segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eu sou tudo isso

Lembrando do ano passado, quando o rapaz do censo esteve na minha casa e perguntou a nossa cor (estávamos eu, minha mãe e meu irmão), eu comecei a dizer que essa era uma questão complicada para a gente, porque não temos uma cor só, mas a minha mãe atalhou que éramos brancos, e ponto final. Não, ela não é racista, apenas quis facilitar as coisas.

Nunca me entrou na cabeça por que no censo do brasileiro só se marca uma entre as cinco opções: branco, negro, pardo, amarelo ou indígena (vermelho), sendo que a maior parte da nossa população é misturada. Eu mesma sou branca (polonês, italiano - herança do meu pai - ucraniano, português, e ainda pode haver mais), negra (ainda quero descobrir de que país e povo), índia (ainda quero descobrir de que povo - o estado mais provável é a Paraíba, mas existe uma possibilidade também de ser o Ceará) - tudo isso de herança da minha mãe. Conseqüentemente, também sou parda ou mulata (mistura de branco com negro), cafuza (negro com índio) e cabocla (branco com índio). Aí está a salada. Costumo brincar que só falta agora eu descobrir alguma ligação com o Oriente - a propósito, já houve gente que perguntou para o meu irmão se ele é chinês. Será?

A questão é que essa forma de responder não faz muito sentido no Brasil. Como é que querem que reconheçamos a miscigenação étnica se a única opção mais próxima disso é reconhecer-se pardo? A questão é que não estamos dizendo toda a verdade sobre nós, e cada vez mais gente se sente confusa ao responder. Meu pai acha que devemos afirmar qual é a cor predominante em nós, mas também não concordo. Hoje eu tenho aparência de branca, apesar de ter herdado os traços da minha mãe. Mas aos 11 anos com certeza seria tomada por uma índia. E então?

Acho que deveria haver uma sexta opção entre essas alternativas, com um espacinho do lado para enumerar quais são as etnias que se combinam naquela família ou naquela pessoa. Sim, vai dar mais trabalho para o pessoal do IBGE cadastrar esses dados - mas eles já não estão acostumados, com a complexidade que é o Brasil?

Até um tempo atrás eu chamava essa sexta categoria de "misturados" (essa expressão aparece no livro "Contos gauchescos e lendas do Sul", de Simões Lopes Neto, de entre o final do século XIX e o início do XX, agora não lembro bem). Mas acho que foi o meu irmão que deu o nome mais adequado: "multiétnicos". É exatamente o que nós dois, e muitos outros brasileiros, somos, multiétnicos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Há catorze anos

No dia 19 de abril de 1997, Dia do Índio, sete membros da tribo Pataxó Ha-Ha-Hae estavam em Brasília para reivindicar o direito à posse de suas próprias terras, direito prometido pela Constituição de 1988. Na noite desse dia, a tragédia: o líder, Galdino de Jesus, dormindo num ponto de ônibus, foi incendiado por cinco garotos de classe média alta que, para se defender depois, disseram que "era só uma brincadeira" "com um mendigo". Dois dias depois, a vítima não resistiu às graves queimaduras e morreu no hospital. Eu tinha sete anos nessa época, mas não me lembro de nada disso. Curiosamente, só fui tomar conhecimento desse fato quatro anos depois, na 5ª série, porque uma notícia sobre caiu numa prova de História. Só então pude me horrorizar. Também tive a oportunidade de ter acesso, mais tarde, a dois livros dirigidos ao público infanto-juvenil que fazem referência a esse acontecimento, provavelmente escritos na época: "Sangue de índio", de Rogério Andrade Barbosa, e "Brasil 500 anos", de Regina Rennó. Também agora tive acesso a um poema de 2009, "Índio Galdino de Jesus", de Azuir Filho e outros. Ponto para esses autores, especialmente o mais recente, embora o poema não seja dos melhores. Contudo, posso estar enganada, mas, de lá para cá, as únicas notícias que vejo sobre este caso são notas bastante espaçadas sobre os autores do crime, que estão presos em regime semi-aberto, ou seja, saem da cadeia para trabalhar durante o dia, mas têm que voltar à noite (e essas notas só aparecem quando eles aprontam alguma). Nenhuma palavra mais sobre a tribo, que passou a viver sem Galdino - será que eles acham que a punição que os assassinos receberam foi justa? Eles não passaram a ter medo de ir até Brasília? Como está a situação de suas terras, pois foi para isso que eles foram até lá, para que os invasores fossem forçados a se retirar? Este caso não deveria cair no esquecimento jamais, as escolas deveriam relembrá-lo para as crianças quando ensinam sobre os índios, para mostrar que o povo brasileiro ainda tem muito que evoluir no seu acerto de contas com o passado (e apesar de sermos uma das Constituições mais aprovadas do mundo, apelidada de Cidadã, inclusive). Seria interessante que a imprensa rememorasse essa tragédia, conversando com os Pataxós, mas também com os garotos de Brasília e suas famílias, tomando cuidado, claro, para não cair na vitimização dos índios e nem no tom acusatório com relação aos brasilienses. O objetivo precisa ser reabrir o debate: de que maneira tratamos as pessoas que vivem diferente da massa urbanizada, e que portanto têm outras necessidades, garantidas pela lei, e com o detalhe de que foram os primeiros donos desta terra chamada Brasil? E este debate também deveria acontecer nas escolas, mediante livros e notícias. Só para concluir, lembro que um professor meu, de História, disse algo interessante sobre esse caso: se ele fosse o juiz, não prenderia os rapazes, e sim os condenaria a uma pena alternativa na ala de queimados de algum hospital infantil. Não sei se concordo com isso, pois acho que eles deveriam ficar presos eternamente, mas também não consigo deixar de pensar que talvez isso surtisse mais efeito na regeneração deles. Ah, e feliz dia do "descobrimento do Brasil". Aí vai o poema de Edson Ponick, catequista e escritor, entre outras atividades, que ajudou a planejar uma cartilha sobre os povos indígenas no ano 2000. Apesar de esse poema ser referente aos "500 anos", não perdeu a atualidade: Há pouco tempo Era coberta a terra, há muito tempo, de matas, rios e animais selvagens. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Cortaram verdes e plantaram cinzas. E a terra, então coberta de belezas, Hoje resseca com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo, De ouro, prata e minerais valiosos. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Levaram brilhos e deixaram sombras. E a terra, então coberta de riquezas, Hoje empobrece com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo, de povos, raças, rituais variados. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Burlaram a vida e cultuaram a morte. E a terra, então coberta de culturas, Hoje agoniza com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo. Por que festejam o seu descobrimento?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Poesia, o rejuvenescimento possível

