eu mandasse crônicas para o e-mail dela, para colaborar com um jornalzinho de crônicas produzido na faculdade onde ela estuda Jornalismo (eu faço o mesmo curso em outra universidade). Era um jornal, segundo ela, lido por pelo menos todo esse pessoal, incluindo os professores. Fiquei bastante animada: alguém me dava uma oportunidade, porque sabia que eu quero ser escritora!
Logo me surgiu a idéia de publicar crônicas semanalmente neste blog, e depois pedir a ela que entrasse aqui e escolhesse, até porque ela não deu muitos detalhes sobre os temas abordados nas crônicas desse jornal, o número de caracteres, etc. Mas, na verdade, já fazia algum tempo que estava querendo aproveitar que tenho um blog para me posicionar perante o mundo, mostrar minhas opiniões, pois esta é uma das formas de qualquer pessoa hoje publicar conteúdo próprio. Notem que, ao começar este texto, escrevi a palavra "oficialmente". Costumo dizer que, quando se pode dizer um "oficialmente", sempre se pode pensar em um "não-oficial", "extra-oficial", "clandestino", etc. O não-oficial, neste caso, é que essa idéia de me posicionar veio um pouco antes disso, quando tive a notícia de que estavam querendo proibir Monteiro Lobato nas escolas, sob alegação de que ele é racista. No dia seguinte, inspirada, escrevi uma crônica sobre isso. (Mas tive medo de publicá-la, pois não queria correr o risco de fornecer mais argumentos para ele ser censurado, e não só ele, como outros escritores da nossa literatura. De qualquer forma, sou contra essa censura!)
No entanto, para publicar regularmente aqui precisei contornar certos obstáculos. Não conseguia mais entrar no blog, e achei que tinha feito uma besteira irreversível, e portanto a solução ia ser muito mais difícil e demorada. Não tenho muita intimidade com tecnologia, apesar de a minha geração ter. Tive a idéia de cancelar a minha atual conta no Google e criar uma nova. Mas hesitei, porque não queria ter que pedir um novo convite para voltar a postar aqui - seria o terceiro, eu morreria de vergonha! Conversando com um rapaz que trabalha numa lan house aqui perto de casa, ele me disse que eu poderia evitar isso se criasse um novo e-mail, então uma nova conta e, quando os dois se conectassem, deletar o e-mail e a conta antigas. Ainda assim não aprovei, porque não queria ter que fazer outros, afinal já tinha esses. Finalmente, quando ia dormir uma noite dessas, me ocorreu a simples idéia: ou tentar com a senha que uso para entrar no meu próprio e-mail, ou clicar em Esqueceu a sua senha? Foi o que acabei de fazer. Pude redefinir a minha senha, e agora estou escrevendo aqui!
Desculpem estar contando tudo isso. Mas é que eu queria destacar que, durante toda esta história, me sentia tão animada, que mal pensava nessas dificuldades que estava enfrentando. Acho que quando a pessoa está realmente motivada em conseguir o que quer, só pensa em conseguir chegar lá, e isso é muito importante e estimulante. Para completar, são poucas as vezes que isso acontece comigo. Deve ser um sinal...
sábado, 28 de agosto de 2010
Ela vai
A paisagem sempre lhe parece a mesma
Seus pensamentos são como as folhas no outono...
Correndo com o vento
Ela vai
Surge o sol, às vezes
Não chega a iluminar seus olhos tristonhos
Queria mesmo que aquecesse sua alma
Se alguém perguntar
Diga apenas que
Ela vai
Está à procura
De um sonho para sonhar
Antes que mais uma estação acabe
Antes de retomar o começo sem acabar
E se o fim nunca alcançar?
domingo, 1 de agosto de 2010
Suspira
A janela mostra o outro lado da paisagem
Noturna
Lá fora, dou muitas voltas
Prefiro ficar na velha casa que reconhece meus passos
Cada contorno
Sua sombra tem mais de um lado
A lâmpada só ilumina o que eu não quero ver
Então escuto
O invisível sussurra segredos da noite sem fim.
terça-feira, 27 de julho de 2010
Estudor
sexta-feira, 23 de julho de 2010
Há um tempo atrás, pertenci a uma mulher obcecada por sua beleza. A vida não lhe foi justa porque levou cedo demais os que amava enquanto se tornava cada vez mais velha e infeliz. E isto não conseguia suportar. Foi quando então olhou-se no espelho e desejou com todas as forças a sua juventude e nunca mais envelhecer para não ter a angústia de ver a própria beleza fenecendo aos poucos. Isso fez com que meus poderes mágicos despertassem e eu me revelei como no momento em que uma pedra toca a superfície de um lago calmo. Eu poderia ajudá-la, mas ela teria que me entregar os corações das mais belas jovens para permanecer com o seu maior tesouro.
