segunda-feira, 4 de julho de 2011

De uma declaração...

Esta semana que passou foi agitada: morte e não-morte de Amin Khader, morte de verdade de Itamar Franco, decisão da maioria dos médicos em não atender mais por planos de saúde... Quanto a isto, só tenho uma observação a fazer: com a falta de médicos, daqui a pouco poderemos ver nas clínicas particulares as mesmas cenas degradantes que já vemos nos hospitais públicos, de filas intermináveis e pacientes sub-atendidos. Seria bom, portanto, que a questão do pagamento dos médicos se resolvesse de uma vez por todas, para que realmente não haja prejuízo para os clientes, como se alardeia tanto por aí que não haverá.


Mas quero abordar um outro assunto, polêmico também, mas que provavelmente foi esmagado por essa avalanche de acontecimentos: a declaração da deputada Myrian Rios, no início da semana passada, reivindicando o direito dela, como mãe, de despedir empregados que sejam homossexuais por não querer que os filhos sejam molestados sexualmente ou influenciados a gostar de pessoas do mesmo sexo. O que me choca nessa fala é o antigo preconceito de que gays, todos, são necessariamente pervertidos sexualmente, portanto seria comum, e até lógico, que eles também fossem pedófilos e desregrados a ponto de influenciar negativamente outros. Claro, todos sabemos que da homossexualidade à pedofilia é um passo, não é?


Queria saber por que essa desconfiança acirrada contra os gays, que inclusive é um dos argumentos de quem se opõe à adoção por essa fatia da população. Creio que não há razão para não serem vistos como vemos os héteros, e entre os héteros sabemos haver os pedófilos, os abusados, os doentes por sexo, mas também os que se guardam para um relacionamento sério, que só querem achar alguém legal e ser felizes com essa pessoa, os que não ficam se acariciando em público ou na frente das crianças, os que sabem se controlar mesmo estando atraídos por determinada pessoa, etc. Entre os homossexuais também é assim. (Aliás, por que não nos importamos com o fato de um homem hétero ser galinha, portanto podendo ser extremamente desrespeitoso com uma mulher bonita, justificando isso até com a idéia de que os homens não conseguem viver sem sexo? Não é muita hipocrisia?) Já conheci alguns gays, todos extremamente respeitosos, e todos de uma forma ou de outra também envolvidos com crianças. Se o preconceito fosse verdadeiro, pelo menos duas dessas pessoas que conheço não poderiam estar numa sala de aula como professores, mesmo sendo excelentes profissionais. O segredo dessas pessoas é lidar com sua sexualidade de uma maneira muito segura - não escondem que são gays, afinal isso faz parte do que eles são, mas também não se reduzem somente a esta característica, jogando-a na cara dos outros a todo momento. Não têm necessidade disso. Mas quem quiser manter qualquer relacionamento com eles terá que aceitar a homossexualidade deles também, e isto está fora de discussão, o que fica claro com as atitudes que adotam.


É claro que é importante prestar atenção em quem se contrata e durante o tempo de serviço, pois o pedófilo ou tarado não vem marcado na testa. Mas não é a orientação sexual que vai determinar se alguém é isso ou não. É o nível de sanidade mental, em alguns, e o caráter, em outros. A orientação sexual deveria significar apenas por qual tipo de pessoa alguém se sente atraído, nada mais do que isso.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Minha história com Clarice

Estou começando a achar que este é o ano Clarice Lispector, pelo menos na minha casa. No começo do ano, li "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", e me apaixonei por esse romance. Há algum tempo atrás, a professora de Português do meu irmão ia pedir a leitura de "Felicidade clandestina", um dos livros indicados para o vestibular da Federal, mas, como não ia dar tempo de trabalhar com o livro todo, os alunos só tiveram que ler "Uma história de tanto amor", na minha opinião um dos mais belos contos dela. Foi uma oportunidade para o meu irmão conhecer um pouco a Clarice, pois ele já estava, muito tempo antes, contaminado pelo medo de quem ouve falar que um autor é difícil. Porém eu desconfio que havia nele medo e fascinação simultâneos, porque não tentou ler nada dela, mas inesperadamente falava nela. Aprendendo sobre ela na escola este ano, teve a curiosidade mais aguçada, o que culminou com a obrigação de ler o conto. E gostou. Ficamos, depois, conversando bastante sobre ela e sobre este texto.

Foi nessa conversa que tive a oportunidade de repassar a minha história com a Clarice, e é esta história que gostaria de dividir agora com vocês, pois de repente me surgiu a idéia, cuja execução vou lançar para daqui a alguns anos, de coletar histórias de escritores e simples leitores com Clarice, e lançá-las em livro, justamente para se perceber o lado do leitor diante dela, as alegrias e dificuldades de ser sugado por Clarice. Com certeza, você não volta a mesma pessoa de antes dessa experiência. E também para desmistificar um pouco o hermetismo dela - se você procura entendê-la racionalmente de primeira, pode entrar pelos canos. Se entrar desarmado, vai ter mais chances de encará-la e, mais importante, de gostar dela.

Aos fatos. Acho que foi com uns 12 anos que peguei um livro dela - o detalhe é que até hoje não sei onde foi que ouvi ou li o nome dela pela primeira vez, só sei que um dia acordei querendo ler algo dela. Finalmente, peguei na biblioteca da minha escola "O primeiro beijo e outros contos", uma dessas coletâneas que não são pensadas originalmente pelo autor, mas sim organizadas a partir de vários livros dele, postumamente. Só lembro do conto do título e de um que era o aniversário da avó da família, a D. Anita, que larguei no meio. Devo ter lido uns três ou quatro, no máximo. Não agüentei, não estava entendendo nada e achando chato, pesado. A partir daí, fiquei com prevenção. Apesar de ter sentido curiosidade de ler "A maçã no escuro", porque a história era sobre um jovem que se descobria escritor, não peguei mais nada dela. Anos depois, fui obrigada a ler "Felicidade clandestina" para o vestibular. Gostei de alguns contos, como o conto-título, e da aula sobre o livro, mas a barreira não se quebrou. Somente no final do ano passado isso aconteceu, quando a minha psicóloga sugeriu que eu lesse "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", porque esse romance tinha tudo a ver com os questionamentos que estava fazendo e enfrentando naquele momento. E ela ainda me disse: "A Clarice escreve de uma forma seca, muito dura". Ao sair de lá, já peguei o livro na Biblioteca Pública. Demorei alguns dias para chegar nele, não tive pressa, ainda era um resto da prevenção agindo. Ao finalmente me decidir a ler, encontrei a seguinte mensagem da Clarice: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Pronto. Aí que eu realmente relaxei, porque passei a ler sem o compromisso de entender racionalmente, isto é, sem sentir a obrigação de formar uma opinião sobre ele, fui apenas lendo, liberta. Ela própria teve o gesto amigo de me tranqüilizar, eu não precisaria me sentir burra se terminasse de ler sem entender nada. Muitas vezes, esta é a melhor maneira de se desfrutar de uma obra de arte, o sentido vem com o tempo (se não vem, é porque a pessoa ainda não está suficientemente amadurecida, o que não a impedirá de reler em outro momento, em melhores condições). Um dos maiores inimigos de uma leitura, especialmente de uma autora como Clarice, pode ser a praga de entender tudo racionalmente e querer sair do livro com uma opinião formada sobre ele, como se fosse em seguida defender uma tese. Autores como ela nos ensinam a saborear, esquecendo pelo menos em parte o racionalismo.

