segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Intimidade

Penso que uma das contribuições mais importantes da literatura, ao menos para mim, é poder discutir a vida humana sem disfarces. Afinal, num bom livro entramos diretamente em contato com a alma dos personagens, sendo esta a parte mais importante de uma pessoa. Ou então suas ações, pensamentos e sentimentos estão organizados de maneira a descobrirmos quem esse personagem é. O que muitas vezes acaba se revelando um espelho que se volta para nós mesmos, que lemos.
Estou dizendo isso por causa de um livro que li durante estas férias, "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", de Clarice Lispector. Um dos elementos que achei mais geniais nesse romance é que os personagens, Loreley, apelido Lóri, e Ulisses desenvolvem uma relação na qual falam abertamente o que sentem e pensam, sem perder tempo com amenidades ou bobagens. Ela é capaz de ligar para ele no meio da noite e dizer algo como: "Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro". E ele compreende, e diz sempre exatamente o que ela precisa ouvir! Talvez justamente por conta dessas declarações diretas dela e dessa compreensão e franqueza dele, a princípio esse relacionamento parece muito frio e formal. No entanto, ele consegue ser muito mais real e verdadeiro do que grande parte dos nossos relacionamentos, ou talvez até mesmo da totalidade deles. Exatamente por causa da tal da intimidade, que para mim é compreender o outro, mesmo que ele se faça hermético, agir conforme a necessidade dele e, principalmente, ter e dar a liberdade de falar o que vier à cabeça do jeito que veio, mesmo que seja uma epifania nascida do perfume de jasmim sentido de madrugada.
De quantos conhecidos nossos podemos dizer que realmente temos intimidade para falar, por exemplo, da epifania nascida do perfume de jasmim sentido de madrugada? Geralmente, sentimos medo: da incompreensão, do que o outro pensará de nós, do deboche, da raiva... O mais triste é que tem gente que passa a bloquear todo e qualquer sentimento, pensamento ou ação que fuja do entendimento comum, mesmo que faça sentido para elas. Quem opta por permanecer tendo percepções incomuns geralmente acaba se escondendo, falando de bobagens mesmo com os amigos, como se não precisasse deles mais do que para isso. Muitas vezes, não sabemos pôr coisas realmente importantes para nós em palavras, e o meio não ajuda, ou seja, os que nos cercam são obtusos. Este foi um dos motivos, aliás, que levou Anne Frank a escrever o diário, e é uma das frustrações do aviador que encontra o Pequeno Príncipe. Sendo assim, a minha pergunta é: será que estamos capacitados a criar laços de intimidade com nossos semelhantes? Pois, se até mesmo para pedir ou extravasar algo muito menos complexo, como um aumento de salário ou acordo com o ex, usamos dos mais variados subterfúgios, desde rodeios até chantagens sentimentais... Isso é intimidade?
Com a falta de intimidade e o excesso de disfarces, cada vez menos nos sentimos refletidos nos outros, os de carne e osso que convivem conosco. Eles não nos servem de espelhos da nossa humanidade, por isso que cada vez mais nos sentimos sozinhos. É por isso que muitas vezes as pessoas vão buscar consolo em fontes como a literatura (escritores, muitas vezes já mortos e seus personagens), Internet (amigos virtuais), culto a ídolos, entre outras formas de evasão - o que não é uma atitude saudável, se praticada o tempo todo. E muitas vezes sentem que esses personagens virtuais - ou seja, que fazem parte de uma realidade em potencial, que não é verdade verdadeira por alguma razão - são mais reais do que as pessoas com quem já convivem, na sua própria realidade.
In Memorian
Dedico esta coluna a Moacyr Sciliar, falecido ontem. Não tenho muito o que dizer, não li muita coisa dele, mas de certa forma ele fez parte do meu Ensino Fundamental, ao lado de Luís Fernando Veríssimo e Ana Maria Machado, pois é um dos escritores favoritos dos livros didáticos. O pior é que eu poderia tê-lo conhecido, num Paiol Literário ocorrido, creio, no ano passado. Mas só fui descobrir isso tarde demais. De qualquer forma, adeus, Moacyr Sciliar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Por uma TV melhor

