segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Androginia

Ao pegar um ônibus, a princípio nem olhei para a cara do cobrador. Apenas passei, sentei na segunda fileira de bancos próxima a ele, peguei meu indefectível livro e comecei a ler. No entanto, acabei passando quase toda a viagem olhando para o cobrador.


Não sei por que, nem em que momento, mas, ao erguer os olhos, distraidamente, logo me peguei admirando dois detalhes dele: a orelha esquerda, que era a que eu podia observar livremente, estava cheia de argolas no lóbulo inferior, série esta que era encerrada pelo que parecia ser um piercing, e o cabelo curtinho, só não digo cortado à escovinha porque os fios do topo estavam inteiros, e até arrepiados, pintados de amarelo (os fios mais próximos da cabeça e do pescoço eram escuros). Me chamou a atenção o fato de que de repente me dei conta de que, por estes dois detalhes, eu não tinha como saber se quem estava à minha frente era homem ou mulher!


De início, raciocinei que é até engraçado que tudo isso, hoje, possa representar também um homem. Mas, com o tempo, essa impossibilidade de definição começou a me afligir. O perfil, que eu esquadrinhava furiosa mas disfarçadamente em busca de qualquer sinal distintivo mínimo, não dizia nada, e esta era a única parte do cobrador à qual eu tinha acesso! Cada vez mais intrigada, pensei que a única maneira seria conferindo se aquela pessoa tinha seios. Mas levantar assim, do nada, sem a intenção de descer ou ceder o lugar, é muito estranho num ônibus. Sem contar que mesmo isso, hoje, pode não querer dizer muita coisa. Está cada vez mais difícil encontrar sinais para se definir quem é homem e quem é mulher! Cheguei a lembrar de um filósofo muito estudado em Comunicação, Stuart Hall, que, na minha opinião, foi quem melhor escreveu sobre essa perda de referências para se definir de forma segura a identidade de alguém, e, portanto, essa confusão entre referências e identidades num mesmo indivíduo, que às vezes podem ser até antagônicas.


Por exemplo, até mais ou menos a década de 1920, as mulheres tinham que manter os cabelos compridos, no máximo presos em coques e outros penteados. De repente, virou moda cortá-los, ou seja, elas, como os homens, também passaram a usá-los curtos. E ainda houve, ao longo do século passado, as que rasparam a cabeça, corajosamente, pelas mais diversas razões, ou seja, adotaram mais uma prerrogativa masculina. Há, digamos, apenas uma década, piercing era coisa de bandido, ou no mínimo de jovem irresponsável, e brincos - ou argolas na orelha - eram coisas exclusivamente de mulher. Hoje, a maioria dos adolescentes usa piercing, e muitos meninos, e mesmo homens mais maduros, se enfeitam com brincos, sem grandes problemas. Nada contra, acho importante essa modificação de visões, especialmente com relação ao piercing e à tatuagem. Mas não há como negar também que isso complicou a definição das identidades. O que altera a nossa forma de relacionamento com os outros, pois alguém se atreveria a perguntar àquela pessoa que eu estava observando se ela era homem ou mulher?


Minha esperança, então, com relação ao cobrador, foi esperar que ele se virasse na minha direção espontaneamente, mas já não era mais para ver se tinha seios. Examinando um pouco melhor o rosto, comecei a achar-lhe uma delicadeza que provavelmente não encontraria no rosto de um homem. Está bem, mesmo isso hoje pode se alterado, e ainda por cima algumas vezes a natureza pode dar traços mais delicados a um homem e mais viris a uma mulher, mas que diabo, a gente tem que se agarrar a alguma coisa! De repente, as sobrancelhas (ou a sobrancelha, pois continuava só podendo ver bem a esquerda) me chamaram a atenção. De início, me pareceram um pouco grossas, mas estavam feitas, isto é, cada uma era uma linha sem nenhuma ponta espetada. Mas demorei muito para chegar a uma conclusão, confesso. O que me valeu foi que de repente ela virou para uma passageira e falou - a voz era baixa, feminina. Logo depois a passageira ao lado desta, que estava à minha frente, se levantou, e foi então que pude ver o tênis da cobradora: bege claro com desenhos em belos traços grossos pretos representando, pelo que pude perceber, um beija-flor bicando uma flor. (Se bem que, na hora, acabei estabelecendo como única referência realmente segura para se determinar o gênero de alguém, hoje, a presença ou não do pomo-de-adão. Mas isso foi até descobrir que já existe como raspar esse apêndice, e me lembrar de que provavelmente a ingestão de hormônios masculinos pode criá-lo em quem não tem.)


No resto da viagem, a cobradora virou o rosto na minha direção mais umas três ou quatro vezes. Os olhos eram puxados de tal maneira, que pareciam desenhados com delineador, e acho que ela usava batom. A outra orelha não tinha nenhum adorno. Não obstante, havia masculinidade nos cantos da boca derrubados e numa certa frieza contida naqueles olhos azul-escuro. Provavelmente, a tentação de dizer que precisamos mudar nossos conceitos sobre identidades, agora que as referências foram ou estão sendo alteradas, é grande. Até pode ser. Mas tenho que voltar à pergunta que já fiz no texto: se é só perguntando que a gente consegue a resposta mais correta, quem se atreveria a sair perguntando o gênero de quem não conhece?

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Flânerie

Uma das recompensas de sair a caminhar a qualquer momento sem compromisso é poder se sentir dono da cidade onde já nasceu ou mora. Afinal, ser dono de uma propriedade não é poder entrar nela quando quiser, sem ter que pedir permissão para ninguém? Pois a cidade também está aí para isso! Aliás, olhem este belo trecho de Walter Benjamin, que teorizou sobre isso:

"A rua se torna moradia para o flâneur que, entre as fachadas dos prédios, sente-se em casa tanto quanto o burguês entre suas quatro paredes. Para ele, os letreiros esmaltados e brilhantes das firmas são um adorno de parede tão bom ou melhor que a pintura a óleo no salão do burguês; muros são a escrivaninha onde apóia o bloco de apontamentos; bancas de jornais são suas bibliotecas, e os terraços dos cafés, as sacadas de onde, após o trabalho, observa o ambiente". Isto não parece poesia?

Essa flânerie aí, mencionada no título, é o ato de simplesmente caminhar pela cidade, aparentemente sem fazer nada de útil, sem produzir. Mas só aparentemente. Porque quem faz isso, na verdade, é para observar. As pessoas e a arquitetura.

Este termo surgiu na França do século XIX, e serve para designar o ato em si, que envolve o flanar, o passeio, o movimento, e o voyeurismo, ou seja, a observação (o termo voyeurismo é muito mais amplo do que sugere o seu significado mais conhecido). O homem que pratica isso é chamado de flâneur; seu correspondente feminino é a flâneuse.

O flâneur, de acordo com a poesia francesa do século XIX e com o estudo de teóricos como Walter Benjamin, se tornou um personagem freqüente na paisagem urbana dessa época - o mais interessante, aqui, é que uma das razões para isso é que essa atitude era fundamental para quem precisava ou queria se manter informado sobre os acontecimentos do dia, porque muitos desses flâneurs eram escritores e jornalistas. Isto não diz algo, numa época de shoppings centers, entretenimentos virtuais, falta de segurança e de tempo?