As primeiras páginas foram as mais difíceis. E, ao longo do romance, não era raro que de repente tivesse que interromper a leitura e até desviar os olhos do livro, para entender, ou pelo menos sentir, o que tinha lido e poder seguir adiante. E não me atrevo a dizer o que entendi e o que não, pode ser até que não tenha entendido nada. Mas saí apaixonada. E não encontrei nem sombra de secura na escrita dela, pelo contrário, a Clarice me entendia naquele momento. Agora, com intervalos, estou planejando ler mais romances dela, entre eles "A maçã no escuro".

Qual é a sua história com a Clarice?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A favor do otimismo

Há algumas semanas, a minha amiga Rita Vaz publicou uma crônica sobre otimismo (da qual infelizmente não consegui achar o link, por razões técnicas), sendo até um pouco intransigente em sua defesa. Mas eu concordo com ela, porque infelizmente se tornou um hábito muito comum, inclusive em crianças e adolescentes, a reclamação pesada por qualquer motivo. Conheço pessoas que não conversam de outra forma senão essa. No meu caso, dependendo do tom, agüento mais ou menos tempo um papo assim - até que saio da presença dessa pessoa como se estivesse carregando uma tonelada de nuvens negras.



No "Decamerão", do italiano Giovanni Boccaccio - livro maravilhoso que, ao contrário do que diz a sua fama, não tem só contos eróticos - há um exemplo de pessoa assim. Na oitava novela da sexta jornada, também conhecida como a Jornada de Elisa, a protagonista, Ciesca, é uma chata que tem o hábito de desqualificar todo mundo sem mais nem menos. Um dia em que ela disse ao seu tio que lhe era aborrecido ver pessoas desagradáveis, ele respondeu que então ela não deveria se olhar nunca no espelho. Apesar de saber que provavelmente Boccaccio não tinha a intensão de fazer disso uma metáfora, a imagem não deixa de ser perfeita - se os outros eram desagradáveis para ela, imagine ela para os outros. Ela via, todos os dias, a pessoa mais intragável do mundo, porém não se dava conta. Mas também dá, contrariamente, para utilizar o mito de Narciso para explicar este comportamento: a pessoa que só se vê a si mesma, "achando feio o que não é espelho", ou seja, incapaz de olhar para o mundo com um espírito de, então, querer melhorar alguma coisa da realidade, de se esforçar para ter uma idéia nesse sentido. Afinal, quem percebe um problema deveria ser a primeira pessoa a arregaçar as mangas para trabalhar na solução dele.



O otimismo pode ajudar bastante nesta visão mais colaborativa. Ao contrário dos que se definem como "realistas" dizem, há maneiras e maneiras de se conduzir esse sentimento. O otimismo é importante, porque ele permite a visão de que o mundo pode ser melhor, ou seja, a pessoa enxerga além da realidade, enxerga "como poderia ser". E vai trabalhar para que a realidade se aproxime pelo menos um pouco dessa visão, fazer a sua parte. Esse idealista não se conforma com o "as coisas sempre foram assim", se pergunta o por que de o mundo funcionar desse jeito, e não de outro. É esse tipo de atitude que deveria proliferar e servir de modelo para todos nós, e não a acomodação reclamona. Onde será que estão os otimistas?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um outro 12 de junho

É impressão minha, ou as propagandas sobre o Dia dos Namorados ficaram mais numerosas e variadas, isto é, abordando esta relação de vários ângulos, este ano? Para falar a verdade, nunca soube nem o por que de existir essa comemoração, pois comemora-se, a princípio, um sentimento. Ou seja, quem não está apaixonado ou namorando está fora. É um clube para o qual se entra por circunstâncias várias e subjetivas, e ainda com outro detalhe: a mesma sociedade que festeja essa data também é a que acredita que a paixão ocorre de forma acidental. Além disso, falando do ponto de vista dos enamorados, não tem muito sentido criar para eles uma data para a manifestação do amor, pois qualquer dia é dia - nos dois primeiros anos de paixão, chega a ser por uma necessidade biológica. Sem contar que essa manifestação, como não poderia deixar de ser, passa fundamentalmente pelo consumo. Se você não compra um buquê de rosas para a sua amada, você não é romântico (e isso é um pecado gravíssimo, atestado por muitos filmes de Hollywood, ainda que não apenas desta forma). Sempre desconfiei desta noção de romantismo, porque ela me parece muito mais um adesivo externo que alguém cola em si num determinado momento. Para mim, o verdadeiro romantismo é o que vem de dentro, através muitas vezes de pequenos gestos de ajuda e compreensão. No dia-a-dia, ele pode ser muito voltado para a praticidade, pois pode ser (afinal, existem muitas formas de demonstrar romantismo ou ser romântico) o pensamento de um colaborador, alguém que se vê como ajudante do outro, e também quer ser ajudado por ele. Claro que fugidas ocasionais disso, loucuras de amor, são bem-vindas, mas creio que é mais gostoso quando o casal, ou um dos dois, decide a data, e ela seja totalmente inesperada, não para obedecer a um calendário comercial.

Mas me desviei totalmente do assunto. O que queria escrever hoje é que esta data tão especial também se refere a outra coisa: 12 de junho também é o Dia Mundial de Combate e Erradicação do Trabalho Infantil. Não sabia, não é? Quase ninguém sabe, não dá ibope. Imagine se, no meio de um filme romântico, passasse uma campanha abordando esse assunto? Pois é. Claro que trabalho infantil também se deve combater todo dia, mas neste caso a criação de uma data funciona (ou deveria fucionar) como um lembrete para a mídia e a sociedade sobre esse assunto, servir de pretexto para debates e pautas jornalísticas. Por exemplo, no dia 10 deste mês, em Curitiba, começou a campanha denominada "Trabalho infantil? Só pode ser brincadeira", uma iniciativa da FAS, que vai perdurar por todo este mês. E a diferença disto para o Dia dos Namorados é que qualquer um pode se engajar. Por exemplo, para denunciar trabalho infantil é só ligar para algum Conselho Tutelar (em Curitiba há vários, por isso que não dou o telefone só de um), Superintendência Regional do Trabalho (41-3901-7550) ou FAS (41-3250-7902), entre outros órgãos responsáveis pelos direitos humanos, ou mais especificamente da criança e do adolescente. Esta é a minha humilde e momentânea contribuição para um outro 12 de junho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Por mais opções no teatro!

