segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A descoberta do mundo

Não consigo me interessar por futebol, e fui contra quando soube que o Brasil sediaria a Copa de 2014, por ser do time daqueles que acham que o Brasil tem outras prioridades para atender antes de se dar ao luxo de torrar bilhões na construção de estádios portentosos e demais gastos que envolvem esse evento.

No entanto, uma única vez uma Copa do Mundo me prestou um serviço importante, ou melhor, a mim e ao meu irmão. O ano era 1998, quando eu tinha 8 anos e ele, 6. Ouvíamos direto anunciar pela televisão os países que iam jogar na Copa, e tanto ouvimos que começamos a ter curiosidade em saber onde ficavam aqueles países. Ao comentar desse interesse com o nosso pai, ele explicou, de forma muito pedagógica: "Vocês sabiam que existe um livro de mapas, chamado atlas, que dá pra gente consultar para saber onde ficam os países?" Desde então, passamos a cobrar dele para que comprasse o tal livro. Ao fim de algum tempo, ele chegou com o atlas debaixo do braço, que temos até hoje, por sinal. Dois dias depois, nos ensinou a localizar qualquer ponto no mapa usando aquelas indicações de letras e números que aparecem em cada página.

A partir daí, o atlas passou a ser mais um dos nossos brinquedos! Ficávamos horas debruçados sobre ele descobrindo o mundo, inventando histórias, etc. Antes de ter o atlas em casa, por exemplo, eu achava que a Holanda (ou "Holândia", como escrevi uma vez quando era criança) ficava onde na verdade está os Estados Unidos, e que a Jamaica era um país da África, não da América Central. Brincamos com o atlas durante tanto tempo, inclusive no jogo de stop, que acabamos decorando naturalmente muitas localizações de países e cidades, e mesmo antes de termos Geografia na escola já adorávamos essa matéria, e nunca tivemos grandes dificuldades nela.

Foi assim que o meu pai nos deu o mundo. Nada mais justo, para homenageá-lo no dia dele, que contar esta bonita história, da qual ele foi um dos protagonistas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Para Miguel Sanches Neto 2

No dia 31 de janeiro, escrevi aqui uma crônica apressada , manifestando a minha surpresa e descontentamento pelo fato de que Miguel Sanches Neto não mais publicaria crônicas na Gazeta do Povo, ou melhor, só mudaria o gênero de texto a que se dedicaria: as críticas literárias, inclusive tendo uma coluna para elas, como tinha para as crônicas, e que hoje aparece aos domingos.


Hoje vejo que me enganei em quase tudo o que disse naquele momento, pois inclusive coleciono as críticas dele, como antes colecionava as crônicas. Não é que achasse que ele não seria bom crítico, mas sim que ele passaria a escrever, sempre, sobre um mesmo objeto, ou seja, não teria tanta liberdade de forma, e também eu mesma não sabia se leria, pois, em geral, ler crítica bloqueia a minha criatividade - a razão que mais me pesava era essa.


Ainda bem que ele não tem esse efeito em mim, pois Miguel é um crítico positivo, ao contrário da ferocidade que domina esse meio. Desde pequena que leio principalmente a parte cultural da Veja, e logo me habituei a pensar que o objetivo dos críticos é achar defeitos nos produtos culturais que analisam. Mais recentemente, cheguei a escrever que desconfiava que um trabalho, para ser aceito, tinha que ter certos sinais que não sabia quais eram, mas que os críticos seriam os únicos capazes de detectar, e assim só eles teriam o poder quase metafísico de dizer se algo presta ou não, ou seja, se determinado autor/obra merece figurar nos panteões de clássicos obrigatórios e inesquecíveis, ou não, apesar do enorme esforço envolvido na produção. Quem não passasse nesse teste simplesmente fracassou, e não tem nem o direito de saber o por que, não passa de um miserável.


Hoje sei que não é bem assim. Os críticos descrevem os produtos e, segundo um professor meu, servem para desafiar o artista a fazer melhor, a não se satisfazer, o que é essencial para a arte. Eles julgam da forma que julgam dependendo de vários fatores, dos quais quero destacar dois: a teoria cultural a que se filiam e as condições em que realizam o seu trabalho (além de questões psicológicas, amizade, inimizade ou indiferença pelo analisado, etc.). No caso, a maioria dos críticos que parece não fazer outra coisa se não selecionar o que presta e o que não presta da produção atual, de forma a não conspurcar os cânones em que estão Shakespeare, Cervantes, Kafka, Machado de Assis, etc., estes seguem uma escola que quer que a arte continue tendo apenas uma função: conseguir preservar os valores humanos eternos e imutáveis contra a deturpação representada pela cultura de massas, que muitas vezes é sintetizada pelo que está sendo valorizado pelos meios de comunicação. Aliás, tocar incessantemente no rádio ou aparecer várias vezes seguidas na TV só pode mesmo significar que aquela produção cultural não presta. Ou então, estes críticos só enxergam os defeitos de tudo, e ainda, apontando-os de forma irônica, parecem não ter a capacidade de detectar uma única qualidade. O que pessoalmente me incomoda nesta atitude é a acidez - quero ter a sorte de ter críticos que até falem mal do meu trabalho (e não de mim, como fez a Isabela Boscov, na Veja, ao falar sobre o filme "Cilada.com", ao passar muito tempo no texto ironizando o humorista Bruno Mazzeo), mas querendo me ajudar, não me matando de vergonha. Se eu conseguir isso, vou me sentir estimulada a sentar com essa pessoa para juntas acharmos soluções para o que eu tivesse apresentado.


O outro ponto, as condições de trabalho, envolve principalmente a importância que o veículo de comunicação dá à seção de cultura e, por tabela, aos críticos que colaboram nela. Creio que muitos críticos são realmente amargurados, porque, em vez de falar do que gostariam, são obrigados a repercutir, de forma a gerar consumo (e não o debate, que, a princípio, seria o objetivo do trabalho do crítico cultural), produtos que não são mesmo bons, dos quais não gostaram ou de que mal-e-mal fruíram. Nessas condições, o que se faz são resenhas, não críticas.