Faz algum tempo que li uma crônica do Miguel Falabella, na revista Istoé, em que ele formulava uma ode à poesia, ressaltando, por exemplo, que ela é importante à imaginação. Um dos pontos altos desse texto, pelo menos para mim, foi quando sugeriu que deveriam existir postos de poesia 24 horas para pessoas cuja criatividade está em baixa.

Apesar de adorar ler poesia, não leio todo dia, mesmo tendo cadernos e mais cadernos preenchidos com poemas e letras de música, para meu próprio uso (ao contrário de Miguel, raramente me utilizo da Internet para buscar poesia, principalmente se for de poetas que não se expressavam pela língua portuguesa). Quando leio poesia, o dia fica mais leve e minha alma, mais suscetível a ver o mundo de forma diferente, prestando atenção em detalhes bobos, que pulam à minha frente como que aumentados, e nos quais normalmente não me ligo - não é à toa que Autran Dourado recomenda a candidatos a prosadores lerem alguns bons poemas antes de começarem a escrever, e que eu mesma passo a ter idéias para versos, como se tivessem me sido implantadas na cabeça, quando que na verdade a arte me devolveu a visão, ainda que por um momento. Mas, como ia dizendo, ainda não cheguei ao ponto de ler todo dia. Ainda prefiro quando a poesia me surpreende, que foi o que aconteceu, por exemplo, na última sexta-feira.

Alguém aí já ouviu falar dos Pacotes de Poesia do SESC? Trata-se de pacotes de pão com folhas de papel kraft dentro, contendo poemas de autores brasileiros, tanto clássicos como contemporâneos. Pois estava eu lendo a revista do Paço da Liberdade, espaço cultural no qual também se pode pegar os pacotes, quando lembrei que tinha um do Antonio Cícero numa gaveta, ainda virgem de leitura, e li de uma sentada. Nossa! Quanta beleza! Ele é desses poetas que trabalham metáforas finas, e por conta disso envolvem. (Bom, quem é fã da Marina Lima, irmã dele, para quem ele compõe letras, deve saber do que estou falando.)

Sempre que me abismo assim com algum escrito, parece que fazia muito tempo que não me expunha à beleza, ou seja, a minha alma estava precisada. Como tempo cronológico, nem faz tanto tempo assim: o último poeta de que me fiz acompanhar maciçamente, Bertold Brecht, esteve comigo em dezembro e janeiro. Depois disso, uns poemas e poetas esporádicos. Mas o tempo psicológico que nos afastava já parecia ser de anos! Preciso ler poesia com mais freqüência, ainda quero chegar a ler algumas todo dia, conforme o próprio Falabella sugeria em sua crônica. Cheguei à conclusão que até pode ser uma fonte da juventude, pois pode diminuir asperezas e arestas que a alma vai criando com o tempo.

Obs: Para quem quiser pegar Pacotes de Poesia, até dia 29 deste mês é do Francisco Alvim, que será substituído por Emiliano Perneta. Dá para pegar no Café do Paço da Liberdade, no SESC da Esquina e no SESC do Centro. E, agora, fiquem com uma palhinha de Antonio Cícero:

Oráculo


Vai e dize ao rei:


Cai a casa magnífica,


O santuário de Apolo;


Fenece o louro sagrado;


A voz da vidente emudece;


As fontes murmurantes se calam para


sempre.


Diz adeus adeus.


Tudo erra, tanto


A terra vagabunda quanto


Tu, planetário.


Criança e rei, Delira e ri:


Meu sepulcro não será tua masmorra.


Alimenta teu espírito também com meu


cadáver,


Pisa sobre estas esplêndidas ruínas e,


Se não há caminhos,


Voa.


Voa ri delira


Nessa viagem sem retorno ou fim.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O CELEIRO PEGOU FOGO E A VACA FOI PRO BREJO


CERTA FEITA NUMA FAZENDA

NÃO TINHA GADO

SÓ FAZENDEIRO E CELEIRO

PRO SUSTENTO DA FAMILIA

UMA VACA LEITEIRA

NA FESTA DE SÃO JOÃO

SOLTARAM FOGOS E BALÕES

UM ROJÃO ACERTOU O CELEIRO

ASSUSTANDO A VACA LEITEIRA




(soneto de título explicativo)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por que temos que envelhecer?