Neste sábado, vi uma entrevista da atriz Beatriz Segall num canal de TV fechado. Uma, dentre as várias coisas intrigantes que ela disse, que me fez pensar, foi que existe falta de bons textos teatrais atualmente (como extensão do assunto de que, devido à queda na qualidade da educação, hoje temos bons escritores, mas não excelentes). Nas palavras dela, eles, os atores, "rebolam" para conseguir um bom texto. Se eu fosse a entrevistadora, com certeza teria perguntado à atriz o que é uma boa peça na opinião dela (a única coisa que ela disse a esse respeito é que "brasileiro só vai hoje ao teatro para saber se pode rir"). No entanto, essa reclamação não é nova para mim.



Eu mesma já a tinha formulado há algum tempo. Basta pegar o programa do Festival de Curitiba: a maior parte das opções oferecidas são releituras de clássicos (como é de se adivinhar, Shakespeare é arroz de festa nesse quesito), muitas vezes adaptações de obras literárias que não foram escritas para o teatro, ou junções de vários textos de um mesmo autor. Há poucas peças originais, e a meu ver este é o grande problema. Estas maneiras de fazer teatro apontadas acima poderiam estar num melhor equilíbrio com bons textos originais - hoje, em sua maioria, os originais são besteiróis, algo que até pode ser engraçado, mas de que já enjoei, por me lembrarem muito os programas humorísticos de TV (só existe uma forma de fazer humor?). No mínimo, quando saio de casa quero ver um espetáculo diferente, marcante. Sem contar a percepção de outra atriz, esta curitibana, Rita Juarez, com quem tive a oportunidade de conversar: há uma idéia vigente de abolição do texto e improviso total com a platéia. Ela é contra essa prática. Eu já tenho a impressão de que, pelo diretor adequado, pode até valer a pena, mas também essa idéia não pode reinar absoluta, assim como hoje não deveria reinar absoluta a mania de readaptações, de obras teatrais ou não. Creio que todas essas formas, mais bons textos originais, poderiam conviver harmonicamente no teatro de hoje, dando à platéia mais alternativas de escolha, elemento essencial para fruições artísticas.



E o que seria um bom texto de teatro? Pelo pouco que sei, tem que ter diálogos fortes, afinal esta é a unidade formadora básica da peça, corresponde ao que a imagem é para o cinema, por exemplo. Algo que está muito presente em clássicos hollywoodianos como "A malvada", "Gata em teto de zinco quente", "Adivinhe quem vem para jantar", "Festim diabólico", entre outros. Considero estes filmes maravilhosos, porque já prendem pelos diálogos, que são densos e reflexivos sem serem chatos ou pesados, além de terem o privilégio de ser interpretados por grandes atores... Sei não, mas acho que esse tipo de diálogo anda fazendo falta também no atual cinema hollywoodiano.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Presença de Osama bin Laden

Lembro que, quando aconteceram os atentados de 11 de setembro, eu tinha 11 anos, estava na 5ª série e só fiquei sabendo um dia depois, quando a minha escola passou num telão, antes de irmos para a sala de aula, as imagens que a partir de então seriam exaustivamente repetidas no e para o mundo do que seria "o maior atentado terrorista da História" (o que não é verdade, pois, sem negar a gravidade dos ataques de 2001, foram também os estadunidenses que, décadas atrás, jogaram as bombas em Hiroshima e Nagasaki, e napalm no Vietnã, para citar só alguns atos terroristas - pois o objetivo era atemorizar os inimigos do "xerife do mundo" - , obtendo mais vítimas e conseqüências mais trágicas). Jamais me saiu da memória o fato de que os meus colegas sabiam o minuto exato em que tinha acontecido cada pequeno episódio que resultou no ataque total. Lembro que fiquei com medo de que no Brasil acontecesse algo semelhante, pois já sabia que éramos aliados dos Estados Unidos - e se entrássemos na "guerra ao terror" por ordem deles? Como a coordenadora geral da minha escola pôde afirmar com tanta segurança, até fazendo disso uma brincadeira, cerca de uma semana depois, que nenhuma bomba cairia em solo brasileiro?



Também se seguiu, a partir disso, um interesse zombeteiro dos meus colegas pelo mundo árabe - sim, o fato de a novela "O Clone" estar sendo exibida nessa mesma época ajudou, mas me refiro à associação automática dos muçulmanos com terrorismo, na pessoa principalmente do bin Laden, que foi bastante satirizado e referenciado por nós durante mais ou menos um ano. Mas devo dizer que isso de certa forma sobrevive, pois na minha turma de faculdade tem um rapaz muçulmano que com freqüência é associado, de brincadeira novamente, ao terrorismo. Ou seja, eis o excelente favor que Osama bin Laden prestou ao Islã, e que forma boa de se tornar eterno.



Agora ele está morto, mas, recorrendo a um monstro da mitologia grega, ele era apenas uma das cabeças da Hidra de Lerna de uma facção terrorista do Islã (vale lembrar, sempre, que a religião em si prega o amor a Deus e ao próximo, e não a guerra religiosa, como, aliás, o fazem todas as religiões sérias). A Hidra tinha nove cabeças, e ainda uma delas era imortal. De qualquer forma, não duvido que agora, diante de cada novo ataque dessa facção do mundo, a vida e morte de Osama bin Laden estarão no bojo. Ou seja, ele conseguiu tornar sua presença no mundo, mesmo morto, eterna, imortal. Foi assim que ele passou para a História. Por que pessoas que fazem o bem não têm essa influência no mundo e na História?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eu sou tudo isso

Lembrando do ano passado, quando o rapaz do censo esteve na minha casa e perguntou a nossa cor (estávamos eu, minha mãe e meu irmão), eu comecei a dizer que essa era uma questão complicada para a gente, porque não temos uma cor só, mas a minha mãe atalhou que éramos brancos, e ponto final. Não, ela não é racista, apenas quis facilitar as coisas.