"Zapeando" pela Internet, acabei encontrando o texto de Ale Rocha desta semana, "Insensato telespectador", que gerou muita polêmica, como se pode ver nos inúmeros comentários abaixo. Para quem não sabe, Ale Rocha é o colunista de televisão do Site Yahoo!.
Criticando a novela "Insensato Coração", ele escreve que há cenas provocando a revolta dos telespectadores, a ponto de o Ministério Público ter sido acionado e a trama estar arriscada a ser indicada para só a partir dos 14 anos, ou seja, só poder passar a partir das 22h. E os autores, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, estariam se acomodando ao apresentar apenas personagens divididos entre o bem e o mal e o tal do "realismo", conseguido através das cenas de sexo e barracão. Para Ale Rocha, portanto, os telespectadores e os autores são ou estão caretas, pois o maniqueísmo poderia ser ultrapassado e idéias consideradas retrógradas poderiam ser discutidas, mas não são. Pelo que li dos comentários posteriores, muitos ficaram incomodados com essa utilização da palavra "careta", entendendo que o autor maldiz o pensamento ou atitude de defender valores moralmente aceitos e que seriam necessários à formação pessoal de crianças e adolescentes. Ainda segundo Rocha, muitos pais negligenciariam a educação, ou a transfeririam ao Estado, por isso a tentativa de tornar as tramas "caretas".
Não posso opinar sobre a novela diretamente, pois não a assisto. Mas tenho que concordar com quem diz que ninguém é obrigado a ver nada, pois tem o controle remoto. Eu iria até mais longe: que tal tentar desligar a TV uma vez por semana e procurar passar o tempo ou se divertir de uma forma completamente diferente? Além disso, as pessoas que denunciaram a novela ao Ministério Público alegaram que as cenas de sexo e barracão são exibidas às 21h10min, quando as crianças e adolescentes ainda estão na sala. Quando eu era criança, ia dormir entre 20h30 e 21h - minha mãe punha eu e o meu irmão na cama para poder ver as novelas desse horário. E isso nos anos 90, quando muitos dos meus colegas viam as novelas, às vezes até as minisséries. Eu comecei a ver novela com 11, 12 anos, e sempre com pelo menos a minha mãe por perto. Mesmo assim, demorei um pouco mais para começar a ver novela que passa às 21h. Nos intervalos, a gente discutia o que tinha acabado de ver. Ou seja, muita coisa ainda depende dos pais, mesmo. Não estou querendo dizer que a minha família tinha a postura mais correta com relação a esse assunto, até porque a minha mãe era só dona-de-casa, algo que já não fazia parte da realidade de muitas mulheres naquela época. Mas acredito que é possível, sim, controlar o que os filhos vêem.
Isso não quer dizer que a TV também não tenha responsabilidade pelo que veicula. Sabemos que muitas vezes ela banaliza sexo e violência em busca de pontos no ibope. E, se ela recorre a esses expedientes, é porque há muita gente assistindo, ou seja, o telespectador também tem culpa. No entanto, a situação dos teledramaturgos é bastante complicada, pois têm que render audiência, ou seja, se submeter às vontades de quem vê, que hoje está cansado do modelo de novela vigente, e no entanto não podem realmente ousar muito, tanto nos temas, pois há muito conservadorismo, tanto do povo como da emissora, como na narrativa, porque a maior parte dos brasileiros não está preparada para apreciar outras formas de narrativa, ou talvez personagens mais humanos, incluindo mocinhos mais humanos. É uma tarefa ingrata, escrever para um povo culturalmente bastante heterogêneo durante uma média de nove meses, mantendo a audiência. Lembro de um desabafo que li do Sílvio de Abreu uma vez, que falava que o povo tem uma relação mais emocional que intelectual com os personagens apresentados, e por conta disso os criadores não têm muita saída além de apelação e repeteco. Embora não concorde totalmente com isso, também pergunto: como fazer?
Concordo com um comentarista que disse que a emissora precisa contratar gente nova. Mas acrescentaria: precisa também flexibilizar suas regras teledramatúrgicas, afinal elas vêm dos anos 60! O Brasil era outro! E os pais precisariam retomar sua autoridade, para voltar a controlar o que os filhos vêem, saber que há outras opções no mesmo horário, ou mesmo desligar a TV e fazer outra coisa, em vez de ficar engolindo algo "menos pior", seja novela, seja qualquer outro tipo de programa. Seria o movimento dos telespectadores para que a televisão volte a ser feita de maneira mais inteligente. E algo tão insubstituível quanto a educação moral é a educação intelectual: o gosto pela cultura (leitura, museus, filmes de arte, etc.) deveria ser cultivado desde a infância, para que as novas gerações entrem em contato com outras possibilidades de histórias e personagens, estando mais preparadas para aceitar (ou mesmo repudiar) novas narrativas na telinha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Diferentes formas de lutar pelos direitos