É bastante válido fazer esse exercício, principalmente quem quer ser escritor ou jornalista. No entanto, eu mesma demorei anos para descobrir como se faz isso de modo a não parecer uma atividade sem sentido (o que significa que perdia a concentração). Mesmo lendo atualmente livros sobre a flânerie, pois estou pesquisando isso para o meu trabalho de conclusão de curso, é claro que em nenhum deles vai aparecer o "modo de fazer". Descobri por mim mesma que o segredo é se deixar seduzir por qualquer coisa - seja um ambiente, seja uma pessoa - e observar. Observar disfarçadamente, desviando o olhar para que ninguém perceba, mas de modo a anotar todos os detalhes possíveis (mentalmente ou já escrevendo). Anotar é muito importante. Mas a sensação não precisa ser só visual. Ouvir conversas alheias, como se não estivesse presente, também pode ser uma boa fonte de inspiração, ou mesmo de informação.

Meu plano é colecionar cenas e frases. Como sábado passado, quando me pus a observar, no meio da multidão que já cercava o palco para o show-missa em homenagem a Nossa Senhora da Luz, no Largo da Ordem, um homem vestido de azul que andava tropegamente, rindo estranhamente às vezes. Por instinto, pensei que poderia ser alguém com deficiência mental, mas também poderia se tratar apenas de um bêbado - não sei, não me aproximei o bastante para verificar se cheirava a cachaça. Justamente por esses atributos é que ele destoava da multidão, então o acompanhei com o olhar durante um curto tempo, até ele sumir na Galeria Júlio Moreira. Talvez a única coisa mais significativa que ele tenha feito (que me lembre) foi jogar fora um cigarro. Mas me lembro dele até hoje, porque a sua atitude tinha algo de grotesco.

Porém, creio que a minha melhor história de flânerie continua sendo a cena que compartilhei com um amigo, sentados os dois em plena Praça Rui Barbosa: um casal se beijando apaixonadamente no banco em frente ao nosso, por não sei quanto tempo (no mínimo, vários minutos). Era um beijo de tirar o fôlego, e para eles o mundo em volta não existia. O curioso é que, pela saia comprida da menina, suspeitamos que pelo menos ela pudesse ser evangélica. E faltam mais dois elementos para completar este quadro: a pasta do cursinho Dom Bosco, se bem me lembro dela também. E um pacote de presente abandonado no banco, perigando, conforme disse o meu amigo, "passar um molequinho e roubar". Eles pararam num intervalo curto, e voltaram ao beijo. Não lembro se, quando nós dois saímos dali, eles continuavam.

Vale a pena!


Sugestões de livros sobre o assunto:

- As flores do mal, Charles Baudelaire;

- Charles Baudelaire, um lírico no auge do capitalismo, Walter Benjamin (foi de onde tirei o trecho acima);

- A invenção do cotidiano, Michel de Certeau;

- O cinema e a invenção da vida moderna, Leo Charney e Vanessa R. Schwartz;

- A poética do espaço, Gaston Bachelard (apesar de tratar sobre os mais diversos tipos de "casa" e de "abrigo", vale a pena ser indicado aqui, porque mostra como podemos ser flâneurs também dentro de casa e na natureza - a flânerie surgiu como uma arte essencialmente urbana).

- Dois flâneurs brasileiros: João do Rio e Lima Barreto.


Errata: Na postagem anterior, disse que no atentado de 11 de Setembro, nas Torres Gêmeas, morreram aproximadamente 3 mil pessoas, e mais 184 do Pentágono. 3 mil, ao que parece, foi o saldo total, somando o World Trade Center, o Pentágono (125 mortos, conforme Eugênio Bucci) e o avião que não chegou a atingir a Casa Branca (246 mortos, mesma fonte). Aliás, por que, ao falar nestes atentados, só se menciona as Torres Gêmeas?

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O substituto da bomba atômica

Ontem vi uns pedaços do Domingo Espetacular, na Record. Confesso que esta crônica está saindo de uma notícia que vi pela metade, mas que me impressionou muito. Ela era a respeito da idéia de dominar o clima de modo a fazer disso uma arma de guerra - e pior: que os Estados Unidos planejam ter essa vantagem em seu exército até 2025.


Conforme disse um cientista consultado pela matéria: qual o interesse em se trabalhar nisso? É incrível como estamos precisando justamente unir todos os povos e pessoas para salvar o mundo, e no entanto ainda surgem idéias destrutivas e, por que não dizer?, suicidas, que a ciência leva adiante, pois lhes dá crédito. Sem contar que já vi este filme antes. Enquanto assistia, outro especialista consultado comparou esta busca de agora com outras que ocorreram anteriormente, em busca do domínio de armas mais poderosas. Lembram da Guerra Fria, em que Estados Unidos e União Soviética disputaram o controle da tecnologia nuclear, ou seja, o segredo da fabricação das bombas atômicas e a legitimação da posse delas? Além do medo velado daqueles anos - os mais velhos devem lembrar, talvez, da célebre história de "apertar um botão vermelho" para que simplesmente o mundo acabasse, porque a expectativa de uma Terceira Guerra Mundial, contando com tais armas, seria essa. E não nos livramos totalmente dessa história hoje, pois há países que fabricam e mantêm essas bombas no seu território, apesar da proibição dos Estados Unidos, sempre eles, que no entanto se reservam o direito de possuir tais armas.


Será que tem como imaginar o que acontecerá se algum humano tiver poder sobre o clima? Só de leve, e mesmo assim já dá para ficar aterrorizado. Segundo outros especialistas consultados na reportagem, seria possível mandar ventos fortes para determinados países (furacões), e até provocar a seca. Certo, talvez desse também para fazer chover em regiões com pouca chuva, mas de nenhuma forma dá para se enganar nesse assunto, ainda mais quando quem está querendo se apossar desse poder é o exército: vai ser usado para a destruição de quem contrariar o país detentor. Não vai ser bom o ser humano ter o domínio do clima, sem contar que, novamente, o homem está brincando de Deus. Mas ninguém hoje leva esse argumento a sério, ou leva?


E outra questão boa de se pensar: supondo que os Estados Unidos realmente consigam esse controle do clima e usem essa arma no "combate ao terror" (leia-se, hoje, muçulmanos) e realmente devastem um país, como, não custa lembrar, fizeram com as cidades de Hiroshima e Nagasaki (bombas atômicas) e com o Vietnã (napalm), será que em seguida vão aceitar que o 11 de setembro perca o posto de "maior ataque terrorista da História" para uma obra deles mesmos? (Já coloquei, em outro momento, que apesar de reconhecer a gravidade deste fato, pois morreram três mil pessoas nos ataques, destas 184 no Pentágono, não considero que este seja o "maior/pior ataque terrorista da História"...)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Meu hobby

Já deu para perceber que coleciono textos, não? Poemas, letras de música, crônicas, livros de contos (e, ultimamente, contos tirados da Internet também), romances, artigos, reportagens de jornais e revistas e charges (que recorto, xeroco ou, caso mais raro, imprimo). Além da razão óbvia, também é o meu hobby, posso dizer. Capturar textos e organizar as conseqüentes coleções. Ainda posso dizer que é a única coisa que realmente vale a pena roubar, pois posso conservar comigo sem tirar o direito de acesso dos outros, afinal o texto não vai sumir das páginas porque o copiei em um dos meus cadernos.