Semana passada, a minha mãe trocou a esponja de banho, que já estava quase se rachando em duas, por uma linda, durinha de dar gosto, que eu fui a primeira a inaugurar. Enquanto a usava, verifiquei que precisaria comprimi-la, e mantê-la assim, para me ensaboar melhor e, depois, para tirar toda a água dela. Achei uma pena, pois logo ela perderia seu belo formato duro e grande para ficar flácida e rachada, como a velha. Comecei a refletir por que ela não poderia voltar a ter o mesmo frescor e aspecto do primeiro dia de quando foi desembrulhada. E logo esse pensamento se estendeu às pessoas.

Eu mesma, apesar dos meus 21 anos, sinto que estou envelhecendo, e que a faculdade está tornando isso mais rápido. Em comparação às aulas de quando eu era criança, hoje estou mais desconcentrada, me sinto embotada, me estresso e me sinto desmotivada mais depressa, mais cedo, principalmente pelo fato de ter muitas coisas a fazer e pela impressão de que não precisaria serem tão atropeladas, todas ao mesmo tempo. Na minha opinião, esse é um dos grandes problemas da vida universitária, embora adore o ambiente acadêmico, e tenha escolhido estar nele. Ou seja, vou ter que me desgastar, para sair diferente de quando entrei, espero que melhor. A vida geral também não deixa de ser isso, pelo menos para quem acredita em vida após a morte: uma fase para que sejamos pessoas cada vez melhores. Para tanto, ou seja, para se ter uma vida realmente útil, é imprescindível o desgaste, físico, mental, espiritual..., significando ganho de experiências, que é um processo que muitas vezes dói, mas ninguém discute sobre a importância. Sob outro ponto de vista, também não passamos de instrumentos de trabalho, embora possamos nos manter jovens através de vários meios, desde qualidade de vida até cirurgias plásticas.

Mas de repente comecei a pensar: será que ia mesmo ser legal se, a cada desgaste, pudéssemos rejuvenescer, voltar ao que éramos inicialmente? Como num filme de ficção científica, poder substituir o chip a qualquer sinal de defeito? Isso nem mesmo seria lógico, pois implicaria desistir também de toda bagagem que vamos adquirindo pela vivência, ou seja, voltar exatamente à mesma inocência que tínhamos antes da morte de um ente querido, por exemplo. Por mais que nos doa a possibilidade de envelhecimento, creio que esse processo é importante para que nos lembremos de que nossa capacidade para tudo, inclusive para viver, é limitada. Mesmo que a ciência descubra uma maneira de nos tornar imortais, ou pelo menos mais longevos ainda, tenho a impressão de que a maior parte das pessoas não ia querer isso. Morrer também é descansar, e parece que ninguém tem dúvidas disso com relação a José Alencar, por exemplo. O envelhecer, então, pode ser entendido como uma ampulheta que marca o tempo de permanência, ou pelo menos de atividade, até que se tenha de ceder o bastão a outro, como no caso da troca de esponjas do começo deste texto, ou a vida (mesmo que em muitos casos não haja relação direta de envelhecimento com morte).

A princípio, envelhecer seria um morrer diário. Mas só a princípio. Existem sexagenários, septuagenários, octogenários, nonagenários (como se chama alguém que chegou aos cem anos, ou os ultrapassou?) que nos fazem esquecer isso, e, no meu caso, até desejar ter aquela idade, para ter aquela sabedoria. Novamente aqui o José Alencar pode servir como exemplo. Estas pessoas me fazem até pensar que os melhores jovens às vezes são os velhos, que às vezes faz-se necessário envelhecer para desfrutar da juventude. Porque eles não têm tempo a perder, sabem o que querem e já não estão amarrados pelas obrigações e convenções sociais. Sob estas perspectivas, tem muita gente que se descobre quando é declarada idosa, e detalhe: às vezes mesmo sofrendo com alguma perda de agilidade física ou mental. Mas isto já é assunto para outra crônica. Felizmente, pessoas não são como coisas: têm a possibilidade, por terem consciência, de prolongar seu tempo de juventude, contando com a sabedoria da velhice, mesmo tendo muitos anos no currículo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Uma mulher especial