"Todo homem é magistrado quando se trata de salvar a pátria." Creio que esta frase, encontrada no livro "Da república", de Cícero, é a que explica a excelente notícia veiculada na semana passada: quem foi vereador em São Paulo em 1993 e 1994 (um total de 55 pessoas) está condenado a devolver, cada um, aos cofres públicos, 98 mil reais, por terem aumentado ilicitamente os próprios salários. E isso graças a quem? A quatro cidadãos paulistanos, que processaram esses políticos e tiveram que esperar "só" 17 anos para que a justiça fosse feita. Esses pacientes guerreiros deveriam ser levados ao programa da Marília Gabriela, tanto no SBT como na GNT, para explicar como foi essa saga. Além disso, essa história deveria ser publicada em livro, para depois virar filme. Eis os nomes desses cidadãos: o engenheiro Raymundo Medeiros, a secretária Rosemary O´ Neil Minson, a dona-de-casa Francisca Belizia Shlithler e o representante comercial Paulo Antonio de Oliveira, todos representados pelo advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa.
Esse tipo de notícia, nem preciso dizer, é alentadora. No mesmo dia em que a recebi, sexta-feira passada, pensava desanimada no seguinte contraste: em 1992, conseguimos depor um presidente da República. Mas em 2010, no caso aqui do Paraná, a movimentação popular não conseguiu fazer renunciar o presidente da Assembléia Legislativa de Curitiba (antes de ter sido reeleito, claro). Como é que pode? Também tivemos, também no ano passado, outra vitória, que foi a aprovação da Lei Ficha Limpa, que no entanto é motivo de piada: os alvos juram que não são fichas-sujas e fica por isso mesmo. Um exemplo foi o senhor Cassio Taniguchi, que recentemente disse não fazer parte desse time porque, quando a lei foi aprovada, seus crimes (não foi essa a palavra que ele usou, lógico) já tinham prescrito! Junto a este, quantos casos no Brasil inteiro! E o pior é que o povo ratifica a corrupção e a incompetência, ao continuar votando nesses mesmos políticos. E também em aproveitadores que está na cara que não nasceram para a política.
Estes versos de Bertold Brecht (1898-1956) me fazem refletir: "A atitude crítica / É para muitos não muito frutífera / Isto porque com sua crítica / Nada conseguem do Estado. / Mas o que neste caso é atitude infrutífera / É apenas uma atitude fraca. / Pela crítica armada / Estados podem ser esmagados." Mas seria essa realmente a solução para nós, ou um problema pior ainda? Não há dúvida que às vezes não há outra saída. Por exemplo, a frase do começo desta crônica não é de Cícero, mas de um romano chamado Júnio Bruto Aparente, que chefiou o movimento popular que transformou Roma de monarquia em república, no ano de 509 a.C. Para que isso acontecesse, e a corrupção dos costumes da época pelos monarcas fosse corrigida, foi preciso que o povo se unisse para expulsá-los. De certa forma, foi o que aconteceu na Tunísia, que serviu de exemplo para que o Egito iniciasse a sua própria revolução, os dois expulsando ditadores do poder, depois de décadas. No entanto, esses casos - Roma, Tunísia e Egito - chegaram ao extremo, ou seja, possivelmente não haveria outra maneira de o povo lutar pelo que queria. Movimentos como o dos Caras-Pintadas e este episódio do pagamento dos vereadores de São Paulo mostra que existem outras formas de luta e obtenção de direitos, às vezes usando as ferramentas do próprio Estado, algo que não se deve perder de vista. O próprio Brecht terminava assim o seu poema: "A canalização de um rio / O enxerto de uma árvore / A educação de uma pessoa / A transformação de um Estado / Estes são exemplos de crítica frutífera. / E são também / Exemplos de arte."
Obs: Os dados da notícia foram retirados do site http://www.conjur.com.br/, que por sua vez se baseou na Folha de São Paulo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Escrito rápido

Escrevo rápido, apenas para não deixar passar em branco esta semana. Hoje vocês vão me desculpar, mas estou sem muita inspiração. Este é um dos momentos em que, ao menos em mim, se cristaliza uma idéia que a maioria dos cronistas tem de si mesmo: na verdade, apesar de ser reconhecida como alguém que sabe escrever, não tenho nada a dizer!
Ficar sem inspiração é um risco que corre qualquer um que escreve regularmente, a não ser que se trate de um jornalista produzindo matérias. Por isso os cronistas costumam usar de certos truques, como anotar temas ou deixar umas crônicas para emergências, cozinhando em banho-maria. Também tenho as minhas crônicas e os meus temas, claro. Mas hoje não estou me sentindo à vontade para trabalhar com esse material. São como bebês, ainda não chegou a hora de eles virem ao mundo. E não me surgiu nenhuma outra idéia que me entusiasmasse, por isso que estou aqui desabafando tudo isto. Com o medo de não ter o que dizer me assombrando.
Falar nesse medo me fez lembrar do Carlos Heitor Cony. Quem lê as crônicas dele sabe: volta e meia ele afirma não ter o que dizer, e no entanto é sempre requisitado, como se fosse um homem sábio. Ainda não consegui decifrar se isto é ironia, modéstia (falsa ou verdadeira) ou se ele realmente acha isso de si mesmo, e a gente é que vê nele um homem sábio, simplesmente porque é diferente a visão acerca de um texto de quem o escreve e de quem apenas o lê. E muitas vezes essa diferença é gritante mesmo. Ao menos pelo que concerne a mim (entre meus conhecidos, sou tida por alguém que escreve bem porque vive escrevendo e lê bastante - apesar de na realidade terem visto bem poucas produções minhas, pois são raras as que tenho vontade de mostrar), essa visão é fruto principalmente da insegurança na hora de escrever. É claro que o texto que imagino é sempre muito melhor do que o que acaba saindo. E essa distância entre os dois, logicamente, é maior à medida que o tempo entre conceber e escrever vai aumentando. No entanto, nem mesmo começar a escrever logo que as palavras vêm é 100% garantido: sempre alguma coisa poderia ter saído melhor. Sem contar que muitas vezes não tenho certeza se consegui abordar o assunto com a profundidade que ele merece.
Enfim, acabou saindo uma crônica. No momento, estou gostando dela. Mas não sei até quando. Porque é muito comum também eu reler meus textos descobrindo erros e novas maneiras de tê-lo escrito. Mesmo depois de muito tempo que ele já cumpriu sua função, e todos que o leram já se esqueceram dele.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para Miguel Sanches Neto