Confesso que é uma das coisas que está me mantendo ultimamente. Incrível como os atos de capturar e organizar as coleções podem acalmar um indivíduo! Acho que dão até uma sensação de potência, pois é o reino de onde ele é caçador e deus, e sozinho. E quando consegue um item raro que estava procurando há muito tempo, então!? Sente-se realizado. Eu como que volto à infância quando descubro um texto que queria há muito recuperar (por estar, talvez, num dos livros escolares que a minha mãe doou), ou quando descubro finalmente de onde veio aquela frase bonita que há muito me intrigava. No entanto, é claro que às vezes também sou dominada pelo medo de perder toda esta riqueza, seja por incêndio, comida por algum bicho ou por perda pura e simples, como já aconteceu (e estes são os únicos modos de perder uma porção de papéis que me vêm à mente). E também há momentos em que gasto meu tempo imaginando que fim eles levarão quando eu morrer, se vão se dispersar ou se alguma alma caridosa vai manter o conjunto. Se se pensar pela lógica cristã, estou fazendo exatamente o contrário do que prega a religião na qual fui criada, pois estou ajuntando tesouros na terra.


No entanto, é algo que me acalma, como já disse antes. É uma das minhas diversões, porém também é uma necessidade tão básica quanto fazer xixi. Não posso passar muito tempo sem ler literatura - os livros teóricos, por melhores que sejam, como que se embaçam quando sinto essa carência, e eu vou forçando a leitura, o que nem preciso dizer que é um martírio.


Sem contar que tenho um outro segredo: não é raro que comece a ecoar na minha cabeça, insistentemente e por vários dias, sem nenhuma razão, o nome de um autor ou livro. Quando vou ler obedecendo a essa intuição, descubro que estou exatamente no momento de ler aquilo! Ou seja, estou em plenas condições de compreender e tirar proveito do que leio, e já de forma mais rica na primeira leitura, pois não simplesmente leio, mas vivo aquelas palavras com mais intensidade, por algo que já vivi ou pensei antes. Será, então, que não seria mais correto dizer que coleciono leituras, pois aí também posso incluir filmes, quadros e peças de teatro (estes dois, em menor quantidade, por enquanto)?


Agora com licença, que vou copiar um poema de Charles Baudelaire antes de ir para casa.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Como falar de folclore, neste 22 de agosto?

Todos sabemos, por causa da escola, que hoje se comemora o dia do folclore. É uma data internacional, e resolveu-se por ela porque, num dia como hoje, mas em 1846, um arqueólogo inglês chamado William John Thoms publicou um artigo na revista "Athenaeum", em Londres, propondo que as "antiguidades populares" fosse chamada de folk-lore. Quem leu "Histórias de Tia Nastácia", de Monteiro Lobato, deve lembrar que folk significa povo e lore, sabedoria, ciência. Era uma época em que já se discutia bastante sobre a importância de se resgatar as tradições populares. Durante muito tempo na História, e até hoje, muita gente pensa nas pessoas que se criaram no campo como as guardiãs da cultura nacional, em detrimento do povo das cidades, que se estrangeiraram completamente, porque era nas capitais que chegavam as novidades dos outros países e as informações circulavam com maior rapidez. Pelo menos, é o que nos levam a pensar, e não aparece ninguém para discutir conosco esta idéia.


É claro que este é um modo muito simplista de ver esta questão. Por vários motivos, mas vou ficar em um só caminho: costumamos aprender que folclore são, por exemplo, as histórias do Saci, da Iara, do Curupira, no caso do Paraná e de Santa Catarina o Boi-de-Mamão, etc. Sempre as mesmas histórias. De acordo com o também inglês Raymond Williams, teórico da cultura muito estudado também em comunicação social, esta seria a porção arcaica de toda a cultura de um povo, ou seja, existe como objeto de nostalgia ou de estudo. Não se relaciona, pelo menos não diretamente, com a cultura que está em voga atualmente, por exemplo. Simplesmente porque não há como ignorar que o país e o mundo mudaram, se industrializaram, e essas histórias fazem cada vez menos sentido para nós.


No entanto, apesar de estar escrevendo tudo isto, até o meu primeiro ano de faculdade estive envolvida com um grupo de Boi-de-Mamão, o Boi Nitinho ou Boinitinho, que por alguns anos se apresentou em vários pontos de Curitiba, até acabar de uma forma bem estúpida, que contarei em outro momento, oficialmente em 2007 (durou quatro anos). Ainda teve uma sobrevida em outro lugar por mais ou menos um ano e meio, mas já morreu. Os fundadores foram Elói Egídio Pereira e Silvia Gracía Marquez, ele catarinense que praticamente nasceu envolvido com o Boi, ela professora de artes do Centro Juvenil de Artes Plásticas e folclorista. A proposta deles tinha algo de diferente: nós representávamos a história da morte e ressurreição do Boi, mas a qualquer momento podíamos modificá-la. Por exemplo, conversávamos sobre a possibilidade de nem sempre o Boi ser assassinado pelo Vaqueiro para que este pudesse lhe tirar a língua para dar à Mulher grávida e desejosa: ele podia morrer de bala perdida, afogado numa enchente... Uma das histórias que mais ilustram essa abertura foi quando o Elói deu uma oficina para presidiários: eles inventaram que o Boi morreu por falta de liberdade, e a vacina que o ressuscita no final foi por eles chamada de Libertina.


É isto o que estou tentando defender aqui: o culto ao folclore, mas sem enxergá-lo como uma cultura inalterável, que deve permanecer "pura", até porque toda cultura se modifica com o tempo, para continuar acompanhando e fazendo sentido aos que nasceram nela ou a praticam. Aliás, foi o próprio Elói que me ensinou que "folclore", hoje, faz referência a essa parte da cultura que, pela tacanhice de alguns, vive dentro de uma bolha, protegida do próprio povo que a criou. A porção que descende da memória popular mas está por aí sendo reaproveitada conforme as necessidades - o que nós tentamos fazer com o Boi - está sendo chamada de "manifestação popular" (uma pena, porque acho a palavra folclore tão bonita, tão sonora!) No entanto, ao lado disso deveríamos pensar também em tentar resgatar as condições nas quais essas lendas, crenças, costumes, etc. foram sendo criados. Por exemplo, apesar de ter me apresentado com o Boi-de-Mamão por muito tempo, confesso que até hoje estou procurando entender como o Boi pode ter surgido como uma brincadeira de adultos, e não de crianças. É esquisito, não é? Não conseguimos imaginar adultos brincando, a única exceção é com os filhos pequenos. Mas estes criadores e sucessores brincavam, ainda que só depois do expediente. E um detalhe ainda mais curioso: era monopólio dos adultos, as crianças mesmo não podiam brincar de Boi, ou talvez não com os adultos, pelo menos. Por que será? A hipótese que me surgiu agora é que o que hoje conhecemos como Boi-de-Mamão (ou Boi-Bumbá, Bumba-Meu-Boi, etc., em outras partes do Brasil) pode ser o remanescente de alguma antiga festa da Península Ibérica em homenagem aos bois - porque foi uma tradição trazida ao Brasil pelos portugueses. É algo a ser pesquisado, não?