Fiquei duas semanas sem postar, por diferentes motivos. Por isso, aqui vai uma homenagem um tanto tardia às mulheres pelo dia delas.
Como mulher, gosto que haja um dia só nosso, claro. É uma pena, no entanto, que as felicitações ao nosso sexo se restrinjam sempre aos mesmos temas: a mulher é carinhosa, transpira mais cuidados que o homem, repara mais nos detalhes, enquanto que ele só repara no todo, foi muito injustiçada no passado, e ainda é hoje, pois a violência doméstica continua sendo uma realidade em muitos lares, brasileiros e do mundo. Não que esses temas não sejam importantes, principalmente o da violência é essencial. O que sempre penso é que tudo isso é muito pouco para formar uma identidade, seja de uma pessoa, seja de um grupo social (mas em pior situação ainda estão os homens, que só começaram a ser pensados em oposição às mulheres a partir de meados do século XX, com o fortalecimento do movimento feminista no mundo). Esclareço que ainda não li Simone de Beauvoir, que diz que a mulher não nasce, se faz. O que ela aponta como sinais de que uma pessoa está caminhando nessa direção, ou que já está bastante avançada nessa tarefa? (Quando ler, conto para vocês, hehe.) Só um adendo: em pleno século XXI, o fato de uma mulher assumir o posto de maior poder de um país, qualquer país que seja, ainda é visto com admiração, quando já deveria ter se tornado um fato corriqueiro. Mas, enfim, antes tarde do que nunca.
Na verdade, meu foco é outro. Não sei por que, ao me lembrar de mulher acabei me lembrando de uma personagem de Érico Veríssimo, Bibiana Terra, que aparece no livro "O tempo e o vento - O continente I". Não é muito difícil encontrar referências a ela como sendo uma mulher forte. Mas eu sempre questionei isso. A moça vive sob a tirania do pai, Pedro Terra, casa-se com o homem que ama, o capitão Rodrigo Cambará, mas cai num inferno, pois o marido, depois de um tempo, se cansa dela e acintosamente procura outras mulheres, bebe e joga. E ela agüenta, o importante é que ele não a deixe (além do amor, ela tem dois filhos com ele). Talvez a força esteja no fato de que, mesmo com toda a cidade sabendo o que Rodrigo apronta, ela não diz uma palavra ao pai sobre isso. Não pensa em voltar para a antiga casa, mesmo Pedro Terra franqueando a entrada para a filha, com pena dela. Pelo menos eu, todas as vezes em que li esse romance, ficava "aconselhando" Bibiana a largar desse homem, que não valia a pena. Mas ela, nada. Mesmo quando o capitão foi irresponsável a ponto de largar a filhinha morrendo para jogar baralho. Ou durante a batalha em que ele tomou parte e da qual viria a morrer: Bibiana continuou firme, sozinha na casa, porque tinha certeza de que ele viria lá para dar um oi, e se ela não estivesse lá ele não saberia onde encontrá-la, e realmente seria a última vez em que se veriam. Ou seja, uma perfeita amélia. Não tenho certeza disso, mas, para mim, foi Érico quem criou primeiro essa figura na nossa literatura, mais ou menos na mesma época em que Mario Lago imortalizou o famoso samba (que, no entanto, não foi o primeiro a dar o significado da mulher que sofre por amor para essa palavra: ela já existia assim, embora não de forma muito clara, num poema de Júlia da Costa, poetisa catarinense que viveu em Curitiba no século XIX). Érico mostrou uma mulher forte, mesmo tendo toda uma aparência de fraca, mesmo com o tipo de vida que levava, mesmo sendo uma amélia. Bibiana se contentava em ser casada com Rodrigo Cambará. O que mostra que a força feminina não é tanto resultado do tipo de vida que se leva (a não ser que se tenha desejado e lutado para alcançar aquilo), como a mídia muitas vezes acaba passando, mas pode vir de elementos impensáveis. A personagem vivia, não cobrava muito da vida, porque a vida já cobrava muito dela. De vez em quando vinha a felicidade, em pequenos momentos, como o último encontro entre eles, emocionante. O que é a felicidade? Ela não tenta descobrir, apenas a vive, quando aparece. É essa a sabedoria típica de nossas avós e de muitas mulheres simples e afastadas dos grandes centros urbanos que vivem por aí. Embora as questionadoras tenham sido muito importantes também, para a história da humanidade.
Por tudo isso, em homenagem à mulher elejo Bibiana Terra como uma mulher interessante para se conhecer e admirar. Mas não esqueço as minhas personagens reais favoritas: além das já citadas Simone de Beauvoir e Júlia da Costa, Anne Frank, Hellen Keller e Anne Sullivan, Marie Curie, Joana D´Arc, Olympe de Gouges, Coco Chanel, George Sand (se travestia de homem para poder ser escritora), Madre Teresa de Calcutá, Dra. Zilda Arns, Rosa Luxemburgo, Chiquinha Gonzaga, Júlia Wanderlei, Cecília Meireles, Cora Coralina, Carmen Miranda, Isadora Duncan, Virginia Woolf, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Pagu, Maria Quitéria, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Martha Medeiros, Marleth Silva, Maria da Penha e tantas outras cujos nomes não estou me lembrando agora. Viva nós!
O poema da Júlia da Costa (1844-1911):
Amélia
Quando no centro dos bosques
A rolinha pipilar,
Uma saudade me manda
Nas ondas do alto mar.
Nas ondas do alto mar
Quando a noite for formosa,
Me manda de teu piano
Uma nota harmoniosa.
Uma nota harmoniosa
Que defina o teu sentir;
Que me traga uma saudade,
Que me mostre o teu sorrir.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Intimidade