Foi no dia 24 deste mês de janeiro que li a crônica "The end", a despedida oficial de um grande cronista da Gazeta do Povo. Fiquei chateada, como se um grande amigo tivesse dito que ia embora para sempre. Claro, você disse que está substituindo a Marleth Silva até fevereiro, e que de certa forma continua, publicando análises de livros. Boa sorte, Miguel. Mas acho que você já não será mais o mesmo, pois estará vinculado a um tema só, e não terá aquela liberdade literária de fazer uma crônica que mais parece um conto quando você quiser. Sem contar que não consigo ler crítica literária durante muito tempo - elas acabam bloqueando a minha criatividade, porque também quero ser escritora.
Vou sentir falta, Miguel, dos teus contos, dos teus raciocínios tão lúcidos, que é um dos elementos que mais procuro nas crônicas que leio, mesmo que algumas vezes tenha me assustado com certos radicalismos e até brigado com você, sem você saber. Uma das particularidades dos teus textos é que, como Olavo Bilac fazia com os sonetos, você consegue encaixar vários assuntos numa só crônica ou conto. Mesmo que às vezes cansasse, pois os textos ficavam muito longos e eu lia diretamente no computador, era um prazer lê-los. Também foi através de crônicas que ganhei essa intimidade que a gente acaba tendo com autores que lemos continuamente. Fiquei sabendo sobre a sua família e o seu lar - algumas das que mais aprecio falam sobre o Antônio, outras sobre a Camila, por exemplo.
Confesso que ainda não li nenhum livro teu, te conheço pelas crônicas mesmo. Acho que comecei a lê-las e colecioná-las em 2008, embora tenha duas de 2006 nos meus arquivos. Copio da Internet e colo - está cada vez mais raro extrair dos jornais de papel, seja recortando, seja xerocando - , e ou imprimo ou copio a mão. Sim, acho uma delícia copiar a mão, embora pertença, por convenção de nascimento, à geração que prefere digitar. Coloco tudo numa pasta com plásticos, junto com outros cronistas, cada um tem o seu próprio plástico. Amo esse tipo de texto em que, teoricamente, dá para se fazer tudo, mas que jamais dispensa uma olhada crítica para a realidade.
Enfim, a vida segue. Costumo brincar que para mim agora só falta nos conhecermos pessoalmente (espero que até lá já tenha lido um livro seu). Mais uma vez, boa sorte.

P S: Na crônica passada, esqueci de dar o crédito para a pessoa que o merece, então aí vai: quem me chamou para escrever crônicas para um jornal da faculdade foi a aluna de Jornalismo Juliana Cordeiro. Meus agradecimentos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Início de tudo...

Olá, há quanto tempo! Finalmente vou voltar a usar este blog, e desta vez vai ser de forma mais freqüente: publicando minhas tentativas de escrever crônicas, toda segunda-feira. Como e por que tive esta idéia? Este é o tema da minha primeira crônica, logo abaixo. Boa leitura a todos! E me dêem um retorno, por favor!

Início de tudo...

Oficialmente, tudo começou numa noite do final do ano passado. Na confraternização de final de ano do meu estágio, uma amiga de repente sugeriu que eu mandasse crônicas para o e-mail dela, para colaborar com um jornalzinho de crônicas produzido na faculdade onde ela estuda Jornalismo (eu faço o mesmo curso em outra universidade). Era um jornal, segundo ela, lido por pelo menos todo esse pessoal, incluindo os professores. Fiquei bastante animada: alguém me dava uma oportunidade, porque sabia que eu quero ser escritora!
Logo me surgiu a idéia de publicar crônicas semanalmente neste blog, e depois pedir a ela que entrasse aqui e escolhesse, até porque ela não deu muitos detalhes sobre os temas abordados nas crônicas desse jornal, o número de caracteres, etc. Mas, na verdade, já fazia algum tempo que estava querendo aproveitar que tenho um blog para me posicionar perante o mundo, mostrar minhas opiniões, pois esta é uma das formas de qualquer pessoa hoje publicar conteúdo próprio. Notem que, ao começar este texto, escrevi a palavra "oficialmente". Costumo dizer que, quando se pode dizer um "oficialmente", sempre se pode pensar em um "não-oficial", "extra-oficial", "clandestino", etc. O não-oficial, neste caso, é que essa idéia de me posicionar veio um pouco antes disso, quando tive a notícia de que estavam querendo proibir Monteiro Lobato nas escolas, sob alegação de que ele é racista. No dia seguinte, inspirada, escrevi uma crônica sobre isso. (Mas tive medo de publicá-la, pois não queria correr o risco de fornecer mais argumentos para ele ser censurado, e não só ele, como outros escritores da nossa literatura. De qualquer forma, sou contra essa censura!)
No entanto, para publicar regularmente aqui precisei contornar certos obstáculos. Não conseguia mais entrar no blog, e achei que tinha feito uma besteira irreversível, e portanto a solução ia ser muito mais difícil e demorada. Não tenho muita intimidade com tecnologia, apesar de a minha geração ter. Tive a idéia de cancelar a minha atual conta no Google e criar uma nova. Mas hesitei, porque não queria ter que pedir um novo convite para voltar a postar aqui - seria o terceiro, eu morreria de vergonha! Conversando com um rapaz que trabalha numa lan house aqui perto de casa, ele me disse que eu poderia evitar isso se criasse um novo e-mail, então uma nova conta e, quando os dois se conectassem, deletar o e-mail e a conta antigas. Ainda assim não aprovei, porque não queria ter que fazer outros, afinal já tinha esses. Finalmente, quando ia dormir uma noite dessas, me ocorreu a simples idéia: ou tentar com a senha que uso para entrar no meu próprio e-mail, ou clicar em Esqueceu a sua senha? Foi o que acabei de fazer. Pude redefinir a minha senha, e agora estou escrevendo aqui!
Desculpem estar contando tudo isso. Mas é que eu queria destacar que, durante toda esta história, me sentia tão animada, que mal pensava nessas dificuldades que estava enfrentando. Acho que quando a pessoa está realmente motivada em conseguir o que quer, só pensa em conseguir chegar lá, e isso é muito importante e estimulante. Para completar, são poucas as vezes que isso acontece comigo. Deve ser um sinal...

sábado, 28 de agosto de 2010

Caminhando na estrada
Ela vai
A paisagem sempre lhe parece a mesma
Seus pensamentos são como as folhas no outono...