Esse não parece ser o caso de Miguel. Posso estar errada, mas creio que é ele que escolhe os livros sobre os quais vai escrever, pois seus textos muitas vezes nem têm o gancho jornalístico de, por exemplo, um lançamento, relançamento ou realização de um filme, etc. Muitos, aliás, são completamente desconhecidos do grande público - o trabalho dele é justamente divulgar preciosidades que passam despercebidas, antigas e contemporâneas, à maneira do que faz Mariana Sanches na sua coluna Orelha do Livro, hoje publicada na revista Ler&Cia., mas que já foi programa de rádio. No caso de Miguel, o consumo só aparece no final dos textos, sob a rubrica de "serviço". Simples e elegante. Ele primeiro abre o nosso apetite com o livro e sua própria maneira de falar sobre ele, e depois indica as condições para obtê-lo.


É claro que esse trabalho de divulgação é muito importante. Mas isto, por si só, não resolve nem resolveria o problema da crítica cultural brasileira, que há muito tempo deixou de ser um espaço de debate da produção e consumo de cultura, e que eu apenas tentei esboçar aqui, segundo meus parcos conhecimentos.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A Amy Winehouse viveu intensamente?

O que me chamou a atenção na cobertura jornalística feita a respeito da morte da Amy Winehouse, e que me irritou profundamente, foi a repetição do desgastado clichê "ela teve uma vida curta e intensa". Creio que deveria ser esclarecido o que se entende por "vida intensa" nesta frase, porque a minha concepção, por exemplo, talvez não seja exatamente a visada neste contexto. O que Amy e outros tantos fizeram foi apressar o fim da própria existência - ou, de acordo com a crença de que a data da morte já foi fixada por Deus muito antes, não se deu uma boa morte. Conseguiu isso através das drogas, tanto lícitas como ilícitas, que debilitaram o organismo dela até aquele último suspiro. Ou seja, em pouco anos deve ter gastado o corpo como se o fizesse há décadas. Visto por este lado, mas somente por este lado, realmente levou uma vida intensa, pois espremeu décadas em poucos anos.


No entanto, as drogas também alienam da realidade, ou seja, a pessoa vive fantasias criadas por um cérebro cada vez mais alucinado. Passa a viver como que dentro de uma bolha. Quando o efeito da droga acaba, a volta para a realidade é dolorosa demais, por isso o dependente químico faz o possível e o impossível para conseguir mais em menos tempo. E essa vida se resume a isso, até a morte ou o tratamento. Se a Amy tentou mesmo se tratar, ela passou por períodos de abstinência - que são exatamente o oposto de "uma vida intensa", são tempos mortos, vazios e extremamente sofridos.


Mas a pior etapa do tratamento nem é essa. É quando a pessoa volta para os ambientes e pessoas que freqüentava antes de entrar na droga, porque vai ter que encontrar maneiras de lidar com os problemas que tinha antes (e/ou os que foram causados pelo vício) sem ceder à (forte) tentação de se drogar. É uma doença, uma condição com a qual a pessoa terá que lutar até o fim da vida, pois recaídas são absolutamente comuns (e não são, como muita gente pensa, problemas de caráter).


Também ninguém sabe ou esclarece como nem por que ela se iniciou no vício, se foi para fugir dos próprios problemas, se foi influenciada por alguém, etc. De qualquer modo, no entanto, suponho que, nos últimos tempos, estivesse gostando cada vez menos da vida. Se isso realmente aconteceu, ela teve a sorte de morrer cedo - não ficou como tantos dependentes químicos que se drogam por décadas, ou seja, enquanto a vida durar. No entanto, jamais saberemos se ela chegaria ao ponto de se recuperar (de novo), e se, desta vez, conseguiria evitar uma recaída.


Por tudo o que foi dito até aqui que eu imagino que "viver intensamente" é gostar da vida, ter disposição para enfrentá-la de cara limpa e com bom humor. Quem consegue isso é que deveria ser reverenciado como sábio, como herói, porque é mais fácil tentar fugir de tudo, e há tantas alternativas para isso! E não importa se a vida se passou sem grandes sobressaltos ou se foi recheada de acontecimentos incríveis. O importante é fazer com que ela valha a pena, e um dos ingredientes para isso é poder vivenciar profundamente cada acontecimento, sem estar anestesiado por algum vício, e sem ter que conviver com a eterna incerteza de conseguir ser forte para evitar uma recaída.


A letra abaixo, clássica, diz muito sobre a vida, e como ela pode ser intensa:




O QUE É O QUE É


(Gonzaguinha)


Eu fico com a pureza das respostas das crianças:


É a vida! É bonita e é bonita!


Viver e não ter a vergonha de ser feliz


Cantar, cantar e cantar


A beleza de ser um eterno aprendiz


Eu sei


Que a vida devia ser bem melhor e será


Mas isso não impede que eu repita


É bonita, é bonita e é bonita!


E a vida? E a vida o que é, diga lá, meu irmão?


Ela é a batida de um coração?


Ela é uma doce ilusão?


Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento?


Ela é alegria ou lamento?


O que é? Como é, meu irmão?


Há quem fale que a vida da gente é um nada no mundo,


É uma gota, é um tempo


Que nem dá um segundo,


Há quem fale que é um divino mistério profundo,


É o sopro do criador numa atitude repleta de amor.


Você diz que é luta e prazer,


Ela diz que melhor é morrer,


Pois amada não é, e o verbo é sofrer.


Eu só sei que confio na moça


E na moça ponho a força da fé,


Somos nós que fazemos a vida


Como der, ou puder, ou quiser,


Sempre desejada, por mais que esteja errada,


Ninguém quer a morte, só saúde e sorte,


E a pergunta roda, e a cabeça agita.


Fico com a pureza das respostas das crianças:


É a vida! É bonita e é bonita!


É a vida! É bonita e é bonita! (grifos meus)




Como se vê, é sempre perigoso repetir uma frase feita sem primeiro procurar questionar o que ela significa. A mídia deveria refletir que usar este adjetivo glamouroso, "intensa", pode ser um fator a mais para incentivar o estilo de vida que Amy Winehouse levava. Mesmo que não seja essa a intenção de ninguém.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Buscando textos

Não é verdade que se acha "tudo" na Internet, como muitos gostam de apregoar por aí. Nunca se disse que numa única biblioteca estaria acumulado todo o conhecimento produzido pela humanidade, então por que com a rede seria diferente? (Bom, tudo bem, dizem que o criador da teoria geocêntrica, o grego Ptolomeu, escreveu um livro contendo todo o conhecimento de Astronomia da época, tendo acesso a nada menos que a Biblioteca de Alexandria... Mas ele viveu, se não me engano, antes de Cristo. Ou, se foi depois, foi no primeiro século d.C.)