Penso que uma das contribuições mais importantes da literatura, ao menos para mim, é poder discutir a vida humana sem disfarces. Afinal, num bom livro entramos diretamente em contato com a alma dos personagens, sendo esta a parte mais importante de uma pessoa. Ou então suas ações, pensamentos e sentimentos estão organizados de maneira a descobrirmos quem esse personagem é. O que muitas vezes acaba se revelando um espelho que se volta para nós mesmos, que lemos.
Estou dizendo isso por causa de um livro que li durante estas férias, "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", de Clarice Lispector. Um dos elementos que achei mais geniais nesse romance é que os personagens, Loreley, apelido Lóri, e Ulisses desenvolvem uma relação na qual falam abertamente o que sentem e pensam, sem perder tempo com amenidades ou bobagens. Ela é capaz de ligar para ele no meio da noite e dizer algo como: "Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro". E ele compreende, e diz sempre exatamente o que ela precisa ouvir! Talvez justamente por conta dessas declarações diretas dela e dessa compreensão e franqueza dele, a princípio esse relacionamento parece muito frio e formal. No entanto, ele consegue ser muito mais real e verdadeiro do que grande parte dos nossos relacionamentos, ou talvez até mesmo da totalidade deles. Exatamente por causa da tal da intimidade, que para mim é compreender o outro, mesmo que ele se faça hermético, agir conforme a necessidade dele e, principalmente, ter e dar a liberdade de falar o que vier à cabeça do jeito que veio, mesmo que seja uma epifania nascida do perfume de jasmim sentido de madrugada.
De quantos conhecidos nossos podemos dizer que realmente temos intimidade para falar, por exemplo, da epifania nascida do perfume de jasmim sentido de madrugada? Geralmente, sentimos medo: da incompreensão, do que o outro pensará de nós, do deboche, da raiva... O mais triste é que tem gente que passa a bloquear todo e qualquer sentimento, pensamento ou ação que fuja do entendimento comum, mesmo que faça sentido para elas. Quem opta por permanecer tendo percepções incomuns geralmente acaba se escondendo, falando de bobagens mesmo com os amigos, como se não precisasse deles mais do que para isso. Muitas vezes, não sabemos pôr coisas realmente importantes para nós em palavras, e o meio não ajuda, ou seja, os que nos cercam são obtusos. Este foi um dos motivos, aliás, que levou Anne Frank a escrever o diário, e é uma das frustrações do aviador que encontra o Pequeno Príncipe. Sendo assim, a minha pergunta é: será que estamos capacitados a criar laços de intimidade com nossos semelhantes? Pois, se até mesmo para pedir ou extravasar algo muito menos complexo, como um aumento de salário ou acordo com o ex, usamos dos mais variados subterfúgios, desde rodeios até chantagens sentimentais... Isso é intimidade?
Com a falta de intimidade e o excesso de disfarces, cada vez menos nos sentimos refletidos nos outros, os de carne e osso que convivem conosco. Eles não nos servem de espelhos da nossa humanidade, por isso que cada vez mais nos sentimos sozinhos. É por isso que muitas vezes as pessoas vão buscar consolo em fontes como a literatura (escritores, muitas vezes já mortos e seus personagens), Internet (amigos virtuais), culto a ídolos, entre outras formas de evasão - o que não é uma atitude saudável, se praticada o tempo todo. E muitas vezes sentem que esses personagens virtuais - ou seja, que fazem parte de uma realidade em potencial, que não é verdade verdadeira por alguma razão - são mais reais do que as pessoas com quem já convivem, na sua própria realidade.
In Memorian
Dedico esta coluna a Moacyr Sciliar, falecido ontem. Não tenho muito o que dizer, não li muita coisa dele, mas de certa forma ele fez parte do meu Ensino Fundamental, ao lado de Luís Fernando Veríssimo e Ana Maria Machado, pois é um dos escritores favoritos dos livros didáticos. O pior é que eu poderia tê-lo conhecido, num Paiol Literário ocorrido, creio, no ano passado. Mas só fui descobrir isso tarde demais. De qualquer forma, adeus, Moacyr Sciliar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Por uma TV melhor

"Zapeando" pela Internet, acabei encontrando o texto de Ale Rocha desta semana, "Insensato telespectador", que gerou muita polêmica, como se pode ver nos inúmeros comentários abaixo. Para quem não sabe, Ale Rocha é o colunista de televisão do Site Yahoo!.
Criticando a novela "Insensato Coração", ele escreve que há cenas provocando a revolta dos telespectadores, a ponto de o Ministério Público ter sido acionado e a trama estar arriscada a ser indicada para só a partir dos 14 anos, ou seja, só poder passar a partir das 22h. E os autores, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, estariam se acomodando ao apresentar apenas personagens divididos entre o bem e o mal e o tal do "realismo", conseguido através das cenas de sexo e barracão. Para Ale Rocha, portanto, os telespectadores e os autores são ou estão caretas, pois o maniqueísmo poderia ser ultrapassado e idéias consideradas retrógradas poderiam ser discutidas, mas não são. Pelo que li dos comentários posteriores, muitos ficaram incomodados com essa utilização da palavra "careta", entendendo que o autor maldiz o pensamento ou atitude de defender valores moralmente aceitos e que seriam necessários à formação pessoal de crianças e adolescentes. Ainda segundo Rocha, muitos pais negligenciariam a educação, ou a transfeririam ao Estado, por isso a tentativa de tornar as tramas "caretas".
Não posso opinar sobre a novela diretamente, pois não a assisto. Mas tenho que concordar com quem diz que ninguém é obrigado a ver nada, pois tem o controle remoto. Eu iria até mais longe: que tal tentar desligar a TV uma vez por semana e procurar passar o tempo ou se divertir de uma forma completamente diferente? Além disso, as pessoas que denunciaram a novela ao Ministério Público alegaram que as cenas de sexo e barracão são exibidas às 21h10min, quando as crianças e adolescentes ainda estão na sala. Quando eu era criança, ia dormir entre 20h30 e 21h - minha mãe punha eu e o meu irmão na cama para poder ver as novelas desse horário. E isso nos anos 90, quando muitos dos meus colegas viam as novelas, às vezes até as minisséries. Eu comecei a ver novela com 11, 12 anos, e sempre com pelo menos a minha mãe por perto. Mesmo assim, demorei um pouco mais para começar a ver novela que passa às 21h. Nos intervalos, a gente discutia o que tinha acabado de ver. Ou seja, muita coisa ainda depende dos pais, mesmo. Não estou querendo dizer que a minha família tinha a postura mais correta com relação a esse assunto, até porque a minha mãe era só dona-de-casa, algo que já não fazia parte da realidade de muitas mulheres naquela época. Mas acredito que é possível, sim, controlar o que os filhos vêem.
Isso não quer dizer que a TV também não tenha responsabilidade pelo que veicula. Sabemos que muitas vezes ela banaliza sexo e violência em busca de pontos no ibope. E, se ela recorre a esses expedientes, é porque há muita gente assistindo, ou seja, o telespectador também tem culpa. No entanto, a situação dos teledramaturgos é bastante complicada, pois têm que render audiência, ou seja, se submeter às vontades de quem vê, que hoje está cansado do modelo de novela vigente, e no entanto não podem realmente ousar muito, tanto nos temas, pois há muito conservadorismo, tanto do povo como da emissora, como na narrativa, porque a maior parte dos brasileiros não está preparada para apreciar outras formas de narrativa, ou talvez personagens mais humanos, incluindo mocinhos mais humanos. É uma tarefa ingrata, escrever para um povo culturalmente bastante heterogêneo durante uma média de nove meses, mantendo a audiência. Lembro de um desabafo que li do Sílvio de Abreu uma vez, que falava que o povo tem uma relação mais emocional que intelectual com os personagens apresentados, e por conta disso os criadores não têm muita saída além de apelação e repeteco. Embora não concorde totalmente com isso, também pergunto: como fazer?
Concordo com um comentarista que disse que a emissora precisa contratar gente nova. Mas acrescentaria: precisa também flexibilizar suas regras teledramatúrgicas, afinal elas vêm dos anos 60! O Brasil era outro! E os pais precisariam retomar sua autoridade, para voltar a controlar o que os filhos vêem, saber que há outras opções no mesmo horário, ou mesmo desligar a TV e fazer outra coisa, em vez de ficar engolindo algo "menos pior", seja novela, seja qualquer outro tipo de programa. Seria o movimento dos telespectadores para que a televisão volte a ser feita de maneira mais inteligente. E algo tão insubstituível quanto a educação moral é a educação intelectual: o gosto pela cultura (leitura, museus, filmes de arte, etc.) deveria ser cultivado desde a infância, para que as novas gerações entrem em contato com outras possibilidades de histórias e personagens, estando mais preparadas para aceitar (ou mesmo repudiar) novas narrativas na telinha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Diferentes formas de lutar pelos direitos