Será que é por toda esta maneira displicente com que tratamos o nosso folclore que quase não se fala nas pessoas como Elói, Silvia e tantos outros, que lutam para preservar as tradições folclóricas (ou manifestações populares)? Para mim, são verdadeiros heróis. Fazem isso sem nem uma ajuda, seja do governo, seja da iniciativa privada. É um trabalho cansativo, no qual constantemente se esbarra na ignorância, na estreiteza de visão e no oportunismo, e que não dá nem dinheiro, nem prestígio. Pelo contrário, quem vive só de folclore pode morrer à míngua completamente desconhecido, como certos artistas populares do Nordeste. Quando o folclore é apresentado aos que não o conhecem em profundidade, não parece que se está falando de algo tão importante como a cultura de um país, mas de uma curiosidade de almanaque, adesiva. Por isso que achamos bonito ou engraçado, até "coisa de caipira", mas que nada tem a ver conosco. Então, qual o sentido de preservar? Urge resgatar a história das tradições populares e dos que tentam preservá-las! Se um povo não se interessa por isso, por que e como devemos cobrar dele depois que vá a museus, teatros, bibliotecas? Ou que se orgulhe do país por fatos importantes e que realmente merecem orgulho? Ele não sabe quem é, nem de onde veio... O meu amigo Elói criticou o Festival de Danças Folclóricas, uma tradição do Teatro Guaíra, quando, no mês de julho, diferentes grupos de folclore étnicos apresentam danças dos povos que representam, e não foi pelo estrangeirismo (já que nunca tem um grupo representando o Brasil): "Eles se apresentam, sempre bonitinhos, e ninguém sabe de onde veio aquela dança, nem quanto o grupo teve que trabalhar para ficar bom". É como se folclore fosse só os resultados que conhecemos hoje, e não todo um processo de criação e evolução, surgido de um modo de vida num dado momento de sua história.


E outro ponto: folclore devia ser ensinado para os grandes também, não só para os pequenos. A preservação também é coisa de gente grande, incluindo governos e patrocinadores privados.


Precisamos copiar dos outros países o orgulho e o respeito com que preservam sua história e suas tradições, não as tradições em si. Ou, melhor ainda: buscar inspiração nesse orgulho e nesse respeito para descobrirmos os motivos para gostarmos de ser brasileiros, apesar de tudo.




***




Dedico esta crônica a todos os que lutam pela preservação do nosso folclore. Meus conhecidos que se enquadram: Elói, Silvia, Margarida (Marg) e todos os que se apresentaram comigo no Boi Nitinho enquanto ele durou (que na época eram crianças).


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A descoberta do mundo

Não consigo me interessar por futebol, e fui contra quando soube que o Brasil sediaria a Copa de 2014, por ser do time daqueles que acham que o Brasil tem outras prioridades para atender antes de se dar ao luxo de torrar bilhões na construção de estádios portentosos e demais gastos que envolvem esse evento.

No entanto, uma única vez uma Copa do Mundo me prestou um serviço importante, ou melhor, a mim e ao meu irmão. O ano era 1998, quando eu tinha 8 anos e ele, 6. Ouvíamos direto anunciar pela televisão os países que iam jogar na Copa, e tanto ouvimos que começamos a ter curiosidade em saber onde ficavam aqueles países. Ao comentar desse interesse com o nosso pai, ele explicou, de forma muito pedagógica: "Vocês sabiam que existe um livro de mapas, chamado atlas, que dá pra gente consultar para saber onde ficam os países?" Desde então, passamos a cobrar dele para que comprasse o tal livro. Ao fim de algum tempo, ele chegou com o atlas debaixo do braço, que temos até hoje, por sinal. Dois dias depois, nos ensinou a localizar qualquer ponto no mapa usando aquelas indicações de letras e números que aparecem em cada página.

A partir daí, o atlas passou a ser mais um dos nossos brinquedos! Ficávamos horas debruçados sobre ele descobrindo o mundo, inventando histórias, etc. Antes de ter o atlas em casa, por exemplo, eu achava que a Holanda (ou "Holândia", como escrevi uma vez quando era criança) ficava onde na verdade está os Estados Unidos, e que a Jamaica era um país da África, não da América Central. Brincamos com o atlas durante tanto tempo, inclusive no jogo de stop, que acabamos decorando naturalmente muitas localizações de países e cidades, e mesmo antes de termos Geografia na escola já adorávamos essa matéria, e nunca tivemos grandes dificuldades nela.

Foi assim que o meu pai nos deu o mundo. Nada mais justo, para homenageá-lo no dia dele, que contar esta bonita história, da qual ele foi um dos protagonistas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para Miguel Sanches Neto 2

No dia 31 de janeiro, escrevi aqui uma crônica apressada , manifestando a minha surpresa e descontentamento pelo fato de que Miguel Sanches Neto não mais publicaria crônicas na Gazeta do Povo, ou melhor, só mudaria o gênero de texto a que se dedicaria: as críticas literárias, inclusive tendo uma coluna para elas, como tinha para as crônicas, e que hoje aparece aos domingos.


Hoje vejo que me enganei em quase tudo o que disse naquele momento, pois inclusive coleciono as críticas dele, como antes colecionava as crônicas. Não é que achasse que ele não seria bom crítico, mas sim que ele passaria a escrever, sempre, sobre um mesmo objeto, ou seja, não teria tanta liberdade de forma, e também eu mesma não sabia se leria, pois, em geral, ler crítica bloqueia a minha criatividade - a razão que mais me pesava era essa.


Ainda bem que ele não tem esse efeito em mim, pois Miguel é um crítico positivo, ao contrário da ferocidade que domina esse meio. Desde pequena que leio principalmente a parte cultural da Veja, e logo me habituei a pensar que o objetivo dos críticos é achar defeitos nos produtos culturais que analisam. Mais recentemente, cheguei a escrever que desconfiava que um trabalho, para ser aceito, tinha que ter certos sinais que não sabia quais eram, mas que os críticos seriam os únicos capazes de detectar, e assim só eles teriam o poder quase metafísico de dizer se algo presta ou não, ou seja, se determinado autor/obra merece figurar nos panteões de clássicos obrigatórios e inesquecíveis, ou não, apesar do enorme esforço envolvido na produção. Quem não passasse nesse teste simplesmente fracassou, e não tem nem o direito de saber o por que, não passa de um miserável.


Hoje sei que não é bem assim. Os críticos descrevem os produtos e, segundo um professor meu, servem para desafiar o artista a fazer melhor, a não se satisfazer, o que é essencial para a arte. Eles julgam da forma que julgam dependendo de vários fatores, dos quais quero destacar dois: a teoria cultural a que se filiam e as condições em que realizam o seu trabalho (além de questões psicológicas, amizade, inimizade ou indiferença pelo analisado, etc.). No caso, a maioria dos críticos que parece não fazer outra coisa se não selecionar o que presta e o que não presta da produção atual, de forma a não conspurcar os cânones em que estão Shakespeare, Cervantes, Kafka, Machado de Assis, etc., estes seguem uma escola que quer que a arte continue tendo apenas uma função: conseguir preservar os valores humanos eternos e imutáveis contra a deturpação representada pela cultura de massas, que muitas vezes é sintetizada pelo que está sendo valorizado pelos meios de comunicação. Aliás, tocar incessantemente no rádio ou aparecer várias vezes seguidas na TV só pode mesmo significar que aquela produção cultural não presta. Ou então, estes críticos só enxergam os defeitos de tudo, e ainda, apontando-os de forma irônica, parecem não ter a capacidade de detectar uma única qualidade. O que pessoalmente me incomoda nesta atitude é a acidez - quero ter a sorte de ter críticos que até falem mal do meu trabalho (e não de mim, como fez a Isabela Boscov, na Veja, ao falar sobre o filme "Cilada.com", ao passar muito tempo no texto ironizando o humorista Bruno Mazzeo), mas querendo me ajudar, não me matando de vergonha. Se eu conseguir isso, vou me sentir estimulada a sentar com essa pessoa para juntas acharmos soluções para o que eu tivesse apresentado.