Nunca me entrou na cabeça por que no censo do brasileiro só se marca uma entre as cinco opções: branco, negro, pardo, amarelo ou indígena (vermelho), sendo que a maior parte da nossa população é misturada. Eu mesma sou branca (polonês, italiano - herança do meu pai - ucraniano, português, e ainda pode haver mais), negra (ainda quero descobrir de que país e povo), índia (ainda quero descobrir de que povo - o estado mais provável é a Paraíba, mas existe uma possibilidade também de ser o Ceará) - tudo isso de herança da minha mãe. Conseqüentemente, também sou parda ou mulata (mistura de branco com negro), cafuza (negro com índio) e cabocla (branco com índio). Aí está a salada. Costumo brincar que só falta agora eu descobrir alguma ligação com o Oriente - a propósito, já houve gente que perguntou para o meu irmão se ele é chinês. Será?

A questão é que essa forma de responder não faz muito sentido no Brasil. Como é que querem que reconheçamos a miscigenação étnica se a única opção mais próxima disso é reconhecer-se pardo? A questão é que não estamos dizendo toda a verdade sobre nós, e cada vez mais gente se sente confusa ao responder. Meu pai acha que devemos afirmar qual é a cor predominante em nós, mas também não concordo. Hoje eu tenho aparência de branca, apesar de ter herdado os traços da minha mãe. Mas aos 11 anos com certeza seria tomada por uma índia. E então?

Acho que deveria haver uma sexta opção entre essas alternativas, com um espacinho do lado para enumerar quais são as etnias que se combinam naquela família ou naquela pessoa. Sim, vai dar mais trabalho para o pessoal do IBGE cadastrar esses dados - mas eles já não estão acostumados, com a complexidade que é o Brasil?

Até um tempo atrás eu chamava essa sexta categoria de "misturados" (essa expressão aparece no livro "Contos gauchescos e lendas do Sul", de Simões Lopes Neto, de entre o final do século XIX e o início do XX, agora não lembro bem). Mas acho que foi o meu irmão que deu o nome mais adequado: "multiétnicos". É exatamente o que nós dois, e muitos outros brasileiros, somos, multiétnicos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Há catorze anos

No dia 19 de abril de 1997, Dia do Índio, sete membros da tribo Pataxó Ha-Ha-Hae estavam em Brasília para reivindicar o direito à posse de suas próprias terras, direito prometido pela Constituição de 1988. Na noite desse dia, a tragédia: o líder, Galdino de Jesus, dormindo num ponto de ônibus, foi incendiado por cinco garotos de classe média alta que, para se defender depois, disseram que "era só uma brincadeira" "com um mendigo". Dois dias depois, a vítima não resistiu às graves queimaduras e morreu no hospital. Eu tinha sete anos nessa época, mas não me lembro de nada disso. Curiosamente, só fui tomar conhecimento desse fato quatro anos depois, na 5ª série, porque uma notícia sobre caiu numa prova de História. Só então pude me horrorizar. Também tive a oportunidade de ter acesso, mais tarde, a dois livros dirigidos ao público infanto-juvenil que fazem referência a esse acontecimento, provavelmente escritos na época: "Sangue de índio", de Rogério Andrade Barbosa, e "Brasil 500 anos", de Regina Rennó. Também agora tive acesso a um poema de 2009, "Índio Galdino de Jesus", de Azuir Filho e outros. Ponto para esses autores, especialmente o mais recente, embora o poema não seja dos melhores. Contudo, posso estar enganada, mas, de lá para cá, as únicas notícias que vejo sobre este caso são notas bastante espaçadas sobre os autores do crime, que estão presos em regime semi-aberto, ou seja, saem da cadeia para trabalhar durante o dia, mas têm que voltar à noite (e essas notas só aparecem quando eles aprontam alguma). Nenhuma palavra mais sobre a tribo, que passou a viver sem Galdino - será que eles acham que a punição que os assassinos receberam foi justa? Eles não passaram a ter medo de ir até Brasília? Como está a situação de suas terras, pois foi para isso que eles foram até lá, para que os invasores fossem forçados a se retirar? Este caso não deveria cair no esquecimento jamais, as escolas deveriam relembrá-lo para as crianças quando ensinam sobre os índios, para mostrar que o povo brasileiro ainda tem muito que evoluir no seu acerto de contas com o passado (e apesar de sermos uma das Constituições mais aprovadas do mundo, apelidada de Cidadã, inclusive). Seria interessante que a imprensa rememorasse essa tragédia, conversando com os Pataxós, mas também com os garotos de Brasília e suas famílias, tomando cuidado, claro, para não cair na vitimização dos índios e nem no tom acusatório com relação aos brasilienses. O objetivo precisa ser reabrir o debate: de que maneira tratamos as pessoas que vivem diferente da massa urbanizada, e que portanto têm outras necessidades, garantidas pela lei, e com o detalhe de que foram os primeiros donos desta terra chamada Brasil? E este debate também deveria acontecer nas escolas, mediante livros e notícias. Só para concluir, lembro que um professor meu, de História, disse algo interessante sobre esse caso: se ele fosse o juiz, não prenderia os rapazes, e sim os condenaria a uma pena alternativa na ala de queimados de algum hospital infantil. Não sei se concordo com isso, pois acho que eles deveriam ficar presos eternamente, mas também não consigo deixar de pensar que talvez isso surtisse mais efeito na regeneração deles. Ah, e feliz dia do "descobrimento do Brasil". Aí vai o poema de Edson Ponick, catequista e escritor, entre outras atividades, que ajudou a planejar uma cartilha sobre os povos indígenas no ano 2000. Apesar de esse poema ser referente aos "500 anos", não perdeu a atualidade: Há pouco tempo Era coberta a terra, há muito tempo, de matas, rios e animais selvagens. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Cortaram verdes e plantaram cinzas. E a terra, então coberta de belezas, Hoje resseca com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo, De ouro, prata e minerais valiosos. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Levaram brilhos e deixaram sombras. E a terra, então coberta de riquezas, Hoje empobrece com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo, de povos, raças, rituais variados. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Burlaram a vida e cultuaram a morte. E a terra, então coberta de culturas, Hoje agoniza com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo. Por que festejam o seu descobrimento?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Poesia, o rejuvenescimento possível

Faz algum tempo que li uma crônica do Miguel Falabella, na revista Istoé, em que ele formulava uma ode à poesia, ressaltando, por exemplo, que ela é importante à imaginação. Um dos pontos altos desse texto, pelo menos para mim, foi quando sugeriu que deveriam existir postos de poesia 24 horas para pessoas cuja criatividade está em baixa.