A impressão que eu tenho é que na Internet a gente precisa saber um "Abre-te, sésamo" para cada coisa que for procurar, do contrário aparece tudo menos o que se quer. É claro que é mais fácil quando o artigo tem um nome mais específico. Por exemplo, um dia destes indiquei para um amigo ler o conto "Mágoa que rala", texto pouco conhecido do Lima Barreto, que até agora nunca vi em outra antologia que não a organizada pela Lília Moritz Schwarcz - se bem que, para o livro dela, "Contos completos de Lima Barreto", o nome antologia não é verdadeiro, porque ela incluiu manuscritos do autor até então só encontráveis na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Esse meu amigo quis procurar na Internet, eu duvidei que ele fosse achar, mas foi só ele digitar o nome que apareceu! Como eu disse, é porque o texto tem um nome incomum. Está certo, isto é discurso de mau perdedor, devo muito à Internet. Encontrei muitas outras crônicas digitando o nome do autor, ou título e autor. Ou navegando pelo site da Gazeta do Povo, dentro das edições anteriores - calcular a data de semana em semana, viajando-se principalmente para trás, me faz pensar que estou andando por um labirinto. O mal é que o número de viagens é limitado - agora está em 2005. Ou seja, de volta aos jornais de papel da Biblioteca Pública, se é que eles permitem essa promiscuidade.


No entanto, tenho os meus dramas e as minhas broncas. Desde o ano passado busco informações sobre o autor polaco-brasileiro L. Romanowski, autor do maravilhoso romance "Ciúme da Morte", mas nunca encontrei mais que o nome dele em artigos sobre a imigração polonesa no Paraná. O máximo a que cheguei foi achar o nome dele numa lista da Academia Paranaense de Autores. Não me conformo, porque esse livro, de que até existem quantidades razoáveis na Biblioteca Pública, pelo menos nos exemplares que vi (edições da década de 40 e uma da década de 70) não tem um mínimo de informações sobre Romanowski, e eu gostaria de saber se ele teve pelo menos alguma relação com a loucura, um dos temas do seu livro. Alguém aí sabe algo dele?


Também não acho, nem por decreto, duas crônicas não muito conhecidas, uma do Rubem Braga e outra do Luís Fernando Veríssimo. Para início de conversa, a fama e quantidade de textos destes dois inviabiliza muitas palavras de busca, pois geralmente vêm crônicas deles sobre o assunto de que me lembro e que escrevo no Google (algumas vezes são até palavras-chave dentro do texto), mas não vem "a" crônica. Por azar, não sei o nome de nenhuma delas, e nem alguma frase que possa colocar para localizar. A do Rubem Braga eu li um trecho, que caiu num exercício do cursinho. Só sei que está no livro "O homem rouco", no qual vou procurá-la agora. Esta apresentava uma comparação que o autor fazia entre a vida e uma melodia, que tem gente que vai atrapalhando a execução, poluindo de coisas ou tornando cada vez mais vazia. A do Veríssimo era um recorte de jornal que não sei como desapareceu. Só sei que falava sobre os poderes da infância que vamos perdendo com o tempo, como subir em árvores, acertar mais bolinhas de gude, mirar o xixi mais longe, etc.


Alguém por acaso sabe, pelas parcas descrições aqui fornecidas, onde estas crônicas se esconderam? Quando as descobrir, prometo que as publico aqui neste blog.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Caminhando ao Sol

Sexta-feira fiz uma coisa que não fazia há muito tempo: caminhei ao Sol. E sábado fui ler um livro na área comum do meu prédio, um espaço cheio de verde, na frente do parquinho, campinho de futebol e da academia ao ar livre. O Sol e um ventinho que batia estavam bem convidativos.
Há quanto tempo que não me permitia esses presentes! Em parte, por uma rotina agitada, mas também porque o tempo não ajuda. Estamos (ou estávamos, pois ontem já começou a chover e hoje já está mais frio e nublado) atravessando um veranico, que são os dias de calor no inverno. É gostoso um Sol suave, talvez mais próximo do tempo ameno e constante que imagino ser o eterno clima do lendário Jardim do Éden. No verão, infelizmente, o Sol está cada vez mais ardido. Com certeza que não sentiria o calor no meu rosto como uma carícia num Sol tão forte. Outra coisa de que gosto quando brilha o Sol é de observar, da minha janela, uma copa de árvore bem frondosa e verde-escura que fica na frente do meu apartamento sendo iluminada por ele: não sei por que, me lembra um dourado-prateado usado por Klimt, talvez o meu pintor favorito, no quadro "As três idades da mulher". Uma cor empregada justamente para fazer as areias que caem de uma ampulheta invisível, dos lados das três mulheres representadas.
No meu caso, enquanto estou passando por problemas (entenda-se pressões da faculdade), ajo comigo como se não tivesse direito a descanso ou benevolência, a me tratar bem, e o Sol destes dias me lembrou de que tenho esse direito, sim. E o melhor ainda é que algumas coisas podemos nos proporcionar de graça. Em outras palavras, ao me permitir pensar no Sol desta maneira, estou me lembrando de que ele existe e fazendo outros usos dele, além dos involuntários designados em Biologia.


É nessas horas que fico pensando em por que não se pode mais levar uma vida simples e descompromissada, apenas curtindo o Sol, como parece fazer o Caetano Veloso na letra da música "Alegria, alegria", reproduzida abaixo. Quando me permito sair ao Sol, acabo tendo essas idéias, de uma forma ou de outra malucas, mas necessárias para equilibrar a cabeça. Acho que isso é fazer um uso poético do Sol, é dar importância a ele de outras maneiras, o que também pode ser um exercício interessante para quem sente a mente vazia. É como dar um outro nome para uma coisa que já existe. E também descubro outras facetas de mim mesma, ou seja, de outra forma também me dou um outro nome, ao menos pelo tempo em que dura toda essa sensação.


Alerta: o Sol mencionado tantas vezes nesta canção não se refere sempre, necessariamente, ao astro-rei, mas a um jornal com este nome que existia aqui no Brasil na década de 60, uma espécie de ancestral do Pasquim:

Alegria, Alegria (Caetano Veloso)
Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou...

O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou...

Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot...

O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
Eu vou
Por que não, por que não...

Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou...

Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou...

Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil...

Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou...

Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
Eu vou...

Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...
Por que não, por que não...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Bom mocismo?