"Todo homem é magistrado quando se trata de salvar a pátria." Creio que esta frase, encontrada no livro "Da república", de Cícero, é a que explica a excelente notícia veiculada na semana passada: quem foi vereador em São Paulo em 1993 e 1994 (um total de 55 pessoas) está condenado a devolver, cada um, aos cofres públicos, 98 mil reais, por terem aumentado ilicitamente os próprios salários. E isso graças a quem? A quatro cidadãos paulistanos, que processaram esses políticos e tiveram que esperar "só" 17 anos para que a justiça fosse feita. Esses pacientes guerreiros deveriam ser levados ao programa da Marília Gabriela, tanto no SBT como na GNT, para explicar como foi essa saga. Além disso, essa história deveria ser publicada em livro, para depois virar filme. Eis os nomes desses cidadãos: o engenheiro Raymundo Medeiros, a secretária Rosemary O´ Neil Minson, a dona-de-casa Francisca Belizia Shlithler e o representante comercial Paulo Antonio de Oliveira, todos representados pelo advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa.
Esse tipo de notícia, nem preciso dizer, é alentadora. No mesmo dia em que a recebi, sexta-feira passada, pensava desanimada no seguinte contraste: em 1992, conseguimos depor um presidente da República. Mas em 2010, no caso aqui do Paraná, a movimentação popular não conseguiu fazer renunciar o presidente da Assembléia Legislativa de Curitiba (antes de ter sido reeleito, claro). Como é que pode? Também tivemos, também no ano passado, outra vitória, que foi a aprovação da Lei Ficha Limpa, que no entanto é motivo de piada: os alvos juram que não são fichas-sujas e fica por isso mesmo. Um exemplo foi o senhor Cassio Taniguchi, que recentemente disse não fazer parte desse time porque, quando a lei foi aprovada, seus crimes (não foi essa a palavra que ele usou, lógico) já tinham prescrito! Junto a este, quantos casos no Brasil inteiro! E o pior é que o povo ratifica a corrupção e a incompetência, ao continuar votando nesses mesmos políticos. E também em aproveitadores que está na cara que não nasceram para a política.
Estes versos de Bertold Brecht (1898-1956) me fazem refletir: "A atitude crítica / É para muitos não muito frutífera / Isto porque com sua crítica / Nada conseguem do Estado. / Mas o que neste caso é atitude infrutífera / É apenas uma atitude fraca. / Pela crítica armada / Estados podem ser esmagados." Mas seria essa realmente a solução para nós, ou um problema pior ainda? Não há dúvida que às vezes não há outra saída. Por exemplo, a frase do começo desta crônica não é de Cícero, mas de um romano chamado Júnio Bruto Aparente, que chefiou o movimento popular que transformou Roma de monarquia em república, no ano de 509 a.C. Para que isso acontecesse, e a corrupção dos costumes da época pelos monarcas fosse corrigida, foi preciso que o povo se unisse para expulsá-los. De certa forma, foi o que aconteceu na Tunísia, que serviu de exemplo para que o Egito iniciasse a sua própria revolução, os dois expulsando ditadores do poder, depois de décadas. No entanto, esses casos - Roma, Tunísia e Egito - chegaram ao extremo, ou seja, possivelmente não haveria outra maneira de o povo lutar pelo que queria. Movimentos como o dos Caras-Pintadas e este episódio do pagamento dos vereadores de São Paulo mostra que existem outras formas de luta e obtenção de direitos, às vezes usando as ferramentas do próprio Estado, algo que não se deve perder de vista. O próprio Brecht terminava assim o seu poema: "A canalização de um rio / O enxerto de uma árvore / A educação de uma pessoa / A transformação de um Estado / Estes são exemplos de crítica frutífera. / E são também / Exemplos de arte."
Obs: Os dados da notícia foram retirados do site http://www.conjur.com.br/, que por sua vez se baseou na Folha de São Paulo.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Escrito rápido