Apesar de adorar ler poesia, não leio todo dia, mesmo tendo cadernos e mais cadernos preenchidos com poemas e letras de música, para meu próprio uso (ao contrário de Miguel, raramente me utilizo da Internet para buscar poesia, principalmente se for de poetas que não se expressavam pela língua portuguesa). Quando leio poesia, o dia fica mais leve e minha alma, mais suscetível a ver o mundo de forma diferente, prestando atenção em detalhes bobos, que pulam à minha frente como que aumentados, e nos quais normalmente não me ligo - não é à toa que Autran Dourado recomenda a candidatos a prosadores lerem alguns bons poemas antes de começarem a escrever, e que eu mesma passo a ter idéias para versos, como se tivessem me sido implantadas na cabeça, quando que na verdade a arte me devolveu a visão, ainda que por um momento. Mas, como ia dizendo, ainda não cheguei ao ponto de ler todo dia. Ainda prefiro quando a poesia me surpreende, que foi o que aconteceu, por exemplo, na última sexta-feira.

Alguém aí já ouviu falar dos Pacotes de Poesia do SESC? Trata-se de pacotes de pão com folhas de papel kraft dentro, contendo poemas de autores brasileiros, tanto clássicos como contemporâneos. Pois estava eu lendo a revista do Paço da Liberdade, espaço cultural no qual também se pode pegar os pacotes, quando lembrei que tinha um do Antonio Cícero numa gaveta, ainda virgem de leitura, e li de uma sentada. Nossa! Quanta beleza! Ele é desses poetas que trabalham metáforas finas, e por conta disso envolvem. (Bom, quem é fã da Marina Lima, irmã dele, para quem ele compõe letras, deve saber do que estou falando.)

Sempre que me abismo assim com algum escrito, parece que fazia muito tempo que não me expunha à beleza, ou seja, a minha alma estava precisada. Como tempo cronológico, nem faz tanto tempo assim: o último poeta de que me fiz acompanhar maciçamente, Bertold Brecht, esteve comigo em dezembro e janeiro. Depois disso, uns poemas e poetas esporádicos. Mas o tempo psicológico que nos afastava já parecia ser de anos! Preciso ler poesia com mais freqüência, ainda quero chegar a ler algumas todo dia, conforme o próprio Falabella sugeria em sua crônica. Cheguei à conclusão que até pode ser uma fonte da juventude, pois pode diminuir asperezas e arestas que a alma vai criando com o tempo.

Obs: Para quem quiser pegar Pacotes de Poesia, até dia 29 deste mês é do Francisco Alvim, que será substituído por Emiliano Perneta. Dá para pegar no Café do Paço da Liberdade, no SESC da Esquina e no SESC do Centro. E, agora, fiquem com uma palhinha de Antonio Cícero:

Oráculo


Vai e dize ao rei:


Cai a casa magnífica,


O santuário de Apolo;


Fenece o louro sagrado;


A voz da vidente emudece;


As fontes murmurantes se calam para


sempre.


Diz adeus adeus.


Tudo erra, tanto


A terra vagabunda quanto


Tu, planetário.


Criança e rei, Delira e ri:


Meu sepulcro não será tua masmorra.


Alimenta teu espírito também com meu


cadáver,


Pisa sobre estas esplêndidas ruínas e,


Se não há caminhos,


Voa.


Voa ri delira


Nessa viagem sem retorno ou fim.

terça-feira, 5 de abril de 2011

O CELEIRO PEGOU FOGO E A VACA FOI PRO BREJO


CERTA FEITA NUMA FAZENDA

NÃO TINHA GADO

SÓ FAZENDEIRO E CELEIRO

PRO SUSTENTO DA FAMILIA

UMA VACA LEITEIRA

NA FESTA DE SÃO JOÃO

SOLTARAM FOGOS E BALÕES

UM ROJÃO ACERTOU O CELEIRO

ASSUSTANDO A VACA LEITEIRA




(soneto de título explicativo)

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por que temos que envelhecer?

Semana passada, a minha mãe trocou a esponja de banho, que já estava quase se rachando em duas, por uma linda, durinha de dar gosto, que eu fui a primeira a inaugurar. Enquanto a usava, verifiquei que precisaria comprimi-la, e mantê-la assim, para me ensaboar melhor e, depois, para tirar toda a água dela. Achei uma pena, pois logo ela perderia seu belo formato duro e grande para ficar flácida e rachada, como a velha. Comecei a refletir por que ela não poderia voltar a ter o mesmo frescor e aspecto do primeiro dia de quando foi desembrulhada. E logo esse pensamento se estendeu às pessoas.

Eu mesma, apesar dos meus 21 anos, sinto que estou envelhecendo, e que a faculdade está tornando isso mais rápido. Em comparação às aulas de quando eu era criança, hoje estou mais desconcentrada, me sinto embotada, me estresso e me sinto desmotivada mais depressa, mais cedo, principalmente pelo fato de ter muitas coisas a fazer e pela impressão de que não precisaria serem tão atropeladas, todas ao mesmo tempo. Na minha opinião, esse é um dos grandes problemas da vida universitária, embora adore o ambiente acadêmico, e tenha escolhido estar nele. Ou seja, vou ter que me desgastar, para sair diferente de quando entrei, espero que melhor. A vida geral também não deixa de ser isso, pelo menos para quem acredita em vida após a morte: uma fase para que sejamos pessoas cada vez melhores. Para tanto, ou seja, para se ter uma vida realmente útil, é imprescindível o desgaste, físico, mental, espiritual..., significando ganho de experiências, que é um processo que muitas vezes dói, mas ninguém discute sobre a importância. Sob outro ponto de vista, também não passamos de instrumentos de trabalho, embora possamos nos manter jovens através de vários meios, desde qualidade de vida até cirurgias plásticas.

Mas de repente comecei a pensar: será que ia mesmo ser legal se, a cada desgaste, pudéssemos rejuvenescer, voltar ao que éramos inicialmente? Como num filme de ficção científica, poder substituir o chip a qualquer sinal de defeito? Isso nem mesmo seria lógico, pois implicaria desistir também de toda bagagem que vamos adquirindo pela vivência, ou seja, voltar exatamente à mesma inocência que tínhamos antes da morte de um ente querido, por exemplo. Por mais que nos doa a possibilidade de envelhecimento, creio que esse processo é importante para que nos lembremos de que nossa capacidade para tudo, inclusive para viver, é limitada. Mesmo que a ciência descubra uma maneira de nos tornar imortais, ou pelo menos mais longevos ainda, tenho a impressão de que a maior parte das pessoas não ia querer isso. Morrer também é descansar, e parece que ninguém tem dúvidas disso com relação a José Alencar, por exemplo. O envelhecer, então, pode ser entendido como uma ampulheta que marca o tempo de permanência, ou pelo menos de atividade, até que se tenha de ceder o bastão a outro, como no caso da troca de esponjas do começo deste texto, ou a vida (mesmo que em muitos casos não haja relação direta de envelhecimento com morte).