Estes tempos, estava lendo uma revista cujo nome não vou dizer aqui. Só digo que terminei de lê-la sentindo extrema angústia e desgosto, algo que a jornalista Monica Waldwogel definiu muito bem numa entrevista, inclusive para esta mesma revista, há alguns meses: "Quando eu termino de ler uma dessas revistas, fico angustiada. A quantidade de coisas que elas aconselham a fazer, a comprar, a aprender é uma enormidade". Ela estava se referindo especificamente às revistas femininas, mas isso acontece com os mais variados tipos de revista, hoje. Cada vez mais se entulha o mercado de dicas sobre isso e sobre aquilo, inclusive de combate ao stress, mesmo que ele seja em grande parte alimentado justamente pelo excesso de informações. A sensação é que agora qualquer um tem tudo o que precisa para ser feliz - se alguém continua tendo problemas e aflições, a culpa é dessa pessoa pela teimosia (ou impossibilidade) de aderir às soluções certas e rápidas.
Sem contar que estamos cada vez mais cercados de bons sentimentos - pobres dos produtos culturais, um dos maiores prejudicados por esse aspecto. Agora cada livro, filme ou peça de teatro, principalmente os dirigidos às crianças, têm que ter uma lição de moral no bojo, evidenciada nas simpáticas sinopses emitidas pelos meios de comunicação. Têm que ser funcionais, têm que ter alguma utilidade direta na vida do público visado - e, no caso das crianças, têm que ensinar boas maneiras de uma maneira lúdica, sendo muitas vezes reduzidos a isso. O mais incrível é que, muitas vezes, um texto lindo sobre a aceitação das diferenças, uma dessas sinopses, pode estar ao lado de um anúncio de produto para emagrecer, ou para ter os cabelos brilhantes! Qual a lógica?
Mas por que estou reclamando dos meios de comunicação? Eles refletem - claro que não de maneira exata e imparcial - o mundo em que vivemos, e muitas vezes têm que se submeter para se manter. Embora fosse muito bom que esses meios pudessem ser financiados de outras maneiras.
Mudando de assunto, porém, o que estão querendo esconder com tanta mensagem positiva, a todo momento? A complexidade da vida. Freqüentemente temos que enfrentá-la mesmo estando completamente despreparados, ela pode não fazer o menor sentido, pode mudar com uma velocidade incrível, nem sempre valoriza méritos e a única certeza que temos a respeito dela é que um dia vamos morrer. A maior parte das pessoas simplesmente não consegue viver com tudo isso na cabeça, então precisa de algum anestésico - mensagens edificantes, consumismo, álcool, drogas, fanatismo religioso... Algo que deixe o mundo mais simples, dê sempre a certeza do que fazer, em qualquer situação, e relaxe. Mas o principal problema de hoje é que, por trás desses anestésicos, há algumas megacorporações lucrando exponencialmente. Parece teoria conspiratória? Infelizmente, não é.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

De uma declaração...

Esta semana que passou foi agitada: morte e não-morte de Amin Khader, morte de verdade de Itamar Franco, decisão da maioria dos médicos em não atender mais por planos de saúde... Quanto a isto, só tenho uma observação a fazer: com a falta de médicos, daqui a pouco poderemos ver nas clínicas particulares as mesmas cenas degradantes que já vemos nos hospitais públicos, de filas intermináveis e pacientes sub-atendidos. Seria bom, portanto, que a questão do pagamento dos médicos se resolvesse de uma vez por todas, para que realmente não haja prejuízo para os clientes, como se alardeia tanto por aí que não haverá.


Mas quero abordar um outro assunto, polêmico também, mas que provavelmente foi esmagado por essa avalanche de acontecimentos: a declaração da deputada Myrian Rios, no início da semana passada, reivindicando o direito dela, como mãe, de despedir empregados que sejam homossexuais por não querer que os filhos sejam molestados sexualmente ou influenciados a gostar de pessoas do mesmo sexo. O que me choca nessa fala é o antigo preconceito de que gays, todos, são necessariamente pervertidos sexualmente, portanto seria comum, e até lógico, que eles também fossem pedófilos e desregrados a ponto de influenciar negativamente outros. Claro, todos sabemos que da homossexualidade à pedofilia é um passo, não é?


Queria saber por que essa desconfiança acirrada contra os gays, que inclusive é um dos argumentos de quem se opõe à adoção por essa fatia da população. Creio que não há razão para não serem vistos como vemos os héteros, e entre os héteros sabemos haver os pedófilos, os abusados, os doentes por sexo, mas também os que se guardam para um relacionamento sério, que só querem achar alguém legal e ser felizes com essa pessoa, os que não ficam se acariciando em público ou na frente das crianças, os que sabem se controlar mesmo estando atraídos por determinada pessoa, etc. Entre os homossexuais também é assim. (Aliás, por que não nos importamos com o fato de um homem hétero ser galinha, portanto podendo ser extremamente desrespeitoso com uma mulher bonita, justificando isso até com a idéia de que os homens não conseguem viver sem sexo? Não é muita hipocrisia?) Já conheci alguns gays, todos extremamente respeitosos, e todos de uma forma ou de outra também envolvidos com crianças. Se o preconceito fosse verdadeiro, pelo menos duas dessas pessoas que conheço não poderiam estar numa sala de aula como professores, mesmo sendo excelentes profissionais. O segredo dessas pessoas é lidar com sua sexualidade de uma maneira muito segura - não escondem que são gays, afinal isso faz parte do que eles são, mas também não se reduzem somente a esta característica, jogando-a na cara dos outros a todo momento. Não têm necessidade disso. Mas quem quiser manter qualquer relacionamento com eles terá que aceitar a homossexualidade deles também, e isto está fora de discussão, o que fica claro com as atitudes que adotam.