O outro ponto, as condições de trabalho, envolve principalmente a importância que o veículo de comunicação dá à seção de cultura e, por tabela, aos críticos que colaboram nela. Creio que muitos críticos são realmente amargurados, porque, em vez de falar do que gostariam, são obrigados a repercutir, de forma a gerar consumo (e não o debate, que, a princípio, seria o objetivo do trabalho do crítico cultural), produtos que não são mesmo bons, dos quais não gostaram ou de que mal-e-mal fruíram. Nessas condições, o que se faz são resenhas, não críticas.


Esse não parece ser o caso de Miguel. Posso estar errada, mas creio que é ele que escolhe os livros sobre os quais vai escrever, pois seus textos muitas vezes nem têm o gancho jornalístico de, por exemplo, um lançamento, relançamento ou realização de um filme, etc. Muitos, aliás, são completamente desconhecidos do grande público - o trabalho dele é justamente divulgar preciosidades que passam despercebidas, antigas e contemporâneas, à maneira do que faz Mariana Sanches na sua coluna Orelha do Livro, hoje publicada na revista Ler&Cia., mas que já foi programa de rádio. No caso de Miguel, o consumo só aparece no final dos textos, sob a rubrica de "serviço". Simples e elegante. Ele primeiro abre o nosso apetite com o livro e sua própria maneira de falar sobre ele, e depois indica as condições para obtê-lo.


É claro que esse trabalho de divulgação é muito importante. Mas isto, por si só, não resolve nem resolveria o problema da crítica cultural brasileira, que há muito tempo deixou de ser um espaço de debate da produção e consumo de cultura, e que eu apenas tentei esboçar aqui, segundo meus parcos conhecimentos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Amy Winehouse viveu intensamente?

O que me chamou a atenção na cobertura jornalística feita a respeito da morte da Amy Winehouse, e que me irritou profundamente, foi a repetição do desgastado clichê "ela teve uma vida curta e intensa". Creio que deveria ser esclarecido o que se entende por "vida intensa" nesta frase, porque a minha concepção, por exemplo, talvez não seja exatamente a visada neste contexto. O que Amy e outros tantos fizeram foi apressar o fim da própria existência - ou, de acordo com a crença de que a data da morte já foi fixada por Deus muito antes, não se deu uma boa morte. Conseguiu isso através das drogas, tanto lícitas como ilícitas, que debilitaram o organismo dela até aquele último suspiro. Ou seja, em pouco anos deve ter gastado o corpo como se o fizesse há décadas. Visto por este lado, mas somente por este lado, realmente levou uma vida intensa, pois espremeu décadas em poucos anos.


No entanto, as drogas também alienam da realidade, ou seja, a pessoa vive fantasias criadas por um cérebro cada vez mais alucinado. Passa a viver como que dentro de uma bolha. Quando o efeito da droga acaba, a volta para a realidade é dolorosa demais, por isso o dependente químico faz o possível e o impossível para conseguir mais em menos tempo. E essa vida se resume a isso, até a morte ou o tratamento. Se a Amy tentou mesmo se tratar, ela passou por períodos de abstinência - que são exatamente o oposto de "uma vida intensa", são tempos mortos, vazios e extremamente sofridos.


Mas a pior etapa do tratamento nem é essa. É quando a pessoa volta para os ambientes e pessoas que freqüentava antes de entrar na droga, porque vai ter que encontrar maneiras de lidar com os problemas que tinha antes (e/ou os que foram causados pelo vício) sem ceder à (forte) tentação de se drogar. É uma doença, uma condição com a qual a pessoa terá que lutar até o fim da vida, pois recaídas são absolutamente comuns (e não são, como muita gente pensa, problemas de caráter).


Também ninguém sabe ou esclarece como nem por que ela se iniciou no vício, se foi para fugir dos próprios problemas, se foi influenciada por alguém, etc. De qualquer modo, no entanto, suponho que, nos últimos tempos, estivesse gostando cada vez menos da vida. Se isso realmente aconteceu, ela teve a sorte de morrer cedo - não ficou como tantos dependentes químicos que se drogam por décadas, ou seja, enquanto a vida durar. No entanto, jamais saberemos se ela chegaria ao ponto de se recuperar (de novo), e se, desta vez, conseguiria evitar uma recaída.


Por tudo o que foi dito até aqui que eu imagino que "viver intensamente" é gostar da vida, ter disposição para enfrentá-la de cara limpa e com bom humor. Quem consegue isso é que deveria ser reverenciado como sábio, como herói, porque é mais fácil tentar fugir de tudo, e há tantas alternativas para isso! E não importa se a vida se passou sem grandes sobressaltos ou se foi recheada de acontecimentos incríveis. O importante é fazer com que ela valha a pena, e um dos ingredientes para isso é poder vivenciar profundamente cada acontecimento, sem estar anestesiado por algum vício, e sem ter que conviver com a eterna incerteza de conseguir ser forte para evitar uma recaída.


A letra abaixo, clássica, diz muito sobre a vida, e como ela pode ser intensa:




O QUE É O QUE É


(Gonzaguinha)


Eu fico com a pureza das respostas das crianças:


É a vida! É bonita e é bonita!


Viver e não ter a vergonha de ser feliz


Cantar, cantar e cantar


A beleza de ser um eterno aprendiz


Eu sei


Que a vida devia ser bem melhor e será


Mas isso não impede que eu repita


É bonita, é bonita e é bonita!


E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?


Ela é a batida de um coração?


Ela é uma doce ilusão?


Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?


Ela é alegria ou lamento?


O que é? Como é, meu irmão?


Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,


É uma gota, é um tempo


Que nem dá um segundo,


Há quem fale que é um divino mistério profundo,


É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.


Você diz que é luta e prazer,


Ela diz que melhor é morrer,


Pois amada não é, e o verbo é sofrer.


Eu só sei que confio na moça


E na moça ponho a força da fé,


Somos nós que fazemos a vida


Como der, ou puder, ou quiser,


Sempre desejada, por mais que esteja errada,


Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,


E a pergunta roda, e a cabeça agita.


Fico com a pureza das respostas das crianças:


É a vida! É bonita e é bonita!


É a vida! É bonita e é bonita! (grifos meus)




Como se vê, é sempre perigoso repetir uma frase feita sem primeiro procurar questionar o que ela significa. A mídia deveria refletir que usar este adjetivo glamouroso, "intensa", pode ser um fator a mais para incentivar o estilo de vida que Amy Winehouse levava. Mesmo que não seja essa a intenção de ninguém.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Buscando textos

Não é verdade que se acha "tudo" na Internet, como muitos gostam de apregoar por aí. Nunca se disse que numa única biblioteca estaria acumulado todo o conhecimento produzido pela humanidade, então por que com a rede seria diferente? (Bom, tudo bem, dizem que o criador da teoria geocêntrica, o grego Ptolomeu, escreveu um livro contendo todo o conhecimento de Astronomia da época, tendo acesso a nada menos que a Biblioteca de Alexandria... Mas ele viveu, se não me engano, antes de Cristo. Ou, se foi depois, foi no primeiro século d.C.)