Correndo com o vento
Ela vai

Surge o sol, às vezes
Não chega a iluminar seus olhos tristonhos
Queria mesmo que aquecesse sua alma

Se alguém perguntar
Diga apenas que
Ela vai
Está à procura
De um sonho para sonhar
Antes que mais uma estação acabe
Antes de retomar o começo sem acabar
E se o fim nunca alcançar?

domingo, 1 de agosto de 2010

Na parede escorrem traços singelos de lembranças
Suspira
A janela mostra o outro lado da paisagem
Noturna
Lá fora, dou muitas voltas
Prefiro ficar na velha casa que reconhece meus passos
Cada contorno
Sua sombra tem mais de um lado
A lâmpada só ilumina o que eu não quero ver
Então escuto
O invisível sussurra segredos da noite sem fim.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Estudor

Sabe aquele caderno em espiral é mentiroso, mas o caderno grampeado é verdadeiro.
Os bloquinhos de anotações são depósitos de ilusões, e o marca-texto é provocação.
A borracha apaga pecados, e o grafite sempre em dúvida, é indeciso. O lápis de cor faz teatro, enquanto o guache enfeita os desejos. Papel almaço resume histórias, o editor de texto salva da sedução. Planilha de cálculo faz as contas dos beijos, e os olhos fazem as vezes do coração.
Livro é suporte do monitor que escraviza, e a impressora já está bipolar. O lixo é boa companhia para os erros do crescimento, mas o telefone é fofoqueiro, escandaloso.
Régua cansada se entorta, e a caneta seca, sem tesão.
Cadeira conforta as nádegas surradas com suor pelo medo de ficar com zero.
Os armários guardam notícias em pastas fruta-cor, e caixas pretas não se revelam.
Pincel atômico vazou de tanto rir, pelo calendário que desmaiou.
E assim, a vida fugiu do compromisso da dor.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

Branca de Neve através do Espelho

Por Valéria Broliani

Meu nome sempre foi relacionado à verdade. O que muitas pessoas não sabem é que podemos ser mágicos. Aquele que se dispor a realizar nossas vontades, terá o que mais deseja durante sua existência humana.

Há um tempo atrás, pertenci a uma mulher obcecada por sua beleza. A vida não lhe foi justa porque levou cedo demais os que amava enquanto se tornava cada vez mais velha e infeliz. E isto não conseguia suportar. Foi quando então olhou-se no espelho e desejou com todas as forças a sua juventude e nunca mais envelhecer para não ter a angústia de ver a própria beleza fenecendo aos poucos. Isso fez com que meus poderes mágicos despertassem e eu me revelei como no momento em que uma pedra toca a superfície de um lago calmo. Eu poderia ajudá-la, mas ela teria que me entregar os corações das mais belas jovens para permanecer com o seu maior tesouro.

No vilarejo em que morava, havia muitas camponesas cheias de sonhos. Durante o dia, andavam sozinhas pelo bosque colhendo flores e trazendo água de um riacho próximo. Numa das primeiras manhãs de primavera, a velha foi até lá e, escondida entre as árvores, ficou observando uma moça. Lembrou dos tempos em que era nova e linda assim como aquela diante de seus olhos e foi sentindo um ódio que crescia tomando conta de todo o seu corpo cansado e frágil. Quando a jovem chegou à margem, levou um golpe de punhal nas costas e caiu, sendo apunhalada inúmeras vezes até a morte. A velha abriu-lhe o peito arrancando o coração ainda quente. Jogou-o numa bolsa de pele de corça e empurrou o corpo nas mesmas águas frias em que lavou as mãos. Caminhou pelas ruelas até a sua casa tranquilamente, sabendo que era apenas o início de uma vida secreta. Entregou-me o coração e esperou pela noite. No dia seguinte, procurou pelos primeiros sinais de rejuvenescimento em seu rosto, mas ainda era cedo. Percebeu apenas o seu olhar diferente. Eram olhos famintos agora.

Os habitantes da pequena vila ficaram aterrorizados com o crime somado aos outros que se sucederam. Ela tramou muitas artimanhas para não levantar suspeitas, até o momento em que a vizinhança percebeu uma estranha na casa da velha solitária. Justificou que a senhora estava muito doente e era uma parente distante que veio cuidar dela. Logo depois abandonou o lugar para sempre. No caminho, teve um problema com a carroça e um rei que passava no mesmo instante, parou para ajudar e acabou fascinado por tamanha beleza.

Algum tempo após o episódio, casou-se com ele somente para satisfazer sua vaidade e ser a mais bela do reino, adorada pelo seu povo. O rei era viúvo e tinha uma filha. A menina tinha a pele branca como a neve, os cabelos negros como o ébano e as faces carminadas como o sangue. Era encantadora.