A princípio, envelhecer seria um morrer diário. Mas só a princípio. Existem sexagenários, septuagenários, octogenários, nonagenários (como se chama alguém que chegou aos cem anos, ou os ultrapassou?) que nos fazem esquecer isso, e, no meu caso, até desejar ter aquela idade, para ter aquela sabedoria. Novamente aqui o José Alencar pode servir como exemplo. Estas pessoas me fazem até pensar que os melhores jovens às vezes são os velhos, que às vezes faz-se necessário envelhecer para desfrutar da juventude. Porque eles não têm tempo a perder, sabem o que querem e já não estão amarrados pelas obrigações e convenções sociais. Sob estas perspectivas, tem muita gente que se descobre quando é declarada idosa, e detalhe: às vezes mesmo sofrendo com alguma perda de agilidade física ou mental. Mas isto já é assunto para outra crônica. Felizmente, pessoas não são como coisas: têm a possibilidade, por terem consciência, de prolongar seu tempo de juventude, contando com a sabedoria da velhice, mesmo tendo muitos anos no currículo.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Uma mulher especial

Fiquei duas semanas sem postar, por diferentes motivos. Por isso, aqui vai uma homenagem um tanto tardia às mulheres pelo dia delas.
Como mulher, gosto que haja um dia só nosso, claro. É uma pena, no entanto, que as felicitações ao nosso sexo se restrinjam sempre aos mesmos temas: a mulher é carinhosa, transpira mais cuidados que o homem, repara mais nos detalhes, enquanto que ele só repara no todo, foi muito injustiçada no passado, e ainda é hoje, pois a violência doméstica continua sendo uma realidade em muitos lares, brasileiros e do mundo. Não que esses temas não sejam importantes, principalmente o da violência é essencial. O que sempre penso é que tudo isso é muito pouco para formar uma identidade, seja de uma pessoa, seja de um grupo social (mas em pior situação ainda estão os homens, que só começaram a ser pensados em oposição às mulheres a partir de meados do século XX, com o fortalecimento do movimento feminista no mundo). Esclareço que ainda não li Simone de Beauvoir, que diz que a mulher não nasce, se faz. O que ela aponta como sinais de que uma pessoa está caminhando nessa direção, ou que já está bastante avançada nessa tarefa? (Quando ler, conto para vocês, hehe.) Só um adendo: em pleno século XXI, o fato de uma mulher assumir o posto de maior poder de um país, qualquer país que seja, ainda é visto com admiração, quando já deveria ter se tornado um fato corriqueiro. Mas, enfim, antes tarde do que nunca.
Na verdade, meu foco é outro. Não sei por que, ao me lembrar de mulher acabei me lembrando de uma personagem de Érico Veríssimo, Bibiana Terra, que aparece no livro "O tempo e o vento - O continente I". Não é muito difícil encontrar referências a ela como sendo uma mulher forte. Mas eu sempre questionei isso. A moça vive sob a tirania do pai, Pedro Terra, casa-se com o homem que ama, o capitão Rodrigo Cambará, mas cai num inferno, pois o marido, depois de um tempo, se cansa dela e acintosamente procura outras mulheres, bebe e joga. E ela agüenta, o importante é que ele não a deixe (além do amor, ela tem dois filhos com ele). Talvez a força esteja no fato de que, mesmo com toda a cidade sabendo o que Rodrigo apronta, ela não diz uma palavra ao pai sobre isso. Não pensa em voltar para a antiga casa, mesmo Pedro Terra franqueando a entrada para a filha, com pena dela. Pelo menos eu, todas as vezes em que li esse romance, ficava "aconselhando" Bibiana a largar desse homem, que não valia a pena. Mas ela, nada. Mesmo quando o capitão foi irresponsável a ponto de largar a filhinha morrendo para jogar baralho. Ou durante a batalha em que ele tomou parte e da qual viria a morrer: Bibiana continuou firme, sozinha na casa, porque tinha certeza de que ele viria lá para dar um oi, e se ela não estivesse lá ele não saberia onde encontrá-la, e realmente seria a última vez em que se veriam. Ou seja, uma perfeita amélia. Não tenho certeza disso, mas, para mim, foi Érico quem criou primeiro essa figura na nossa literatura, mais ou menos na mesma época em que Mario Lago imortalizou o famoso samba (que, no entanto, não foi o primeiro a dar o significado da mulher que sofre por amor para essa palavra: ela já existia assim, embora não de forma muito clara, num poema de Júlia da Costa, poetisa catarinense que viveu em Curitiba no século XIX). Érico mostrou uma mulher forte, mesmo tendo toda uma aparência de fraca, mesmo com o tipo de vida que levava, mesmo sendo uma amélia. Bibiana se contentava em ser casada com Rodrigo Cambará. O que mostra que a força feminina não é tanto resultado do tipo de vida que se leva (a não ser que se tenha desejado e lutado para alcançar aquilo), como a mídia muitas vezes acaba passando, mas pode vir de elementos impensáveis. A personagem vivia, não cobrava muito da vida, porque a vida já cobrava muito dela. De vez em quando vinha a felicidade, em pequenos momentos, como o último encontro entre eles, emocionante. O que é a felicidade? Ela não tenta descobrir, apenas a vive, quando aparece. É essa a sabedoria típica de nossas avós e de muitas mulheres simples e afastadas dos grandes centros urbanos que vivem por aí. Embora as questionadoras tenham sido muito importantes também, para a história da humanidade.
Por tudo isso, em homenagem à mulher elejo Bibiana Terra como uma mulher interessante para se conhecer e admirar. Mas não esqueço as minhas personagens reais favoritas: além das já citadas Simone de Beauvoir e Júlia da Costa, Anne Frank, Hellen Keller e Anne Sullivan, Marie Curie, Joana D´Arc, Olympe de Gouges, Coco Chanel, George Sand (se travestia de homem para poder ser escritora), Madre Teresa de Calcutá, Dra. Zilda Arns, Rosa Luxemburgo, Chiquinha Gonzaga, Júlia Wanderlei, Cecília Meireles, Cora Coralina, Carmen Miranda, Isadora Duncan, Virginia Woolf, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral, Pagu, Maria Quitéria, Clarice Lispector, Lygia Fagundes Telles, Martha Medeiros, Marleth Silva, Maria da Penha e tantas outras cujos nomes não estou me lembrando agora. Viva nós!
O poema da Júlia da Costa (1844-1911):
Amélia
Quando no centro dos bosques
A rolinha pipilar,
Uma saudade me manda
Nas ondas do alto mar.
Nas ondas do alto mar
Quando a noite for formosa,
Me manda de teu piano
Uma nota harmoniosa.
Uma nota harmoniosa
Que defina o teu sentir;
Que me traga uma saudade,
Que me mostre o teu sorrir.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Intimidade