No vilarejo em que morava, havia muitas camponesas cheias de sonhos. Durante o dia, andavam sozinhas pelo bosque colhendo flores e trazendo água de um riacho próximo. Numa das primeiras manhãs de primavera, a velha foi até lá e, escondida entre as árvores, ficou observando uma moça. Lembrou dos tempos em que era nova e linda assim como aquela diante de seus olhos e foi sentindo um ódio que crescia tomando conta de todo o seu corpo cansado e frágil. Quando a jovem chegou à margem, levou um golpe de punhal nas costas e caiu, sendo apunhalada inúmeras vezes até a morte. A velha abriu-lhe o peito arrancando o coração ainda quente. Jogou-o numa bolsa de pele de corça e empurrou o corpo nas mesmas águas frias em que lavou as mãos. Caminhou pelas ruelas até a sua casa tranquilamente, sabendo que era apenas o início de uma vida secreta. Entregou-me o coração e esperou pela noite. No dia seguinte, procurou pelos primeiros sinais de rejuvenescimento em seu rosto, mas ainda era cedo. Percebeu apenas o seu olhar diferente. Eram olhos famintos agora.
Os habitantes da pequena vila ficaram aterrorizados com o crime somado aos outros que se sucederam. Ela tramou muitas artimanhas para não levantar suspeitas, até o momento em que a vizinhança percebeu uma estranha na casa da velha solitária. Justificou que a senhora estava muito doente e era uma parente distante que veio cuidar dela. Logo depois abandonou o lugar para sempre. No caminho, teve um problema com a carroça e um rei que passava no mesmo instante, parou para ajudar e acabou fascinado por tamanha beleza.
Algum tempo após o episódio, casou-se com ele somente para satisfazer sua vaidade e ser a mais bela do reino, adorada pelo seu povo. O rei era viúvo e tinha uma filha. A menina tinha a pele branca como a neve, os cabelos negros como o ébano e as faces carminadas como o sangue. Era encantadora.
O marido não entendia como a cada ano que passava, sua esposa ficava ainda mais bonita. Pouco antes da princesa completar sete anos, a rainha viveu sua época mais exuberante. Seus cabelos eram da mesma cor das folhas tocadas pelo pôr-do-sol no outono. Os olhos eram verdes e instigantes como se guardassem almas múltiplas e seus lábios eram atraentes como cerejas frescas. Entretanto, a partir do sétimo aniversário da menina, sua beleza se apagava diariamente.
Era noite alta quando a rainha começou a andar de um lado para o outro no quarto. O rei percebeu sua aflição perguntando o que havia acontecido mas ela não lhe deu resposta. Apenas deitou em seus braços deixando escorrer uma única lágrima e logo adormeceram. Num sobressalto, acordou com a impressão de um pesadelo e lembrou da dama de companhia da princesa que era a serviçal mais jovem do castelo. Na manhã seguinte, sua enteada sentiu falta da criada, mas ninguém a encontrou. Somente dias depois soube-se que o corpo da moça havia sido encontrado na floresta com a garganta cortada e o coração arrancado.
A rainha não estava satisfeita e me questionou porque continuava a envelhecer tão rápido. Eu expliquei que conforme os anos do nosso acordo passassem, ela teria que me oferecer mais corações ou deixaria de ser tão formosa. Ainda assim, se ela me trouxesse o coração mais puro da mais bela da redondeza, ganharia mais tempo.
- Espelho meu, se revelar na sua superfície a dona do coração mais puro poderei cumprir a tarefa mais depressa. – pediu a rainha. E eu respondi:
- Ainda não sabe? Está mais perto do que imagina.
- A princesa... – falou admirada como quem acabara de descobrir o motivo de um sentimento que a intrigava, como se os seus olhos estivessem vendados para a realidade que se mostrava agora. Em seguida, certa da ação, pensou numa maneira de acabar com a filha do próprio marido. Numa tarde nublada e fria, depois que o rei saiu em viagem, ordenou que um caçador levasse a garota para a floresta e a matasse trazendo o seu coração como prova da morte.