O marido não entendia como a cada ano que passava, sua esposa ficava ainda mais bonita. Pouco antes da princesa completar sete anos, a rainha viveu sua época mais exuberante. Seus cabelos eram da mesma cor das folhas tocadas pelo pôr-do-sol no outono. Os olhos eram verdes e instigantes como se guardassem almas múltiplas e seus lábios eram atraentes como cerejas frescas. Entretanto, a partir do sétimo aniversário da menina, sua beleza se apagava diariamente.

Era noite alta quando a rainha começou a andar de um lado para o outro no quarto. O rei percebeu sua aflição perguntando o que havia acontecido mas ela não lhe deu resposta. Apenas deitou em seus braços deixando escorrer uma única lágrima e logo adormeceram. Num sobressalto, acordou com a impressão de um pesadelo e lembrou da dama de companhia da princesa que era a serviçal mais jovem do castelo. Na manhã seguinte, sua enteada sentiu falta da criada, mas ninguém a encontrou. Somente dias depois soube-se que o corpo da moça havia sido encontrado na floresta com a garganta cortada e o coração arrancado.

A rainha não estava satisfeita e me questionou porque continuava a envelhecer tão rápido. Eu expliquei que conforme os anos do nosso acordo passassem, ela teria que me oferecer mais corações ou deixaria de ser tão formosa. Ainda assim, se ela me trouxesse o coração mais puro da mais bela da redondeza, ganharia mais tempo.

- Espelho meu, se revelar na sua superfície a dona do coração mais puro poderei cumprir a tarefa mais depressa. – pediu a rainha. E eu respondi:
- Ainda não sabe? Está mais perto do que imagina.
- A princesa... – falou admirada como quem acabara de descobrir o motivo de um sentimento que a intrigava, como se os seus olhos estivessem vendados para a realidade que se mostrava agora. Em seguida, certa da ação, pensou numa maneira de acabar com a filha do próprio marido. Numa tarde nublada e fria, depois que o rei saiu em viagem, ordenou que um caçador levasse a garota para a floresta e a matasse trazendo o seu coração como prova da morte.

Chegaram na floresta sob o pretexto de ver os animais silvestres, mas o rude homem apiedou-se diante da linda e meiga menina a implorar pela vida quando entendeu que estava ali para morrer. Ela lhe prometeu nunca mais voltar ao castelo e assim nunca ninguém saberia o que realmente aconteceu naquele dia. O caçador aceitou, pois uma vez na floresta junto aos animais ferozes, a morte dela era certa e ele não carregaria a culpa de um crime. No caminho, por entre as árvores, avistou um filhote de cervo e foi deste o coração que entregou.

Quando o recebi das mãos da rainha, não percebi que era de um animal nem tampouco ela desconfiou. O rei voltou sete dias depois e soube do desaparecimento de sua filhinha. Durante a viagem, ouviu histórias de uma aldeia vizinha sobre a morte de várias jovens cujos corações foram arrancados assim como acontecera com a serviçal do castelo. Como não encontraram nenhum vestígio da princesa, restou a esperança de encontrá-la viva. O tempo passou e notícias não chegaram. O rei era tomado cada vez mais pela tristeza por não saber notícias de sua querida filha e também por não ter outro herdeiro. A verdadeira idade da rainha jamais permitiria que lhe desse filhos. Era uma mulher belíssima por fora porém tão seca quanto uma uva passa por dentro.

Durante um período a menina vagou assustada pela floresta. À noite, relâmpagos e trovões deixavam o lugar ainda mais aterrorizante. Na chuva, ela correu sem rumo ferindo seus pés delicados e arranhando nos espinhos sua pele alva que aos poucos foi marcada por riscos vermelhos de sangue. De repente, viu uma clareira e nela o acampamento de um circo que se apresentava nos arredores do reino. Um velhinho com cara de duende a acolheu mortificado com os últimos acontecimentos de sua vida. Disse que poderia juntar-se à eles se não lhe importasse conviver com os seres mais espantosos da região. Muitos eram excluídos da sociedade e passavam a viver no circo e ela sendo tão bonita poderia não se adaptar. Mas era a jovem com o coração mais puro que exisitia e aceitou a ajuda.

A rainha gastava horas se admirando à minha frente e pouco a pouco continuava envelhecendo. Não demorou a notar que tinha sido enganada. Seu marido logo adoeceu misteriosamente. Uns diziam que era a falta da filha, outros falavam que a esposa não lhe dava atenção. Ainda havia os que justificavam que o mal procedia das duas coisas. Ele morreu sozinho.

O castelo estava vazio. A antiga solidão voltava a assombrar os dias da rainha. Eu lhe mostrei o que aconteceu naquela tarde em que sua enteada desapareceu. Ela pensava num modo de realizar a sua tarefa para recuperar a mocidade que estava se perdendo com as rugas que surgiam. Dispensou muitos empregados e passou a ficar mais no quarto. Saía muito pouco e quando o fazia, cobria o rosto com um véu. Numa manhã, olhou-se no espelho e viu que não podia mais ser reconhecida. Separou todos os livros de magia que pertenceram às suas ancestrais e descobriu vários feitiços, em especial, o da maçã encantada.

No acampamento, a princesa vivia momentos difíceis. As mulheres sentiam inveja de sua beleza e alguns homens a perseguiam. Havia alguns meses que o circo estava no mesmo lugar e em breve retornaria à estrada. Teria que partir também. Não sabia se com o grupo ou sozinha. Soube da morte de seu pai e chorou muito, por ele e por ela.