A impressão que eu tenho é que na Internet a gente precisa saber um "Abre-te, sésamo" para cada coisa que for procurar, do contrário aparece tudo menos o que se quer. É claro que é mais fácil quando o artigo tem um nome mais específico. Por exemplo, um dia destes indiquei para um amigo ler o conto "Mágoa que rala", texto pouco conhecido do Lima Barreto, que até agora nunca vi em outra antologia que não a organizada pela Lília Moritz Schwarcz - se bem que, para o livro dela, "Contos completos de Lima Barreto", o nome antologia não é verdadeiro, porque ela incluiu manuscritos do autor até então só encontráveis na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Esse meu amigo quis procurar na Internet, eu duvidei que ele fosse achar, mas foi só ele digitar o nome que apareceu! Como eu disse, é porque o texto tem um nome incomum. Está certo, isto é discurso de mau perdedor, devo muito à Internet. Encontrei muitas outras crônicas digitando o nome do autor, ou título e autor. Ou navegando pelo site da Gazeta do Povo, dentro das edições anteriores - calcular a data de semana em semana, viajando-se principalmente para trás, me faz pensar que estou andando por um labirinto. O mal é que o número de viagens é limitado - agora está em 2005. Ou seja, de volta aos jornais de papel da Biblioteca Pública, se é que eles permitem essa promiscuidade.


No entanto, tenho os meus dramas e as minhas broncas. Desde o ano passado busco informações sobre o autor polaco-brasileiro L. Romanowski, autor do maravilhoso romance "Ciúme da Morte", mas nunca encontrei mais que o nome dele em artigos sobre a imigração polonesa no Paraná. O máximo a que cheguei foi achar o nome dele numa lista da Academia Paranaense de Autores. Não me conformo, porque esse livro, de que até existem quantidades razoáveis na Biblioteca Pública, pelo menos nos exemplares que vi (edições da década de 40 e uma da década de 70) não tem um mínimo de informações sobre Romanowski, e eu gostaria de saber se ele teve pelo menos alguma relação com a loucura, um dos temas do seu livro. Alguém aí sabe algo dele?


Também não acho, nem por decreto, duas crônicas não muito conhecidas, uma do Rubem Braga e outra do Luís Fernando Veríssimo. Para início de conversa, a fama e quantidade de textos destes dois inviabiliza muitas palavras de busca, pois geralmente vêm crônicas deles sobre o assunto de que me lembro e que escrevo no Google (algumas vezes são até palavras-chave dentro do texto), mas não vem "a" crônica. Por azar, não sei o nome de nenhuma delas, e nem alguma frase que possa colocar para localizar. A do Rubem Braga eu li um trecho, que caiu num exercício do cursinho. Só sei que está no livro "O homem rouco", no qual vou procurá-la agora. Esta apresentava uma comparação que o autor fazia entre a vida e uma melodia, que tem gente que vai atrapalhando a execução, poluindo de coisas ou tornando cada vez mais vazia. A do Veríssimo era um recorte de jornal que não sei como desapareceu. Só sei que falava sobre os poderes da infância que vamos perdendo com o tempo, como subir em árvores, acertar mais bolinhas de gude, mirar o xixi mais longe, etc.


Alguém por acaso sabe, pelas parcas descrições aqui fornecidas, onde estas crônicas se esconderam? Quando as descobrir, prometo que as publico aqui neste blog.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Caminhando ao Sol

Sexta-feira fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: caminhei ao Sol. E sábado fui ler um livro na área comum do meu prédio, um espaço cheio de verde, na frente do parquinho, campinho de futebol e da academia ao ar livre. O Sol e um ventinho que batia estavam bem convidativos.
Há quanto tempo que não me permitia esses presentes! Em parte, por uma rotina agitada, mas também porque o tempo não ajuda. Estamos (ou estávamos, pois ontem já começou a chover e hoje já está mais frio e nublado) atravessando um veranico, que são os dias de calor no inverno. É gostoso um Sol suave, talvez mais próximo do tempo ameno e constante que imagino ser o eterno clima do lendário Jardim do Éden. No verão, infelizmente, o Sol está cada vez mais ardido. Com certeza que não sentiria o calor no meu rosto como uma carícia num Sol tão forte. Outra coisa de que gosto quando brilha o Sol é de observar, da minha janela, uma copa de árvore bem frondosa e verde-escura que fica na frente do meu apartamento sendo iluminada por ele: não sei por que, me lembra um dourado-prateado usado por Klimt, talvez o meu pintor favorito, no quadro "As três idades da mulher". Uma cor empregada justamente para fazer as areias que caem de uma ampulheta invisível, dos lados das três mulheres representadas.
No meu caso, enquanto estou passando por problemas (entenda-se pressões da faculdade), ajo comigo como se não tivesse direito a descanso ou benevolência, a me tratar bem, e o Sol destes dias me lembrou de que tenho esse direito, sim. E o melhor ainda é que algumas coisas podemos nos proporcionar de graça. Em outras palavras, ao me permitir pensar no Sol desta maneira, estou me lembrando de que ele existe e fazendo outros usos dele, além dos involuntários designados em Biologia.


É nessas horas que fico pensando em por que não se pode mais levar uma vida simples e descompromissada, apenas curtindo o Sol, como parece fazer o Caetano Veloso na letra da música "Alegria, alegria", reproduzida abaixo. Quando me permito sair ao Sol, acabo tendo essas idéias, de uma forma ou de outra malucas, mas necessárias para equilibrar a cabeça. Acho que isso é fazer um uso poético do Sol, é dar importância a ele de outras maneiras, o que também pode ser um exercício interessante para quem sente a mente vazia. É como dar um outro nome para uma coisa que já existe. E também descubro outras facetas de mim mesma, ou seja, de outra forma também me dou um outro nome, ao menos pelo tempo em que dura toda essa sensação.


Alerta: o Sol mencionado tantas vezes nesta canção não se refere sempre, necessariamente, ao astro-rei, mas a um jornal com este nome que existia aqui no Brasil na década de 60, uma espécie de ancestral do Pasquim:

Alegria, Alegria (Caetano Veloso)
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Bom mocismo?

Estes tempos, estava lendo uma revista cujo nome não vou dizer aqui. Só digo que terminei de lê-la sentindo extrema angústia e desgosto, algo que a jornalista Monica Waldwogel definiu muito bem numa entrevista, inclusive para esta mesma revista, há alguns meses: "Quando eu termino de ler uma dessas revistas, fico angustiada. A quantidade de coisas que elas aconselham a fazer, a comprar, a aprender é uma enormidade". Ela estava se referindo especificamente às revistas femininas, mas isso acontece com os mais variados tipos de revista, hoje. Cada vez mais se entulha o mercado de dicas sobre isso e sobre aquilo, inclusive de combate ao stress, mesmo que ele seja em grande parte alimentado justamente pelo excesso de informações. A sensação é que agora qualquer um tem tudo o que precisa para ser feliz - se alguém continua tendo problemas e aflições, a culpa é dessa pessoa pela teimosia (ou impossibilidade) de aderir às soluções certas e rápidas.
Sem contar que estamos cada vez mais cercados de bons sentimentos - pobres dos produtos culturais, um dos maiores prejudicados por esse aspecto. Agora cada livro, filme ou peça de teatro, principalmente os dirigidos às crianças, têm que ter uma lição de moral no bojo, evidenciada nas simpáticas sinopses emitidas pelos meios de comunicação. Têm que ser funcionais, têm que ter alguma utilidade direta na vida do público visado - e, no caso das crianças, têm que ensinar boas maneiras de uma maneira lúdica, sendo muitas vezes reduzidos a isso. O mais incrível é que, muitas vezes, um texto lindo sobre a aceitação das diferenças, uma dessas sinopses, pode estar ao lado de um anúncio de produto para emagrecer, ou para ter os cabelos brilhantes! Qual a lógica?
Mas por que estou reclamando dos meios de comunicação? Eles refletem - claro que não de maneira exata e imparcial - o mundo em que vivemos, e muitas vezes têm que se submeter para se manter. Embora fosse muito bom que esses meios pudessem ser financiados de outras maneiras.
Mudando de assunto, porém, o que estão querendo esconder com tanta mensagem positiva, a todo momento? A complexidade da vida. Freqüentemente temos que enfrentá-la mesmo estando completamente despreparados, ela pode não fazer o menor sentido, pode mudar com uma velocidade incrível, nem sempre valoriza méritos e a única certeza que temos a respeito dela é que um dia vamos morrer. A maior parte das pessoas simplesmente não consegue viver com tudo isso na cabeça, então precisa de algum anestésico - mensagens edificantes, consumismo, álcool, drogas, fanatismo religioso... Algo que deixe o mundo mais simples, dê sempre a certeza do que fazer, em qualquer situação, e relaxe. Mas o principal problema de hoje é que, por trás desses anestésicos, há algumas megacorporações lucrando exponencialmente. Parece teoria conspiratória? Infelizmente, não é.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