Chegaram na floresta sob o pretexto de ver os animais silvestres, mas o rude homem apiedou-se diante da linda e meiga menina a implorar pela vida quando entendeu que estava ali para morrer. Ela lhe prometeu nunca mais voltar ao castelo e assim nunca ninguém saberia o que realmente aconteceu naquele dia. O caçador aceitou, pois uma vez na floresta junto aos animais ferozes, a morte dela era certa e ele não carregaria a culpa de um crime. No caminho, por entre as árvores, avistou um filhote de cervo e foi deste o coração que entregou.
Quando o recebi das mãos da rainha, não percebi que era de um animal nem tampouco ela desconfiou. O rei voltou sete dias depois e soube do desaparecimento de sua filhinha. Durante a viagem, ouviu histórias de uma aldeia vizinha sobre a morte de várias jovens cujos corações foram arrancados assim como acontecera com a serviçal do castelo. Como não encontraram nenhum vestígio da princesa, restou a esperança de encontrá-la viva. O tempo passou e notícias não chegaram. O rei era tomado cada vez mais pela tristeza por não saber notícias de sua querida filha e também por não ter outro herdeiro. A verdadeira idade da rainha jamais permitiria que lhe desse filhos. Era uma mulher belíssima por fora porém tão seca quanto uma uva passa por dentro.
Durante um período a menina vagou assustada pela floresta. À noite, relâmpagos e trovões deixavam o lugar ainda mais aterrorizante. Na chuva, ela correu sem rumo ferindo seus pés delicados e arranhando nos espinhos sua pele alva que aos poucos foi marcada por riscos vermelhos de sangue. De repente, viu uma clareira e nela o acampamento de um circo que se apresentava nos arredores do reino. Um velhinho com cara de duende a acolheu mortificado com os últimos acontecimentos de sua vida. Disse que poderia juntar-se à eles se não lhe importasse conviver com os seres mais espantosos da região. Muitos eram excluídos da sociedade e passavam a viver no circo e ela sendo tão bonita poderia não se adaptar. Mas era a jovem com o coração mais puro que exisitia e aceitou a ajuda.
A rainha gastava horas se admirando à minha frente e pouco a pouco continuava envelhecendo. Não demorou a notar que tinha sido enganada. Seu marido logo adoeceu misteriosamente. Uns diziam que era a falta da filha, outros falavam que a esposa não lhe dava atenção. Ainda havia os que justificavam que o mal procedia das duas coisas. Ele morreu sozinho.
O castelo estava vazio. A antiga solidão voltava a assombrar os dias da rainha. Eu lhe mostrei o que aconteceu naquela tarde em que sua enteada desapareceu. Ela pensava num modo de realizar a sua tarefa para recuperar a mocidade que estava se perdendo com as rugas que surgiam. Dispensou muitos empregados e passou a ficar mais no quarto. Saía muito pouco e quando o fazia, cobria o rosto com um véu. Numa manhã, olhou-se no espelho e viu que não podia mais ser reconhecida. Separou todos os livros de magia que pertenceram às suas ancestrais e descobriu vários feitiços, em especial, o da maçã encantada.
No acampamento, a princesa vivia momentos difíceis. As mulheres sentiam inveja de sua beleza e alguns homens a perseguiam. Havia alguns meses que o circo estava no mesmo lugar e em breve retornaria à estrada. Teria que partir também. Não sabia se com o grupo ou sozinha. Soube da morte de seu pai e chorou muito, por ele e por ela.
Enquanto o pessoal arrumava seus pertences para seguir viagem, uma velha camponesa apareceu por lá vendendo maçãs. Ela enxergou a garota mais afastada, do outro lado da clareira e foi ao seu encontro.
- Maçãs, mocinha? Olhe como estão apetitosas. – pegando a maçã enfeitiçada. Tinha sido habilmente preparada para ser a fruta mais perfeita e saborosa: por dentro suculenta e por fora de um vermelho tentador e com um perfume capaz de aguçar qualquer paladar, mas quem a provasse certamente morreria envenenado.
- Não tenho dinheiro, senhora. – disse a menina.
- Então será um presente. Já é tarde e acho que não vou mais conseguir vendê-las hoje. Será como uma bendição de uma velhinha para uma jovem cheia de vida pela frente.