Enquanto o pessoal arrumava seus pertences para seguir viagem, uma velha camponesa apareceu por lá vendendo maçãs. Ela enxergou a garota mais afastada, do outro lado da clareira e foi ao seu encontro.

- Maçãs, mocinha? Olhe como estão apetitosas. – pegando a maçã enfeitiçada. Tinha sido habilmente preparada para ser a fruta mais perfeita e saborosa: por dentro suculenta e por fora de um vermelho tentador e com um perfume capaz de aguçar qualquer paladar, mas quem a provasse certamente morreria envenenado.
- Não tenho dinheiro, senhora. – disse a menina.
- Então será um presente. Já é tarde e acho que não vou mais conseguir vendê-las hoje. Será como uma bendição de uma velhinha para uma jovem cheia de vida pela frente.

Não teve como recusar algo de uma senhora tão gentil e amável. Parecia deliciosa e rapidamente deu uma boa mordida. Ela caiu desmaiada e quando a madrasta pensou em arrastá-la para dentro da floresta para abrir-lhe o peito, percebeu que um anão ao longe vinha prontamente. Apanhou a maçã da mão da enteada e correu com dificuldade sumindo mata adentro.

- Depressa, ajudem! – gritou o anão.

Ele falou da velha que havia fugido mas ninguém encontrou sinal algum. Também não acharam ferimento na menina, simplesmente estava sem vida. Ocupados com a mudança, poucos repararam a presença da camponesa com as maçãs e agora nada mais lhes restava a não ser enterrar o corpo. Mas o senhor que a recebeu não deixou que o fizessem. Chorou sobre o cadáver e corrido três dias e três noites continuava com o mesmo viço como se ela estivesse apenas dormindo. O homem então decidiu levá-la na viagem pois não poderia simplesmente abandoná-la sob a terra escura.

Os anos passaram conservando sua pele alva como a neve, seus cabelos sedosos e negros como o ébano e suas faces carminadas como o sangue. Em uma de suas andanças, chegaram ao reino vizinho ao da princesa. Uma multidão os acompanhou até a frente do palácio onde saudaram o rei. Do alto do balcão, o príncipe viu dentro de um dos carros a bela dormindo num esquife de vidro. Ele ordenou que trouxessem o responsável pelo circo para saber quem era a moça mais linda que até então tinha visto. O viajante contou de sua origem nobre e de sua sorte. O jovem herdeiro lamentou o destino cruel da princesa e pediu para ficar com ela prometendo dar-lhe as honras que prestam ao seres mais amados. Como já estava muito velho e temia o futuro, disse ao rapaz que poderia ir buscá-la no acampamento.

O príncipe se dirigiu até lá com alguns serviçais que prenderam o esquife na parte superior da carruagem e mandou que conduzissem até o castelo. No caminho, um movimento abrupto fez com que pulasse da boca da garota o pedaço de maçã que mantinha entalado na garanta. Ela respirou profundamente, abriu os olhos e começou a bater nas paredes de vidro. Os criados abriram a tampa surpresos e o nobre pendurou-se no carro feliz em vê-la com vida:

- Onde estou? – perguntou a jovem.
- Está comigo. Vou levá-la para o castelo do meu pai onde você estará livre das maldades de sua madrasta e se tornará minha amada esposa.

A princesa ficou maravilhada com a gentileza e o amor do príncipe e aceitou casar-se. O rei ficou tão alegre com o casamento do filho que ordenou a realização da festa mais linda da redondeza. Centenas de pessoas foram convidadas, entre elas o seu protetor e a madrasta. Esta teria retornado à floresta dias mais tarde ao envenenamento em busca do corpo da enteada, não encontrando vestígios do enterro. Curiosa para conhecer a princesa cuja formosura era enaltecida, foi ao baile coberta por um véu negro e teve uma surpresa ao vê-la. A noiva procurava com os olhos a rainha má entre os convidados e somente a reconheceu quando avistou em seu dedo um precioso anel que pertencera à sua mãe. Arrancou-lhe o véu e lembrou do olhar inconfundível de sua madrasta, não lhe restando dúvidas. Os soldados a seguraram e, à força, colocaram-lhe sapatos de ferro. Ela foi condenada a dançar sem parar sobre um braseiro até a morte.

Com isso, os dois reinos foram unidos e os pertences da madrasta em grande parte foram queimados. Eu fui coberto por uma pele de corça e guardado num depósito em uma torre onde quase nunca aparece ninguém, mas ainda tenho a distração de ver o que acontece em todo o território. Sei que a mais bela menina do coração mais puro se transformou numa admirável mulher. Está feliz e plena pois se tornou mãe de uma linda princesinha. Há também uma outra garota aqui. Ela foi abandonada por uma camponesa numa das portas laterais do castelo e a jovem de pele alva que agora é uma rainha, batizou essa pobre menininha e lhe dá toda a assistência necessária. Muito curiosa, às vezes ela vem até o depósito. Já me descobriu algumas vezes para admirar o seu reflexo, mas existe alguma coisa em seu olhar que me é familiar. Como não tenho o dom de ver o futuro, somente os fatos que já ocorreram, não sei o que está reservado para esse lindo e tranquilo reino...

domingo, 27 de junho de 2010

olá,

De acordo com a proposta do nosso último encontro (escrever a partir da criação de Paulo Leminski e agregar ao nosso texto ou o contrário), segue o que eu lhes apresentei:

Cortinas de seda
O vento entra
Sem pedir licença*

No copo
Pequenas doses de ilusão
À espera de lábios quentes.