De uma declaração...

Esta semana que passou foi agitada: morte e não-morte de Amin Khader, morte de verdade de Itamar Franco, decisão da maioria dos médicos em não atender mais por planos de saúde... Quanto a isto, só tenho uma observação a fazer: com a falta de médicos, daqui a pouco poderemos ver nas clínicas particulares as mesmas cenas degradantes que já vemos nos hospitais públicos, de filas intermináveis e pacientes sub-atendidos. Seria bom, portanto, que a questão do pagamento dos médicos se resolvesse de uma vez por todas, para que realmente não haja prejuízo para os clientes, como se alardeia tanto por aí que não haverá.


Mas quero abordar um outro assunto, polêmico também, mas que provavelmente foi esmagado por essa avalanche de acontecimentos: a declaração da deputada Myrian Rios, no início da semana passada, reivindicando o direito dela, como mãe, de despedir empregados que sejam homossexuais por não querer que os filhos sejam molestados sexualmente ou influenciados a gostar de pessoas do mesmo sexo. O que me choca nessa fala é o antigo preconceito de que gays, todos, são necessariamente pervertidos sexualmente, portanto seria comum, e até lógico, que eles também fossem pedófilos e desregrados a ponto de influenciar negativamente outros. Claro, todos sabemos que da homossexualidade à pedofilia é um passo, não é?


Queria saber por que essa desconfiança acirrada contra os gays, que inclusive é um dos argumentos de quem se opõe à adoção por essa fatia da população. Creio que não há razão para não serem vistos como vemos os héteros, e entre os héteros sabemos haver os pedófilos, os abusados, os doentes por sexo, mas também os que se guardam para um relacionamento sério, que só querem achar alguém legal e ser felizes com essa pessoa, os que não ficam se acariciando em público ou na frente das crianças, os que sabem se controlar mesmo estando atraídos por determinada pessoa, etc. Entre os homossexuais também é assim. (Aliás, por que não nos importamos com o fato de um homem hétero ser galinha, portanto podendo ser extremamente desrespeitoso com uma mulher bonita, justificando isso até com a idéia de que os homens não conseguem viver sem sexo? Não é muita hipocrisia?) Já conheci alguns gays, todos extremamente respeitosos, e todos de uma forma ou de outra também envolvidos com crianças. Se o preconceito fosse verdadeiro, pelo menos duas dessas pessoas que conheço não poderiam estar numa sala de aula como professores, mesmo sendo excelentes profissionais. O segredo dessas pessoas é lidar com sua sexualidade de uma maneira muito segura - não escondem que são gays, afinal isso faz parte do que eles são, mas também não se reduzem somente a esta característica, jogando-a na cara dos outros a todo momento. Não têm necessidade disso. Mas quem quiser manter qualquer relacionamento com eles terá que aceitar a homossexualidade deles também, e isto está fora de discussão, o que fica claro com as atitudes que adotam.


É claro que é importante prestar atenção em quem se contrata e durante o tempo de serviço, pois o pedófilo ou tarado não vem marcado na testa. Mas não é a orientação sexual que vai determinar se alguém é isso ou não. É o nível de sanidade mental, em alguns, e o caráter, em outros. A orientação sexual deveria significar apenas por qual tipo de pessoa alguém se sente atraído, nada mais do que isso.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Minha história com Clarice

Estou começando a achar que este é o ano Clarice Lispector, pelo menos na minha casa. No começo do ano, li "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", e me apaixonei por esse romance. Há algum tempo atrás, a professora de Português do meu irmão ia pedir a leitura de "Felicidade clandestina", um dos livros indicados para o vestibular da Federal, mas, como não ia dar tempo de trabalhar com o livro todo, os alunos só tiveram que ler "Uma história de tanto amor", na minha opinião um dos mais belos contos dela. Foi uma oportunidade para o meu irmão conhecer um pouco a Clarice, pois ele já estava, muito tempo antes, contaminado pelo medo de quem ouve falar que um autor é difícil. Porém eu desconfio que havia nele medo e fascinação simultâneos, porque não tentou ler nada dela, mas inesperadamente falava nela. Aprendendo sobre ela na escola este ano, teve a curiosidade mais aguçada, o que culminou com a obrigação de ler o conto. E gostou. Ficamos, depois, conversando bastante sobre ela e sobre este texto.

Foi nessa conversa que tive a oportunidade de repassar a minha história com a Clarice, e é esta história que gostaria de dividir agora com vocês, pois de repente me surgiu a idéia, cuja execução vou lançar para daqui a alguns anos, de coletar histórias de escritores e simples leitores com Clarice, e lançá-las em livro, justamente para se perceber o lado do leitor diante dela, as alegrias e dificuldades de ser sugado por Clarice. Com certeza, você não volta a mesma pessoa de antes dessa experiência. E também para desmistificar um pouco o hermetismo dela - se você procura entendê-la racionalmente de primeira, pode entrar pelos canos. Se entrar desarmado, vai ter mais chances de encará-la e, mais importante, de gostar dela.

Aos fatos. Acho que foi com uns 12 anos que peguei um livro dela - o detalhe é que até hoje não sei onde foi que ouvi ou li o nome dela pela primeira vez, só sei que um dia acordei querendo ler algo dela. Finalmente, peguei na biblioteca da minha escola "O primeiro beijo e outros contos", uma dessas coletâneas que não são pensadas originalmente pelo autor, mas sim organizadas a partir de vários livros dele, postumamente. Só lembro do conto do título e de um que era o aniversário da avó da família, a D. Anita, que larguei no meio. Devo ter lido uns três ou quatro, no máximo. Não agüentei, não estava entendendo nada e achando chato, pesado. A partir daí, fiquei com prevenção. Apesar de ter sentido curiosidade de ler "A maçã no escuro", porque a história era sobre um jovem que se descobria escritor, não peguei mais nada dela. Anos depois, fui obrigada a ler "Felicidade clandestina" para o vestibular. Gostei de alguns contos, como o conto-título, e da aula sobre o livro, mas a barreira não se quebrou. Somente no final do ano passado isso aconteceu, quando a minha psicóloga sugeriu que eu lesse "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", porque esse romance tinha tudo a ver com os questionamentos que estava fazendo e enfrentando naquele momento. E ela ainda me disse: "A Clarice escreve de uma forma seca, muito dura". Ao sair de lá, já peguei o livro na Biblioteca Pública. Demorei alguns dias para chegar nele, não tive pressa, ainda era um resto da prevenção agindo. Ao finalmente me decidir a ler, encontrei a seguinte mensagem da Clarice: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Pronto. Aí que eu realmente relaxei, porque passei a ler sem o compromisso de entender racionalmente, isto é, sem sentir a obrigação de formar uma opinião sobre ele, fui apenas lendo, liberta. Ela própria teve o gesto amigo de me tranqüilizar, eu não precisaria me sentir burra se terminasse de ler sem entender nada. Muitas vezes, esta é a melhor maneira de se desfrutar de uma obra de arte, o sentido vem com o tempo (se não vem, é porque a pessoa ainda não está suficientemente amadurecida, o que não a impedirá de reler em outro momento, em melhores condições). Um dos maiores inimigos de uma leitura, especialmente de uma autora como Clarice, pode ser a praga de entender tudo racionalmente e querer sair do livro com uma opinião formada sobre ele, como se fosse em seguida defender uma tese. Autores como ela nos ensinam a saborear, esquecendo pelo menos em parte o racionalismo.