Não teve como recusar algo de uma senhora tão gentil e amável. Parecia deliciosa e rapidamente deu uma boa mordida. Ela caiu desmaiada e quando a madrasta pensou em arrastá-la para dentro da floresta para abrir-lhe o peito, percebeu que um anão ao longe vinha prontamente. Apanhou a maçã da mão da enteada e correu com dificuldade sumindo mata adentro.
- Depressa, ajudem! – gritou o anão.
Ele falou da velha que havia fugido mas ninguém encontrou sinal algum. Também não acharam ferimento na menina, simplesmente estava sem vida. Ocupados com a mudança, poucos repararam a presença da camponesa com as maçãs e agora nada mais lhes restava a não ser enterrar o corpo. Mas o senhor que a recebeu não deixou que o fizessem. Chorou sobre o cadáver e corrido três dias e três noites continuava com o mesmo viço como se ela estivesse apenas dormindo. O homem então decidiu levá-la na viagem pois não poderia simplesmente abandoná-la sob a terra escura.
Os anos passaram conservando sua pele alva como a neve, seus cabelos sedosos e negros como o ébano e suas faces carminadas como o sangue. Em uma de suas andanças, chegaram ao reino vizinho ao da princesa. Uma multidão os acompanhou até a frente do palácio onde saudaram o rei. Do alto do balcão, o príncipe viu dentro de um dos carros a bela dormindo num esquife de vidro. Ele ordenou que trouxessem o responsável pelo circo para saber quem era a moça mais linda que até então tinha visto. O viajante contou de sua origem nobre e de sua sorte. O jovem herdeiro lamentou o destino cruel da princesa e pediu para ficar com ela prometendo dar-lhe as honras que prestam ao seres mais amados. Como já estava muito velho e temia o futuro, disse ao rapaz que poderia ir buscá-la no acampamento.
O príncipe se dirigiu até lá com alguns serviçais que prenderam o esquife na parte superior da carruagem e mandou que conduzissem até o castelo. No caminho, um movimento abrupto fez com que pulasse da boca da garota o pedaço de maçã que mantinha entalado na garanta. Ela respirou profundamente, abriu os olhos e começou a bater nas paredes de vidro. Os criados abriram a tampa surpresos e o nobre pendurou-se no carro feliz em vê-la com vida:
- Onde estou? – perguntou a jovem.
- Está comigo. Vou levá-la para o castelo do meu pai onde você estará livre das maldades de sua madrasta e se tornará minha amada esposa.
A princesa ficou maravilhada com a gentileza e o amor do príncipe e aceitou casar-se. O rei ficou tão alegre com o casamento do filho que ordenou a realização da festa mais linda da redondeza. Centenas de pessoas foram convidadas, entre elas o seu protetor e a madrasta. Esta teria retornado à floresta dias mais tarde ao envenenamento em busca do corpo da enteada, não encontrando vestígios do enterro. Curiosa para conhecer a princesa cuja formosura era enaltecida, foi ao baile coberta por um véu negro e teve uma surpresa ao vê-la. A noiva procurava com os olhos a rainha má entre os convidados e somente a reconheceu quando avistou em seu dedo um precioso anel que pertencera à sua mãe. Arrancou-lhe o véu e lembrou do olhar inconfundível de sua madrasta, não lhe restando dúvidas. Os soldados a seguraram e, à força, colocaram-lhe sapatos de ferro. Ela foi condenada a dançar sem parar sobre um braseiro até a morte.
Com isso, os dois reinos foram unidos e os pertences da madrasta em grande parte foram queimados. Eu fui coberto por uma pele de corça e guardado num depósito em uma torre onde quase nunca aparece ninguém, mas ainda tenho a distração de ver o que acontece em todo o território. Sei que a mais bela menina do coração mais puro se transformou numa admirável mulher. Está feliz e plena pois se tornou mãe de uma linda princesinha. Há também uma outra garota aqui. Ela foi abandonada por uma camponesa numa das portas laterais do castelo e a jovem de pele alva que agora é uma rainha, batizou essa pobre menininha e lhe dá toda a assistência necessária. Muito curiosa, às vezes ela vem até o depósito. Já me descobriu algumas vezes para admirar o seu reflexo, mas existe alguma coisa em seu olhar que me é familiar. Como não tenho o dom de ver o futuro, somente os fatos que já ocorreram, não sei o que está reservado para esse lindo e tranquilo reino...
domingo, 27 de junho de 2010
De acordo com a proposta do nosso último encontro (escrever a partir da criação de Paulo Leminski e agregar ao nosso texto ou o contrário), segue o que eu lhes apresentei:
Cortinas de seda
O vento entra
Sem pedir licença*
No copo
Pequenas doses de ilusão
À espera de lábios quentes.