***

Dias apressados
A janela desenha no chão uma gaiola
Que desaparece
Quando o sol vai embora.

À noite me pinga
Uma estrela no olho
E passa.*

*Paulo Leminski


Por favor, não me deixem sozinha nessa! Postem o de vcs tbém!
abraços,

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Amante

Vocês mulheres, isso mesmo, vocês. Tenho por mim que serei, em curto espaço de tempo, um defunto ilustre no fundo dos olhos de cada uma. Irão relevar minhas faltas, pois vou me adaptar facilmente a seus gostos. Sou incondicionalmente cúmplice de suas vontades, desejos.

Aliado maroto a sua crise de rebeldia, deixarei acender e apagar sua chama de desejo por toda noite que puder roubar. Não tenho ciúmes, e sou sempre dado a amores novos. Preencho vazios. Coração não fica na ponta do medo, aproveita intensamente os segundos que não terminam. Vivo.

Queridas, espero que esqueçam o que muitos dizem sobre o que sou. Tenho um coração quente e sou amarrado pelo corpo. O suor das suas mãos é o tempero da minha fome.

Tá! O ibope vem aumentando, e tenho agenda cheia, mas nunca me esqueço de você. Ligo quando menos esperar. No que faço não existe profissionalismo. Já imaginou Don Juan empregado? Não pode ser. Amo todas, e transformo suas necessidades escondidas em atrevimentos reais.

Dou flores na tarde morna; beijos na nuca; trago arrepios que se espalham no corpo dando a notícia da paixão; fogo; falo na hora exata de sua vontade; beijo; ser teu quando estivermos sós; forte na medida certa; gozo; cafajeste para corromper honestamente seu coração; deixar o tempo para os outros e dar-lhe vida; intensidade; morder seus lábios carnudos e transformá-los em beiço pronto para o choro quando partir; fazê-la sentir-se criança querendo mais, e mais, e mais...

O romance pode escrever nossa história, e a novela que vocês vejam em casa.
Eu? Sou, tipo assim, uma crônica: leve, ligeiro, alegre e sedutor.

Mulheres, aquilo de querer, ainda me levará até seus pés.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

"A Valsa" - Casimiro de Abreu


Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
Na valsa
Tão falsa,
Corrias,
Fugias,
Ardente,
Contente,
Tranqüila,
Serena,
Sem pena
De mim!
Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Valsavas: — Teus belos Cabelos, Já soltos, Revoltos, Saltavam,
Voavam, Brincavam No colo Que é meu; E os olhos Escuros Tão puros, Os olhos Perjuros Volvias,
Tremias, Sorrias, P'ra outro Não eu! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti!
Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... — Eu vi!... Meu Deus! Eras bela Donzela,
Valsando, Sorrindo, Fugindo, Qual silfo Risonho Que em sonho Nos vem! Mas esse Sorriso Tão liso Que tinhas Nos lábios De rosa, Formosa, Tu davas, Mandavas A quem ?! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas,.. — Eu vi!... Calado, Sózinho, Mesquinho, Em zelos Ardendo, Eu vi-te Correndo Tão falsa
Na valsa Veloz! Eu triste Vi tudo! Mas mudo Não tive Nas galas Das salas, Nem falas, Nem cantos, Nem prantos, Nem voz! Quem dera Que sintas As dores De amores Que louco Senti!
Quem dera Que sintas!... — Não negues Não mintas... — Eu vi! Na valsa Cansaste; Ficaste Prostrada, Turbada! Pensavas, Cismavas, E estavas Tão pálida Então; Qual pálida Rosa Mimosa
No vale Do vento Cruento Batida, Caída Sem vida. No chão! Quem dera Que sintas As dores
De amores Que louco Senti! Quem dera Que sintas!... — Não negues, Não mintas... Eu vi!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Auto-retrato

Vincent Van Gogh, Auto-retrato, 1889.

Ao entrar naquele ambiente logo pude ver um reflexo subliminar. Inicia sério, parecendo requerer distância, sem muita conversa. Um que de reservado, por vezes de arrogância. Pelos traços de seu corpo tudo indica um perfeccionista: cabelo, roupas, óculos,... Os reflexos são admiráveis, digamos que à primeira vista um bom partido. Os olhos têm particularidades, implicam num leve tom de tristeza. Requer ser decantado, dar oxigênio para respirar. Evoluir. Não meses, mas em horas, com a troca de poucas palavras é bom ouvinte, muito amável. Honestidade o permeia, é o orgulho de tanta bondade. Ainda persiste um amargor, porém nada que tire o equilíbrio. Ao ser questionado, logo se dá a perceber que não aceita opinião dos outros. Críticas, nem pensar. Apesar de querido, como um amante, ainda assim pede distanciamento. Estranho, para um poço de simpatia. Acende-se uma luz mais forte, e vejo então os contornos do espelho que me denuncia...

Postado por Fábio Antonio Filipini

segunda-feira, 29 de março de 2010

Ouvir Estrelas - Olavo Bilac


“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...
E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”
E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”

(Poesias, Via-Láctea, 1888).