Escrevo rápido, apenas para não deixar passar em branco esta semana. Hoje vocês vão me desculpar, mas estou sem muita inspiração. Este é um dos momentos em que, ao menos em mim, se cristaliza uma idéia que a maioria dos cronistas tem de si mesmo: na verdade, apesar de ser reconhecida como alguém que sabe escrever, não tenho nada a dizer!
Ficar sem inspiração é um risco que corre qualquer um que escreve regularmente, a não ser que se trate de um jornalista produzindo matérias. Por isso os cronistas costumam usar de certos truques, como anotar temas ou deixar umas crônicas para emergências, cozinhando em banho-maria. Também tenho as minhas crônicas e os meus temas, claro. Mas hoje não estou me sentindo à vontade para trabalhar com esse material. São como bebês, ainda não chegou a hora de eles virem ao mundo. E não me surgiu nenhuma outra idéia que me entusiasmasse, por isso que estou aqui desabafando tudo isto. Com o medo de não ter o que dizer me assombrando.
Falar nesse medo me fez lembrar do Carlos Heitor Cony. Quem lê as crônicas dele sabe: volta e meia ele afirma não ter o que dizer, e no entanto é sempre requisitado, como se fosse um homem sábio. Ainda não consegui decifrar se isto é ironia, modéstia (falsa ou verdadeira) ou se ele realmente acha isso de si mesmo, e a gente é que vê nele um homem sábio, simplesmente porque é diferente a visão acerca de um texto de quem o escreve e de quem apenas o lê. E muitas vezes essa diferença é gritante mesmo. Ao menos pelo que concerne a mim (entre meus conhecidos, sou tida por alguém que escreve bem porque vive escrevendo e lê bastante - apesar de na realidade terem visto bem poucas produções minhas, pois são raras as que tenho vontade de mostrar), essa visão é fruto principalmente da insegurança na hora de escrever. É claro que o texto que imagino é sempre muito melhor do que o que acaba saindo. E essa distância entre os dois, logicamente, é maior à medida que o tempo entre conceber e escrever vai aumentando. No entanto, nem mesmo começar a escrever logo que as palavras vêm é 100% garantido: sempre alguma coisa poderia ter saído melhor. Sem contar que muitas vezes não tenho certeza se consegui abordar o assunto com a profundidade que ele merece.
Enfim, acabou saindo uma crônica. No momento, estou gostando dela. Mas não sei até quando. Porque é muito comum também eu reler meus textos descobrindo erros e novas maneiras de tê-lo escrito. Mesmo depois de muito tempo que ele já cumpriu sua função, e todos que o leram já se esqueceram dele.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Para Miguel Sanches Neto

Foi no dia 24 deste mês de janeiro que li a crônica "The end", a despedida oficial de um grande cronista da Gazeta do Povo. Fiquei chateada, como se um grande amigo tivesse dito que ia embora para sempre. Claro, você disse que está substituindo a Marleth Silva até fevereiro, e que de certa forma continua, publicando análises de livros. Boa sorte, Miguel. Mas acho que você já não será mais o mesmo, pois estará vinculado a um tema só, e não terá aquela liberdade literária de fazer uma crônica que mais parece um conto quando você quiser. Sem contar que não consigo ler crítica literária durante muito tempo - elas acabam bloqueando a minha criatividade, porque também quero ser escritora.
Vou sentir falta, Miguel, dos teus contos, dos teus raciocínios tão lúcidos, que é um dos elementos que mais procuro nas crônicas que leio, mesmo que algumas vezes tenha me assustado com certos radicalismos e até brigado com você, sem você saber. Uma das particularidades dos teus textos é que, como Olavo Bilac fazia com os sonetos, você consegue encaixar vários assuntos numa só crônica ou conto. Mesmo que às vezes cansasse, pois os textos ficavam muito longos e eu lia diretamente no computador, era um prazer lê-los. Também foi através de crônicas que ganhei essa intimidade que a gente acaba tendo com autores que lemos continuamente. Fiquei sabendo sobre a sua família e o seu lar - algumas das que mais aprecio falam sobre o Antônio, outras sobre a Camila, por exemplo.
Confesso que ainda não li nenhum livro teu, te conheço pelas crônicas mesmo. Acho que comecei a lê-las e colecioná-las em 2008, embora tenha duas de 2006 nos meus arquivos. Copio da Internet e colo - está cada vez mais raro extrair dos jornais de papel, seja recortando, seja xerocando - , e ou imprimo ou copio a mão. Sim, acho uma delícia copiar a mão, embora pertença, por convenção de nascimento, à geração que prefere digitar. Coloco tudo numa pasta com plásticos, junto com outros cronistas, cada um tem o seu próprio plástico. Amo esse tipo de texto em que, teoricamente, dá para se fazer tudo, mas que jamais dispensa uma olhada crítica para a realidade.
Enfim, a vida segue. Costumo brincar que para mim agora só falta nos conhecermos pessoalmente (espero que até lá já tenha lido um livro seu). Mais uma vez, boa sorte.

P S: Na crônica passada, esqueci de dar o crédito para a pessoa que o merece, então aí vai: quem me chamou para escrever crônicas para um jornal da faculdade foi a aluna de Jornalismo Juliana Cordeiro. Meus agradecimentos.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Início de tudo...