***
Dias apressados
A janela desenha no chão uma gaiola
Que desaparece
Quando o sol vai embora.
À noite me pinga
Uma estrela no olho
E passa.*
*Paulo Leminski
Por favor, não me deixem sozinha nessa! Postem o de vcs tbém!
abraços,
segunda-feira, 21 de junho de 2010
Amante
Aliado maroto a sua crise de rebeldia, deixarei acender e apagar sua chama de desejo por toda noite que puder roubar. Não tenho ciúmes, e sou sempre dado a amores novos. Preencho vazios. Coração não fica na ponta do medo, aproveita intensamente os segundos que não terminam. Vivo.
Queridas, espero que esqueçam o que muitos dizem sobre o que sou. Tenho um coração quente e sou amarrado pelo corpo. O suor das suas mãos é o tempero da minha fome.
Tá! O ibope vem aumentando, e tenho agenda cheia, mas nunca me esqueço de você. Ligo quando menos esperar. No que faço não existe profissionalismo. Já imaginou Don Juan empregado? Não pode ser. Amo todas, e transformo suas necessidades escondidas em atrevimentos reais.
Dou flores na tarde morna; beijos na nuca; trago arrepios que se espalham no corpo dando a notícia da paixão; fogo; falo na hora exata de sua vontade; beijo; ser teu quando estivermos sós; forte na medida certa; gozo; cafajeste para corromper honestamente seu coração; deixar o tempo para os outros e dar-lhe vida; intensidade; morder seus lábios carnudos e transformá-los em beiço pronto para o choro quando partir; fazê-la sentir-se criança querendo mais, e mais, e mais...
O romance pode escrever nossa história, e a novela que vocês vejam em casa.
Eu? Sou, tipo assim, uma crônica: leve, ligeiro, alegre e sedutor.
Mulheres, aquilo de querer, ainda me levará até seus pés.
segunda-feira, 26 de abril de 2010
"A Valsa" - Casimiro de Abreu

Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos, Saltavam,
Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias,
Tremias, Sorrias, P'ra outro Não eu! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti!
Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Meu Deus! Eras bela Donzela,
Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem ?! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!... Calado, Sózinho, Mesquinho, Em zelos Ardendo, Eu vi-te Correndo Tão falsa
Na valsa Veloz! Eu triste Vi tudo! Mas mudo Não tive Nas galas Das salas, Nem falas, Nem cantos, Nem prantos, Nem voz! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti!
Quem dera Que sintas!... — Não negues Não mintas... — Eu vi! Na valsa Cansaste; Ficaste Prostrada, Turbada! Pensavas, Cismavas, E estavas Tão pálida Então; Qual pálida Rosa Mimosa
No vale Do vento Cruento Batida, Caída Sem vida. No chão! Quem dera Que sintas As dores
De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... Eu vi!
segunda-feira, 5 de abril de 2010
Auto-retrato
Vincent Van Gogh, Auto-retrato, 1889.
Ao entrar naquele ambiente logo pude ver um reflexo subliminar. Inicia sério, parecendo requerer distância, sem muita conversa. Um que de reservado, por vezes de arrogância. Pelos traços de seu corpo tudo indica um perfeccionista: cabelo, roupas, óculos,... Os reflexos são admiráveis, digamos que à primeira vista um bom partido. Os olhos têm particularidades, implicam num leve tom de tristeza. Requer ser decantado, dar oxigênio para respirar. Evoluir. Não meses, mas em horas, com a troca de poucas palavras é bom ouvinte, muito amável. Honestidade o permeia, é o orgulho de tanta bondade. Ainda persiste um amargor, porém nada que tire o equilíbrio. Ao ser questionado, logo se dá a perceber que não aceita opinião dos outros. Críticas, nem pensar. Apesar de querido, como um amante, ainda assim pede distanciamento. Estranho, para um poço de simpatia. Acende-se uma luz mais forte, e vejo então os contornos do espelho que me denuncia...
Postado por Fábio Antonio Filipini
segunda-feira, 29 de março de 2010
Ouvir Estrelas - Olavo Bilac