É claro que é importante prestar atenção em quem se contrata e durante o tempo de serviço, pois o pedófilo ou tarado não vem marcado na testa. Mas não é a orientação sexual que vai determinar se alguém é isso ou não. É o nível de sanidade mental, em alguns, e o caráter, em outros. A orientação sexual deveria significar apenas por qual tipo de pessoa alguém se sente atraído, nada mais do que isso.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Minha história com Clarice

Estou começando a achar que este é o ano Clarice Lispector, pelo menos na minha casa. No começo do ano, li "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", e me apaixonei por esse romance. Há algum tempo atrás, a professora de Português do meu irmão ia pedir a leitura de "Felicidade clandestina", um dos livros indicados para o vestibular da Federal, mas, como não ia dar tempo de trabalhar com o livro todo, os alunos só tiveram que ler "Uma história de tanto amor", na minha opinião um dos mais belos contos dela. Foi uma oportunidade para o meu irmão conhecer um pouco a Clarice, pois ele já estava, muito tempo antes, contaminado pelo medo de quem ouve falar que um autor é difícil. Porém eu desconfio que havia nele medo e fascinação simultâneos, porque não tentou ler nada dela, mas inesperadamente falava nela. Aprendendo sobre ela na escola este ano, teve a curiosidade mais aguçada, o que culminou com a obrigação de ler o conto. E gostou. Ficamos, depois, conversando bastante sobre ela e sobre este texto.

Foi nessa conversa que tive a oportunidade de repassar a minha história com a Clarice, e é esta história que gostaria de dividir agora com vocês, pois de repente me surgiu a idéia, cuja execução vou lançar para daqui a alguns anos, de coletar histórias de escritores e simples leitores com Clarice, e lançá-las em livro, justamente para se perceber o lado do leitor diante dela, as alegrias e dificuldades de ser sugado por Clarice. Com certeza, você não volta a mesma pessoa de antes dessa experiência. E também para desmistificar um pouco o hermetismo dela - se você procura entendê-la racionalmente de primeira, pode entrar pelos canos. Se entrar desarmado, vai ter mais chances de encará-la e, mais importante, de gostar dela.

Aos fatos. Acho que foi com uns 12 anos que peguei um livro dela - o detalhe é que até hoje não sei onde foi que ouvi ou li o nome dela pela primeira vez, só sei que um dia acordei querendo ler algo dela. Finalmente, peguei na biblioteca da minha escola "O primeiro beijo e outros contos", uma dessas coletâneas que não são pensadas originalmente pelo autor, mas sim organizadas a partir de vários livros dele, postumamente. Só lembro do conto do título e de um que era o aniversário da avó da família, a D. Anita, que larguei no meio. Devo ter lido uns três ou quatro, no máximo. Não agüentei, não estava entendendo nada e achando chato, pesado. A partir daí, fiquei com prevenção. Apesar de ter sentido curiosidade de ler "A maçã no escuro", porque a história era sobre um jovem que se descobria escritor, não peguei mais nada dela. Anos depois, fui obrigada a ler "Felicidade clandestina" para o vestibular. Gostei de alguns contos, como o conto-título, e da aula sobre o livro, mas a barreira não se quebrou. Somente no final do ano passado isso aconteceu, quando a minha psicóloga sugeriu que eu lesse "Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres", porque esse romance tinha tudo a ver com os questionamentos que estava fazendo e enfrentando naquele momento. E ela ainda me disse: "A Clarice escreve de uma forma seca, muito dura". Ao sair de lá, já peguei o livro na Biblioteca Pública. Demorei alguns dias para chegar nele, não tive pressa, ainda era um resto da prevenção agindo. Ao finalmente me decidir a ler, encontrei a seguinte mensagem da Clarice: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece, como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento". Pronto. Aí que eu realmente relaxei, porque passei a ler sem o compromisso de entender racionalmente, isto é, sem sentir a obrigação de formar uma opinião sobre ele, fui apenas lendo, liberta. Ela própria teve o gesto amigo de me tranqüilizar, eu não precisaria me sentir burra se terminasse de ler sem entender nada. Muitas vezes, esta é a melhor maneira de se desfrutar de uma obra de arte, o sentido vem com o tempo (se não vem, é porque a pessoa ainda não está suficientemente amadurecida, o que não a impedirá de reler em outro momento, em melhores condições). Um dos maiores inimigos de uma leitura, especialmente de uma autora como Clarice, pode ser a praga de entender tudo racionalmente e querer sair do livro com uma opinião formada sobre ele, como se fosse em seguida defender uma tese. Autores como ela nos ensinam a saborear, esquecendo pelo menos em parte o racionalismo.

As primeiras páginas foram as mais difíceis. E, ao longo do romance, não era raro que de repente tivesse que interromper a leitura e até desviar os olhos do livro, para entender, ou pelo menos sentir, o que tinha lido e poder seguir adiante. E não me atrevo a dizer o que entendi e o que não, pode ser até que não tenha entendido nada. Mas saí apaixonada. E não encontrei nem sombra de secura na escrita dela, pelo contrário, a Clarice me entendia naquele momento. Agora, com intervalos, estou planejando ler mais romances dela, entre eles "A maçã no escuro".

Qual é a sua história com a Clarice?

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A favor do otimismo

Há algumas semanas, a minha amiga Rita Vaz publicou uma crônica sobre otimismo (da qual infelizmente não consegui achar o link, por razões técnicas), sendo até um pouco intransigente em sua defesa. Mas eu concordo com ela, porque infelizmente se tornou um hábito muito comum, inclusive em crianças e adolescentes, a reclamação pesada por qualquer motivo. Conheço pessoas que não conversam de outra forma senão essa. No meu caso, dependendo do tom, agüento mais ou menos tempo um papo assim - até que saio da presença dessa pessoa como se estivesse carregando uma tonelada de nuvens negras.



No "Decamerão", do italiano Giovanni Boccaccio - livro maravilhoso que, ao contrário do que diz a sua fama, não tem só contos eróticos - há um exemplo de pessoa assim. Na oitava novela da sexta jornada, também conhecida como a Jornada de Elisa, a protagonista, Ciesca, é uma chata que tem o hábito de desqualificar todo mundo sem mais nem menos. Um dia em que ela disse ao seu tio que lhe era aborrecido ver pessoas desagradáveis, ele respondeu que então ela não deveria se olhar nunca no espelho. Apesar de saber que provavelmente Boccaccio não tinha a intensão de fazer disso uma metáfora, a imagem não deixa de ser perfeita - se os outros eram desagradáveis para ela, imagine ela para os outros. Ela via, todos os dias, a pessoa mais intragável do mundo, porém não se dava conta. Mas também dá, contrariamente, para utilizar o mito de Narciso para explicar este comportamento: a pessoa que só se vê a si mesma, "achando feio o que não é espelho", ou seja, incapaz de olhar para o mundo com um espírito de, então, querer melhorar alguma coisa da realidade, de se esforçar para ter uma idéia nesse sentido. Afinal, quem percebe um problema deveria ser a primeira pessoa a arregaçar as mangas para trabalhar na solução dele.