Penso que uma das contribuições mais importantes da literatura, ao menos para mim, é poder discutir a vida humana sem disfarces. Afinal, num bom livro entramos diretamente em contato com a alma dos personagens, sendo esta a parte mais importante de uma pessoa. Ou então suas ações, pensamentos e sentimentos estão organizados de maneira a descobrirmos quem esse personagem é. O que muitas vezes acaba se revelando um espelho que se volta para nós mesmos, que lemos.
Estou dizendo isso por causa de um livro que li durante estas férias, "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", de Clarice Lispector. Um dos elementos que achei mais geniais nesse romance é que os personagens, Loreley, apelido Lóri, e Ulisses desenvolvem uma relação na qual falam abertamente o que sentem e pensam, sem perder tempo com amenidades ou bobagens. Ela é capaz de ligar para ele no meio da noite e dizer algo como: "Que é que eu faço, é de noite e eu estou viva. Estar viva está me matando aos poucos, e eu estou toda alerta no escuro". E ele compreende, e diz sempre exatamente o que ela precisa ouvir! Talvez justamente por conta dessas declarações diretas dela e dessa compreensão e franqueza dele, a princípio esse relacionamento parece muito frio e formal. No entanto, ele consegue ser muito mais real e verdadeiro do que grande parte dos nossos relacionamentos, ou talvez até mesmo da totalidade deles. Exatamente por causa da tal da intimidade, que para mim é compreender o outro, mesmo que ele se faça hermético, agir conforme a necessidade dele e, principalmente, ter e dar a liberdade de falar o que vier à cabeça do jeito que veio, mesmo que seja uma epifania nascida do perfume de jasmim sentido de madrugada.
De quantos conhecidos nossos podemos dizer que realmente temos intimidade para falar, por exemplo, da epifania nascida do perfume de jasmim sentido de madrugada? Geralmente, sentimos medo: da incompreensão, do que o outro pensará de nós, do deboche, da raiva... O mais triste é que tem gente que passa a bloquear todo e qualquer sentimento, pensamento ou ação que fuja do entendimento comum, mesmo que faça sentido para elas. Quem opta por permanecer tendo percepções incomuns geralmente acaba se escondendo, falando de bobagens mesmo com os amigos, como se não precisasse deles mais do que para isso. Muitas vezes, não sabemos pôr coisas realmente importantes para nós em palavras, e o meio não ajuda, ou seja, os que nos cercam são obtusos. Este foi um dos motivos, aliás, que levou Anne Frank a escrever o diário, e é uma das frustrações do aviador que encontra o Pequeno Príncipe. Sendo assim, a minha pergunta é: será que estamos capacitados a criar laços de intimidade com nossos semelhantes? Pois, se até mesmo para pedir ou extravasar algo muito menos complexo, como um aumento de salário ou acordo com o ex, usamos dos mais variados subterfúgios, desde rodeios até chantagens sentimentais... Isso é intimidade?
Com a falta de intimidade e o excesso de disfarces, cada vez menos nos sentimos refletidos nos outros, os de carne e osso que convivem conosco. Eles não nos servem de espelhos da nossa humanidade, por isso que cada vez mais nos sentimos sozinhos. É por isso que muitas vezes as pessoas vão buscar consolo em fontes como a literatura (escritores, muitas vezes já mortos e seus personagens), Internet (amigos virtuais), culto a ídolos, entre outras formas de evasão - o que não é uma atitude saudável, se praticada o tempo todo. E muitas vezes sentem que esses personagens virtuais - ou seja, que fazem parte de uma realidade em potencial, que não é verdade verdadeira por alguma razão - são mais reais do que as pessoas com quem já convivem, na sua própria realidade.
In Memorian
Dedico esta coluna a Moacyr Sciliar, falecido ontem. Não tenho muito o que dizer, não li muita coisa dele, mas de certa forma ele fez parte do meu Ensino Fundamental, ao lado de Luís Fernando Veríssimo e Ana Maria Machado, pois é um dos escritores favoritos dos livros didáticos. O pior é que eu poderia tê-lo conhecido, num Paiol Literário ocorrido, creio, no ano passado. Mas só fui descobrir isso tarde demais. De qualquer forma, adeus, Moacyr Sciliar.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Por uma TV melhor