As primeiras páginas foram as mais difíceis. E, ao longo do romance, não era raro que de repente tivesse que interromper a leitura e até desviar os olhos do livro, para entender, ou pelo menos sentir, o que tinha lido e poder seguir adiante. E não me atrevo a dizer o que entendi e o que não, pode ser até que não tenha entendido nada. Mas saí apaixonada. E não encontrei nem sombra de secura na escrita dela, pelo contrário, a Clarice me entendia naquele momento. Agora, com intervalos, estou planejando ler mais romances dela, entre eles "A maçã no escuro".

Qual é a sua história com a Clarice?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A favor do otimismo

Há algumas semanas, a minha amiga Rita Vaz publicou uma crônica sobre otimismo (da qual infelizmente não consegui achar o link, por razões técnicas), sendo até um pouco intransigente em sua defesa. Mas eu concordo com ela, porque infelizmente se tornou um hábito muito comum, inclusive em crianças e adolescentes, a reclamação pesada por qualquer motivo. Conheço pessoas que não conversam de outra forma senão essa. No meu caso, dependendo do tom, agüento mais ou menos tempo um papo assim - até que saio da presença dessa pessoa como se estivesse carregando uma tonelada de nuvens negras.



No "Decamerão", do italiano Giovanni Boccaccio - livro maravilhoso que, ao contrário do que diz a sua fama, não tem só contos eróticos - há um exemplo de pessoa assim. Na oitava novela da sexta jornada, também conhecida como a Jornada de Elisa, a protagonista, Ciesca, é uma chata que tem o hábito de desqualificar todo mundo sem mais nem menos. Um dia em que ela disse ao seu tio que lhe era aborrecido ver pessoas desagradáveis, ele respondeu que então ela não deveria se olhar nunca no espelho. Apesar de saber que provavelmente Boccaccio não tinha a intensão de fazer disso uma metáfora, a imagem não deixa de ser perfeita - se os outros eram desagradáveis para ela, imagine ela para os outros. Ela via, todos os dias, a pessoa mais intragável do mundo, porém não se dava conta. Mas também dá, contrariamente, para utilizar o mito de Narciso para explicar este comportamento: a pessoa que só se vê a si mesma, "achando feio o que não é espelho", ou seja, incapaz de olhar para o mundo com um espírito de, então, querer melhorar alguma coisa da realidade, de se esforçar para ter uma idéia nesse sentido. Afinal, quem percebe um problema deveria ser a primeira pessoa a arregaçar as mangas para trabalhar na solução dele.



O otimismo pode ajudar bastante nesta visão mais colaborativa. Ao contrário dos que se definem como "realistas" dizem, há maneiras e maneiras de se conduzir esse sentimento. O otimismo é importante, porque ele permite a visão de que o mundo pode ser melhor, ou seja, a pessoa enxerga além da realidade, enxerga "como poderia ser". E vai trabalhar para que a realidade se aproxime pelo menos um pouco dessa visão, fazer a sua parte. Esse idealista não se conforma com o "as coisas sempre foram assim", se pergunta o por que de o mundo funcionar desse jeito, e não de outro. É esse tipo de atitude que deveria proliferar e servir de modelo para todos nós, e não a acomodação reclamona. Onde será que estão os otimistas?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um outro 12 de junho

É impressão minha, ou as propagandas sobre o Dia dos Namorados ficaram mais numerosas e variadas, isto é, abordando esta relação de vários ângulos, este ano? Para falar a verdade, nunca soube nem o por que de existir essa comemoração, pois comemora-se, a princípio, um sentimento. Ou seja, quem não está apaixonado ou namorando está fora. É um clube para o qual se entra por circunstâncias várias e subjetivas, e ainda com outro detalhe: a mesma sociedade que festeja essa data também é a que acredita que a paixão ocorre de forma acidental. Além disso, falando do ponto de vista dos enamorados, não tem muito sentido criar para eles uma data para a manifestação do amor, pois qualquer dia é dia - nos dois primeiros anos de paixão, chega a ser por uma necessidade biológica. Sem contar que essa manifestação, como não poderia deixar de ser, passa fundamentalmente pelo consumo. Se você não compra um buquê de rosas para a sua amada, você não é romântico (e isso é um pecado gravíssimo, atestado por muitos filmes de Hollywood, ainda que não apenas desta forma). Sempre desconfiei desta noção de romantismo, porque ela me parece muito mais um adesivo externo que alguém cola em si num determinado momento. Para mim, o verdadeiro romantismo é o que vem de dentro, através muitas vezes de pequenos gestos de ajuda e compreensão. No dia-a-dia, ele pode ser muito voltado para a praticidade, pois pode ser (afinal, existem muitas formas de demonstrar romantismo ou ser romântico) o pensamento de um colaborador, alguém que se vê como ajudante do outro, e também quer ser ajudado por ele. Claro que fugidas ocasionais disso, loucuras de amor, são bem-vindas, mas creio que é mais gostoso quando o casal, ou um dos dois, decide a data, e ela seja totalmente inesperada, não para obedecer a um calendário comercial.

Mas me desviei totalmente do assunto. O que queria escrever hoje é que esta data tão especial também se refere a outra coisa: 12 de junho também é o Dia Mundial de Combate e Erradicação do Trabalho Infantil. Não sabia, não é? Quase ninguém sabe, não dá ibope. Imagine se, no meio de um filme romântico, passasse uma campanha abordando esse assunto? Pois é. Claro que trabalho infantil também se deve combater todo dia, mas neste caso a criação de uma data funciona (ou deveria fucionar) como um lembrete para a mídia e a sociedade sobre esse assunto, servir de pretexto para debates e pautas jornalísticas. Por exemplo, no dia 10 deste mês, em Curitiba, começou a campanha denominada "Trabalho infantil? Só pode ser brincadeira", uma iniciativa da FAS, que vai perdurar por todo este mês. E a diferença disto para o Dia dos Namorados é que qualquer um pode se engajar. Por exemplo, para denunciar trabalho infantil é só ligar para algum Conselho Tutelar (em Curitiba há vários, por isso que não dou o telefone só de um), Superintendência Regional do Trabalho (41-3901-7550) ou FAS (41-3250-7902), entre outros órgãos responsáveis pelos direitos humanos, ou mais especificamente da criança e do adolescente. Esta é a minha humilde e momentânea contribuição para um outro 12 de junho.