O otimismo pode ajudar bastante nesta visão mais colaborativa. Ao contrário dos que se definem como "realistas" dizem, há maneiras e maneiras de se conduzir esse sentimento. O otimismo é importante, porque ele permite a visão de que o mundo pode ser melhor, ou seja, a pessoa enxerga além da realidade, enxerga "como poderia ser". E vai trabalhar para que a realidade se aproxime pelo menos um pouco dessa visão, fazer a sua parte. Esse idealista não se conforma com o "as coisas sempre foram assim", se pergunta o por que de o mundo funcionar desse jeito, e não de outro. É esse tipo de atitude que deveria proliferar e servir de modelo para todos nós, e não a acomodação reclamona. Onde será que estão os otimistas?

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Um outro 12 de junho

É impressão minha, ou as propagandas sobre o Dia dos Namorados ficaram mais numerosas e variadas, isto é, abordando esta relação de vários ângulos, este ano? Para falar a verdade, nunca soube nem o por que de existir essa comemoração, pois comemora-se, a princípio, um sentimento. Ou seja, quem não está apaixonado ou namorando está fora. É um clube para o qual se entra por circunstâncias várias e subjetivas, e ainda com outro detalhe: a mesma sociedade que festeja essa data também é a que acredita que a paixão ocorre de forma acidental. Além disso, falando do ponto de vista dos enamorados, não tem muito sentido criar para eles uma data para a manifestação do amor, pois qualquer dia é dia - nos dois primeiros anos de paixão, chega a ser por uma necessidade biológica. Sem contar que essa manifestação, como não poderia deixar de ser, passa fundamentalmente pelo consumo. Se você não compra um buquê de rosas para a sua amada, você não é romântico (e isso é um pecado gravíssimo, atestado por muitos filmes de Hollywood, ainda que não apenas desta forma). Sempre desconfiei desta noção de romantismo, porque ela me parece muito mais um adesivo externo que alguém cola em si num determinado momento. Para mim, o verdadeiro romantismo é o que vem de dentro, através muitas vezes de pequenos gestos de ajuda e compreensão. No dia-a-dia, ele pode ser muito voltado para a praticidade, pois pode ser (afinal, existem muitas formas de demonstrar romantismo ou ser romântico) o pensamento de um colaborador, alguém que se vê como ajudante do outro, e também quer ser ajudado por ele. Claro que fugidas ocasionais disso, loucuras de amor, são bem-vindas, mas creio que é mais gostoso quando o casal, ou um dos dois, decide a data, e ela seja totalmente inesperada, não para obedecer a um calendário comercial.

Mas me desviei totalmente do assunto. O que queria escrever hoje é que esta data tão especial também se refere a outra coisa: 12 de junho também é o Dia Mundial de Combate e Erradicação do Trabalho Infantil. Não sabia, não é? Quase ninguém sabe, não dá ibope. Imagine se, no meio de um filme romântico, passasse uma campanha abordando esse assunto? Pois é. Claro que trabalho infantil também se deve combater todo dia, mas neste caso a criação de uma data funciona (ou deveria fucionar) como um lembrete para a mídia e a sociedade sobre esse assunto, servir de pretexto para debates e pautas jornalísticas. Por exemplo, no dia 10 deste mês, em Curitiba, começou a campanha denominada "Trabalho infantil? Só pode ser brincadeira", uma iniciativa da FAS, que vai perdurar por todo este mês. E a diferença disto para o Dia dos Namorados é que qualquer um pode se engajar. Por exemplo, para denunciar trabalho infantil é só ligar para algum Conselho Tutelar (em Curitiba há vários, por isso que não dou o telefone só de um), Superintendência Regional do Trabalho (41-3901-7550) ou FAS (41-3250-7902), entre outros órgãos responsáveis pelos direitos humanos, ou mais especificamente da criança e do adolescente. Esta é a minha humilde e momentânea contribuição para um outro 12 de junho.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Por mais opções no teatro!

Neste sábado, vi uma entrevista da atriz Beatriz Segall num canal de TV fechado. Uma, dentre as várias coisas intrigantes que ela disse, que me fez pensar, foi que existe falta de bons textos teatrais atualmente (como extensão do assunto de que, devido à queda na qualidade da educação, hoje temos bons escritores, mas não excelentes). Nas palavras dela, eles, os atores, "rebolam" para conseguir um bom texto. Se eu fosse a entrevistadora, com certeza teria perguntado à atriz o que é uma boa peça na opinião dela (a única coisa que ela disse a esse respeito é que "brasileiro só vai hoje ao teatro para saber se pode rir"). No entanto, essa reclamação não é nova para mim.



Eu mesma já a tinha formulado há algum tempo. Basta pegar o programa do Festival de Curitiba: a maior parte das opções oferecidas são releituras de clássicos (como é de se adivinhar, Shakespeare é arroz de festa nesse quesito), muitas vezes adaptações de obras literárias que não foram escritas para o teatro, ou junções de vários textos de um mesmo autor. Há poucas peças originais, e a meu ver este é o grande problema. Estas maneiras de fazer teatro apontadas acima poderiam estar num melhor equilíbrio com bons textos originais - hoje, em sua maioria, os originais são besteiróis, algo que até pode ser engraçado, mas de que já enjoei, por me lembrarem muito os programas humorísticos de TV (só existe uma forma de fazer humor?). No mínimo, quando saio de casa quero ver um espetáculo diferente, marcante. Sem contar a percepção de outra atriz, esta curitibana, Rita Juarez, com quem tive a oportunidade de conversar: há uma idéia vigente de abolição do texto e improviso total com a platéia. Ela é contra essa prática. Eu já tenho a impressão de que, pelo diretor adequado, pode até valer a pena, mas também essa idéia não pode reinar absoluta, assim como hoje não deveria reinar absoluta a mania de readaptações, de obras teatrais ou não. Creio que todas essas formas, mais bons textos originais, poderiam conviver harmonicamente no teatro de hoje, dando à platéia mais alternativas de escolha, elemento essencial para fruições artísticas.