"Zapeando" pela Internet, acabei encontrando o texto de Ale Rocha desta semana, "Insensato telespectador", que gerou muita polêmica, como se pode ver nos inúmeros comentários abaixo. Para quem não sabe, Ale Rocha é o colunista de televisão do Site Yahoo!.
Criticando a novela "Insensato Coração", ele escreve que há cenas provocando a revolta dos telespectadores, a ponto de o Ministério Público ter sido acionado e a trama estar arriscada a ser indicada para só a partir dos 14 anos, ou seja, só poder passar a partir das 22h. E os autores, Gilberto Braga e Ricardo Linhares, estariam se acomodando ao apresentar apenas personagens divididos entre o bem e o mal e o tal do "realismo", conseguido através das cenas de sexo e barracão. Para Ale Rocha, portanto, os telespectadores e os autores são ou estão caretas, pois o maniqueísmo poderia ser ultrapassado e idéias consideradas retrógradas poderiam ser discutidas, mas não são. Pelo que li dos comentários posteriores, muitos ficaram incomodados com essa utilização da palavra "careta", entendendo que o autor maldiz o pensamento ou atitude de defender valores moralmente aceitos e que seriam necessários à formação pessoal de crianças e adolescentes. Ainda segundo Rocha, muitos pais negligenciariam a educação, ou a transfeririam ao Estado, por isso a tentativa de tornar as tramas "caretas".
Não posso opinar sobre a novela diretamente, pois não a assisto. Mas tenho que concordar com quem diz que ninguém é obrigado a ver nada, pois tem o controle remoto. Eu iria até mais longe: que tal tentar desligar a TV uma vez por semana e procurar passar o tempo ou se divertir de uma forma completamente diferente? Além disso, as pessoas que denunciaram a novela ao Ministério Público alegaram que as cenas de sexo e barracão são exibidas às 21h10min, quando as crianças e adolescentes ainda estão na sala. Quando eu era criança, ia dormir entre 20h30 e 21h - minha mãe punha eu e o meu irmão na cama para poder ver as novelas desse horário. E isso nos anos 90, quando muitos dos meus colegas viam as novelas, às vezes até as minisséries. Eu comecei a ver novela com 11, 12 anos, e sempre com pelo menos a minha mãe por perto. Mesmo assim, demorei um pouco mais para começar a ver novela que passa às 21h. Nos intervalos, a gente discutia o que tinha acabado de ver. Ou seja, muita coisa ainda depende dos pais, mesmo. Não estou querendo dizer que a minha família tinha a postura mais correta com relação a esse assunto, até porque a minha mãe era só dona-de-casa, algo que já não fazia parte da realidade de muitas mulheres naquela época. Mas acredito que é possível, sim, controlar o que os filhos vêem.
Isso não quer dizer que a TV também não tenha responsabilidade pelo que veicula. Sabemos que muitas vezes ela banaliza sexo e violência em busca de pontos no ibope. E, se ela recorre a esses expedientes, é porque há muita gente assistindo, ou seja, o telespectador também tem culpa. No entanto, a situação dos teledramaturgos é bastante complicada, pois têm que render audiência, ou seja, se submeter às vontades de quem vê, que hoje está cansado do modelo de novela vigente, e no entanto não podem realmente ousar muito, tanto nos temas, pois há muito conservadorismo, tanto do povo como da emissora, como na narrativa, porque a maior parte dos brasileiros não está preparada para apreciar outras formas de narrativa, ou talvez personagens mais humanos, incluindo mocinhos mais humanos. É uma tarefa ingrata, escrever para um povo culturalmente bastante heterogêneo durante uma média de nove meses, mantendo a audiência. Lembro de um desabafo que li do Sílvio de Abreu uma vez, que falava que o povo tem uma relação mais emocional que intelectual com os personagens apresentados, e por conta disso os criadores não têm muita saída além de apelação e repeteco. Embora não concorde totalmente com isso, também pergunto: como fazer?
Concordo com um comentarista que disse que a emissora precisa contratar gente nova. Mas acrescentaria: precisa também flexibilizar suas regras teledramatúrgicas, afinal elas vêm dos anos 60! O Brasil era outro! E os pais precisariam retomar sua autoridade, para voltar a controlar o que os filhos vêem, saber que há outras opções no mesmo horário, ou mesmo desligar a TV e fazer outra coisa, em vez de ficar engolindo algo "menos pior", seja novela, seja qualquer outro tipo de programa. Seria o movimento dos telespectadores para que a televisão volte a ser feita de maneira mais inteligente. E algo tão insubstituível quanto a educação moral é a educação intelectual: o gosto pela cultura (leitura, museus, filmes de arte, etc.) deveria ser cultivado desde a infância, para que as novas gerações entrem em contato com outras possibilidades de histórias e personagens, estando mais preparadas para aceitar (ou mesmo repudiar) novas narrativas na telinha.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Diferentes formas de lutar pelos direitos

"Todo homem é magistrado quando se trata de salvar a pátria." Creio que esta frase, encontrada no livro "Da república", de Cícero, é a que explica a excelente notícia veiculada na semana passada: quem foi vereador em São Paulo em 1993 e 1994 (um total de 55 pessoas) está condenado a devolver, cada um, aos cofres públicos, 98 mil reais, por terem aumentado ilicitamente os próprios salários. E isso graças a quem? A quatro cidadãos paulistanos, que processaram esses políticos e tiveram que esperar "só" 17 anos para que a justiça fosse feita. Esses pacientes guerreiros deveriam ser levados ao programa da Marília Gabriela, tanto no SBT como na GNT, para explicar como foi essa saga. Além disso, essa história deveria ser publicada em livro, para depois virar filme. Eis os nomes desses cidadãos: o engenheiro Raymundo Medeiros, a secretária Rosemary O´ Neil Minson, a dona-de-casa Francisca Belizia Shlithler e o representante comercial Paulo Antonio de Oliveira, todos representados pelo advogado Marco Antônio Rodrigues Barbosa.
Esse tipo de notícia, nem preciso dizer, é alentadora. No mesmo dia em que a recebi, sexta-feira passada, pensava desanimada no seguinte contraste: em 1992, conseguimos depor um presidente da República. Mas em 2010, no caso aqui do Paraná, a movimentação popular não conseguiu fazer renunciar o presidente da Assembléia Legislativa de Curitiba (antes de ter sido reeleito, claro). Como é que pode? Também tivemos, também no ano passado, outra vitória, que foi a aprovação da Lei Ficha Limpa, que no entanto é motivo de piada: os alvos juram que não são fichas-sujas e fica por isso mesmo. Um exemplo foi o senhor Cassio Taniguchi, que recentemente disse não fazer parte desse time porque, quando a lei foi aprovada, seus crimes (não foi essa a palavra que ele usou, lógico) já tinham prescrito! Junto a este, quantos casos no Brasil inteiro! E o pior é que o povo ratifica a corrupção e a incompetência, ao continuar votando nesses mesmos políticos. E também em aproveitadores que está na cara que não nasceram para a política.
Estes versos de Bertold Brecht (1898-1956) me fazem refletir: "A atitude crítica / É para muitos não muito frutífera / Isto porque com sua crítica / Nada conseguem do Estado. / Mas o que neste caso é atitude infrutífera / É apenas uma atitude fraca. / Pela crítica armada / Estados podem ser esmagados." Mas seria essa realmente a solução para nós, ou um problema pior ainda? Não há dúvida que às vezes não há outra saída. Por exemplo, a frase do começo desta crônica não é de Cícero, mas de um romano chamado Júnio Bruto Aparente, que chefiou o movimento popular que transformou Roma de monarquia em república, no ano de 509 a.C. Para que isso acontecesse, e a corrupção dos costumes da época pelos monarcas fosse corrigida, foi preciso que o povo se unisse para expulsá-los. De certa forma, foi o que aconteceu na Tunísia, que serviu de exemplo para que o Egito iniciasse a sua própria revolução, os dois expulsando ditadores do poder, depois de décadas. No entanto, esses casos - Roma, Tunísia e Egito - chegaram ao extremo, ou seja, possivelmente não haveria outra maneira de o povo lutar pelo que queria. Movimentos como o dos Caras-Pintadas e este episódio do pagamento dos vereadores de São Paulo mostra que existem outras formas de luta e obtenção de direitos, às vezes usando as ferramentas do próprio Estado, algo que não se deve perder de vista. O próprio Brecht terminava assim o seu poema: "A canalização de um rio / O enxerto de uma árvore / A educação de uma pessoa / A transformação de um Estado / Estes são exemplos de crítica frutífera. / E são também / Exemplos de arte."
Obs: Os dados da notícia foram retirados do site http://www.conjur.com.br/, que por sua vez se baseou na Folha de São Paulo.