Olá, há quanto tempo! Finalmente vou voltar a usar este blog, e desta vez vai ser de forma mais freqüente: publicando minhas tentativas de escrever crônicas, toda segunda-feira. Como e por que tive esta idéia? Este é o tema da minha primeira crônica, logo abaixo. Boa leitura a todos! E me dêem um retorno, por favor!

Início de tudo...

Oficialmente, tudo começou numa noite do final do ano passado. Na confraternização de final de ano do meu estágio, uma amiga de repente sugeriu que eu mandasse crônicas para o e-mail dela, para colaborar com um jornalzinho de crônicas produzido na faculdade onde ela estuda Jornalismo (eu faço o mesmo curso em outra universidade). Era um jornal, segundo ela, lido por pelo menos todo esse pessoal, incluindo os professores. Fiquei bastante animada: alguém me dava uma oportunidade, porque sabia que eu quero ser escritora!
Logo me surgiu a idéia de publicar crônicas semanalmente neste blog, e depois pedir a ela que entrasse aqui e escolhesse, até porque ela não deu muitos detalhes sobre os temas abordados nas crônicas desse jornal, o número de caracteres, etc. Mas, na verdade, já fazia algum tempo que estava querendo aproveitar que tenho um blog para me posicionar perante o mundo, mostrar minhas opiniões, pois esta é uma das formas de qualquer pessoa hoje publicar conteúdo próprio. Notem que, ao começar este texto, escrevi a palavra "oficialmente". Costumo dizer que, quando se pode dizer um "oficialmente", sempre se pode pensar em um "não-oficial", "extra-oficial", "clandestino", etc. O não-oficial, neste caso, é que essa idéia de me posicionar veio um pouco antes disso, quando tive a notícia de que estavam querendo proibir Monteiro Lobato nas escolas, sob alegação de que ele é racista. No dia seguinte, inspirada, escrevi uma crônica sobre isso. (Mas tive medo de publicá-la, pois não queria correr o risco de fornecer mais argumentos para ele ser censurado, e não só ele, como outros escritores da nossa literatura. De qualquer forma, sou contra essa censura!)
No entanto, para publicar regularmente aqui precisei contornar certos obstáculos. Não conseguia mais entrar no blog, e achei que tinha feito uma besteira irreversível, e portanto a solução ia ser muito mais difícil e demorada. Não tenho muita intimidade com tecnologia, apesar de a minha geração ter. Tive a idéia de cancelar a minha atual conta no Google e criar uma nova. Mas hesitei, porque não queria ter que pedir um novo convite para voltar a postar aqui - seria o terceiro, eu morreria de vergonha! Conversando com um rapaz que trabalha numa lan house aqui perto de casa, ele me disse que eu poderia evitar isso se criasse um novo e-mail, então uma nova conta e, quando os dois se conectassem, deletar o e-mail e a conta antigas. Ainda assim não aprovei, porque não queria ter que fazer outros, afinal já tinha esses. Finalmente, quando ia dormir uma noite dessas, me ocorreu a simples idéia: ou tentar com a senha que uso para entrar no meu próprio e-mail, ou clicar em Esqueceu a sua senha? Foi o que acabei de fazer. Pude redefinir a minha senha, e agora estou escrevendo aqui!
Desculpem estar contando tudo isso. Mas é que eu queria destacar que, durante toda esta história, me sentia tão animada, que mal pensava nessas dificuldades que estava enfrentando. Acho que quando a pessoa está realmente motivada em conseguir o que quer, só pensa em conseguir chegar lá, e isso é muito importante e estimulante. Para completar, são poucas as vezes que isso acontece comigo. Deve ser um sinal...

sábado, 28 de agosto de 2010

Caminhando na estrada
Ela vai
A paisagem sempre lhe parece a mesma
Seus pensamentos são como as folhas no outono...

Correndo com o vento
Ela vai

Surge o sol, às vezes
Não chega a iluminar seus olhos tristonhos
Queria mesmo que aquecesse sua alma

Se alguém perguntar
Diga apenas que
Ela vai
Está à procura
De um sonho para sonhar
Antes que mais uma estação acabe
Antes de retomar o começo sem acabar
E se o fim nunca alcançar?

domingo, 1 de agosto de 2010

Na parede escorrem traços singelos de lembranças
Suspira
A janela mostra o outro lado da paisagem
Noturna
Lá fora, dou muitas voltas
Prefiro ficar na velha casa que reconhece meus passos
Cada contorno
Sua sombra tem mais de um lado
A lâmpada só ilumina o que eu não quero ver
Então escuto
O invisível sussurra segredos da noite sem fim.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Estudor

Sabe aquele caderno em espiral é mentiroso, mas o caderno grampeado é verdadeiro.
Os bloquinhos de anotações são depósitos de ilusões, e o marca-texto é provocação.
A borracha apaga pecados, e o grafite sempre em dúvida, é indeciso. O lápis de cor faz teatro, enquanto o guache enfeita os desejos. Papel almaço resume histórias, o editor de texto salva da sedução. Planilha de cálculo faz as contas dos beijos, e os olhos fazem as vezes do coração.
Livro é suporte do monitor que escraviza, e a impressora já está bipolar. O lixo é boa companhia para os erros do crescimento, mas o telefone é fofoqueiro, escandaloso.
Régua cansada se entorta, e a caneta seca, sem tesão.
Cadeira conforta as nádegas surradas com suor pelo medo de ficar com zero.
Os armários guardam notícias em pastas fruta-cor, e caixas pretas não se revelam.
Pincel atômico vazou de tanto rir, pelo calendário que desmaiou.
E assim, a vida fugiu do compromisso da dor.