E o que seria um bom texto de teatro? Pelo pouco que sei, tem que ter diálogos fortes, afinal esta é a unidade formadora básica da peça, corresponde ao que a imagem é para o cinema, por exemplo. Algo que está muito presente em clássicos hollywoodianos como "A malvada", "Gata em teto de zinco quente", "Adivinhe quem vem para jantar", "Festim diabólico", entre outros. Considero estes filmes maravilhosos, porque já prendem pelos diálogos, que são densos e reflexivos sem serem chatos ou pesados, além de terem o privilégio de ser interpretados por grandes atores... Sei não, mas acho que esse tipo de diálogo anda fazendo falta também no atual cinema hollywoodiano.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Presença de Osama bin Laden

Lembro que, quando aconteceram os atentados de 11 de setembro, eu tinha 11 anos, estava na 5ª série e só fiquei sabendo um dia depois, quando a minha escola passou num telão, antes de irmos para a sala de aula, as imagens que a partir de então seriam exaustivamente repetidas no e para o mundo do que seria "o maior atentado terrorista da História" (o que não é verdade, pois, sem negar a gravidade dos ataques de 2001, foram também os estadunidenses que, décadas atrás, jogaram as bombas em Hiroshima e Nagasaki, e napalm no Vietnã, para citar só alguns atos terroristas - pois o objetivo era atemorizar os inimigos do "xerife do mundo" - , obtendo mais vítimas e conseqüências mais trágicas). Jamais me saiu da memória o fato de que os meus colegas sabiam o minuto exato em que tinha acontecido cada pequeno episódio que resultou no ataque total. Lembro que fiquei com medo de que no Brasil acontecesse algo semelhante, pois já sabia que éramos aliados dos Estados Unidos - e se entrássemos na "guerra ao terror" por ordem deles? Como a coordenadora geral da minha escola pôde afirmar com tanta segurança, até fazendo disso uma brincadeira, cerca de uma semana depois, que nenhuma bomba cairia em solo brasileiro?



Também se seguiu, a partir disso, um interesse zombeteiro dos meus colegas pelo mundo árabe - sim, o fato de a novela "O Clone" estar sendo exibida nessa mesma época ajudou, mas me refiro à associação automática dos muçulmanos com terrorismo, na pessoa principalmente do bin Laden, que foi bastante satirizado e referenciado por nós durante mais ou menos um ano. Mas devo dizer que isso de certa forma sobrevive, pois na minha turma de faculdade tem um rapaz muçulmano que com freqüência é associado, de brincadeira novamente, ao terrorismo. Ou seja, eis o excelente favor que Osama bin Laden prestou ao Islã, e que forma boa de se tornar eterno.



Agora ele está morto, mas, recorrendo a um monstro da mitologia grega, ele era apenas uma das cabeças da Hidra de Lerna de uma facção terrorista do Islã (vale lembrar, sempre, que a religião em si prega o amor a Deus e ao próximo, e não a guerra religiosa, como, aliás, o fazem todas as religiões sérias). A Hidra tinha nove cabeças, e ainda uma delas era imortal. De qualquer forma, não duvido que agora, diante de cada novo ataque dessa facção do mundo, a vida e morte de Osama bin Laden estarão no bojo. Ou seja, ele conseguiu tornar sua presença no mundo, mesmo morto, eterna, imortal. Foi assim que ele passou para a História. Por que pessoas que fazem o bem não têm essa influência no mundo e na História?

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Eu sou tudo isso

Lembrando do ano passado, quando o rapaz do censo esteve na minha casa e perguntou a nossa cor (estávamos eu, minha mãe e meu irmão), eu comecei a dizer que essa era uma questão complicada para a gente, porque não temos uma cor só, mas a minha mãe atalhou que éramos brancos, e ponto final. Não, ela não é racista, apenas quis facilitar as coisas.

Nunca me entrou na cabeça por que no censo do brasileiro só se marca uma entre as cinco opções: branco, negro, pardo, amarelo ou indígena (vermelho), sendo que a maior parte da nossa população é misturada. Eu mesma sou branca (polonês, italiano - herança do meu pai - ucraniano, português, e ainda pode haver mais), negra (ainda quero descobrir de que país e povo), índia (ainda quero descobrir de que povo - o estado mais provável é a Paraíba, mas existe uma possibilidade também de ser o Ceará) - tudo isso de herança da minha mãe. Conseqüentemente, também sou parda ou mulata (mistura de branco com negro), cafuza (negro com índio) e cabocla (branco com índio). Aí está a salada. Costumo brincar que só falta agora eu descobrir alguma ligação com o Oriente - a propósito, já houve gente que perguntou para o meu irmão se ele é chinês. Será?

A questão é que essa forma de responder não faz muito sentido no Brasil. Como é que querem que reconheçamos a miscigenação étnica se a única opção mais próxima disso é reconhecer-se pardo? A questão é que não estamos dizendo toda a verdade sobre nós, e cada vez mais gente se sente confusa ao responder. Meu pai acha que devemos afirmar qual é a cor predominante em nós, mas também não concordo. Hoje eu tenho aparência de branca, apesar de ter herdado os traços da minha mãe. Mas aos 11 anos com certeza seria tomada por uma índia. E então?

Acho que deveria haver uma sexta opção entre essas alternativas, com um espacinho do lado para enumerar quais são as etnias que se combinam naquela família ou naquela pessoa. Sim, vai dar mais trabalho para o pessoal do IBGE cadastrar esses dados - mas eles já não estão acostumados, com a complexidade que é o Brasil?

Até um tempo atrás eu chamava essa sexta categoria de "misturados" (essa expressão aparece no livro "Contos gauchescos e lendas do Sul", de Simões Lopes Neto, de entre o final do século XIX e o início do XX, agora não lembro bem). Mas acho que foi o meu irmão que deu o nome mais adequado: "multiétnicos". É exatamente o que nós dois, e muitos outros brasileiros, somos, multiétnicos.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Há catorze anos

No dia 19 de abril de 1997, Dia do Índio, sete membros da tribo Pataxó Ha-Ha-Hae estavam em Brasília para reivindicar o direito à posse de suas próprias terras, direito prometido pela Constituição de 1988. Na noite desse dia, a tragédia: o líder, Galdino de Jesus, dormindo num ponto de ônibus, foi incendiado por cinco garotos de classe média alta que, para se defender depois, disseram que "era só uma brincadeira" "com um mendigo". Dois dias depois, a vítima não resistiu às graves queimaduras e morreu no hospital. Eu tinha sete anos nessa época, mas não me lembro de nada disso. Curiosamente, só fui tomar conhecimento desse fato quatro anos depois, na 5ª série, porque uma notícia sobre caiu numa prova de História. Só então pude me horrorizar. Também tive a oportunidade de ter acesso, mais tarde, a dois livros dirigidos ao público infanto-juvenil que fazem referência a esse acontecimento, provavelmente escritos na época: "Sangue de índio", de Rogério Andrade Barbosa, e "Brasil 500 anos", de Regina Rennó. Também agora tive acesso a um poema de 2009, "Índio Galdino de Jesus", de Azuir Filho e outros. Ponto para esses autores, especialmente o mais recente, embora o poema não seja dos melhores. Contudo, posso estar enganada, mas, de lá para cá, as únicas notícias que vejo sobre este caso são notas bastante espaçadas sobre os autores do crime, que estão presos em regime semi-aberto, ou seja, saem da cadeia para trabalhar durante o dia, mas têm que voltar à noite (e essas notas só aparecem quando eles aprontam alguma). Nenhuma palavra mais sobre a tribo, que passou a viver sem Galdino - será que eles acham que a punição que os assassinos receberam foi justa? Eles não passaram a ter medo de ir até Brasília? Como está a situação de suas terras, pois foi para isso que eles foram até lá, para que os invasores fossem forçados a se retirar? Este caso não deveria cair no esquecimento jamais, as escolas deveriam relembrá-lo para as crianças quando ensinam sobre os índios, para mostrar que o povo brasileiro ainda tem muito que evoluir no seu acerto de contas com o passado (e apesar de sermos uma das Constituições mais aprovadas do mundo, apelidada de Cidadã, inclusive). Seria interessante que a imprensa rememorasse essa tragédia, conversando com os Pataxós, mas também com os garotos de Brasília e suas famílias, tomando cuidado, claro, para não cair na vitimização dos índios e nem no tom acusatório com relação aos brasilienses. O objetivo precisa ser reabrir o debate: de que maneira tratamos as pessoas que vivem diferente da massa urbanizada, e que portanto têm outras necessidades, garantidas pela lei, e com o detalhe de que foram os primeiros donos desta terra chamada Brasil? E este debate também deveria acontecer nas escolas, mediante livros e notícias. Só para concluir, lembro que um professor meu, de História, disse algo interessante sobre esse caso: se ele fosse o juiz, não prenderia os rapazes, e sim os condenaria a uma pena alternativa na ala de queimados de algum hospital infantil. Não sei se concordo com isso, pois acho que eles deveriam ficar presos eternamente, mas também não consigo deixar de pensar que talvez isso surtisse mais efeito na regeneração deles. Ah, e feliz dia do "descobrimento do Brasil". Aí vai o poema de Edson Ponick, catequista e escritor, entre outras atividades, que ajudou a planejar uma cartilha sobre os povos indígenas no ano 2000. Apesar de esse poema ser referente aos "500 anos", não perdeu a atualidade: Há pouco tempo Era coberta a terra, há muito tempo, de matas, rios e animais selvagens. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Cortaram verdes e plantaram cinzas. E a terra, então coberta de belezas, Hoje resseca com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo, De ouro, prata e minerais valiosos. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Levaram brilhos e deixaram sombras. E a terra, então coberta de riquezas, Hoje empobrece com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo, de povos, raças, rituais variados. Porém, há pouco tempo, seres de outro mundo Burlaram a vida e cultuaram a morte. E a terra, então coberta de culturas, Hoje agoniza com seu descobrimento. Era coberta a terra, há muito tempo. Por que festejam o seu descobrimento?

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Poesia, o rejuvenescimento possível

Faz algum tempo que li uma crônica do Miguel Falabella, na revista Istoé, em que ele formulava uma ode à poesia, ressaltando, por exemplo, que ela é importante à imaginação. Um dos pontos altos desse texto, pelo menos para mim, foi quando sugeriu que deveriam existir postos de poesia 24 horas para pessoas cuja criatividade está em baixa.

Apesar de adorar ler poesia, não leio todo dia, mesmo tendo cadernos e mais cadernos preenchidos com poemas e letras de música, para meu próprio uso (ao contrário de Miguel, raramente me utilizo da Internet para buscar poesia, principalmente se for de poetas que não se expressavam pela língua portuguesa). Quando leio poesia, o dia fica mais leve e minha alma, mais suscetível a ver o mundo de forma diferente, prestando atenção em detalhes bobos, que pulam à minha frente como que aumentados, e nos quais normalmente não me ligo - não é à toa que Autran Dourado recomenda a candidatos a prosadores lerem alguns bons poemas antes de começarem a escrever, e que eu mesma passo a ter idéias para versos, como se tivessem me sido implantadas na cabeça, quando que na verdade a arte me devolveu a visão, ainda que por um momento. Mas, como ia dizendo, ainda não cheguei ao ponto de ler todo dia. Ainda prefiro quando a poesia me surpreende, que foi o que aconteceu, por exemplo, na última sexta-feira.

Alguém aí já ouviu falar dos Pacotes de Poesia do SESC? Trata-se de pacotes de pão com folhas de papel kraft dentro, contendo poemas de autores brasileiros, tanto clássicos como contemporâneos. Pois estava eu lendo a revista do Paço da Liberdade, espaço cultural no qual também se pode pegar os pacotes, quando lembrei que tinha um do Antonio Cícero numa gaveta, ainda virgem de leitura, e li de uma sentada. Nossa! Quanta beleza! Ele é desses poetas que trabalham metáforas finas, e por conta disso envolvem. (Bom, quem é fã da Marina Lima, irmã dele, para quem ele compõe letras, deve saber do que estou falando.)

Sempre que me abismo assim com algum escrito, parece que fazia muito tempo que não me expunha à beleza, ou seja, a minha alma estava precisada. Como tempo cronológico, nem faz tanto tempo assim: o último poeta de que me fiz acompanhar maciçamente, Bertold Brecht, esteve comigo em dezembro e janeiro. Depois disso, uns poemas e poetas esporádicos. Mas o tempo psicológico que nos afastava já parecia ser de anos! Preciso ler poesia com mais freqüência, ainda quero chegar a ler algumas todo dia, conforme o próprio Falabella sugeria em sua crônica. Cheguei à conclusão que até pode ser uma fonte da juventude, pois pode diminuir asperezas e arestas que a alma vai criando com o tempo.

Obs: Para quem quiser pegar Pacotes de Poesia, até dia 29 deste mês é do Francisco Alvim, que será substituído por Emiliano Perneta. Dá para pegar no Café do Paço da Liberdade, no SESC da Esquina e no SESC do Centro. E, agora, fiquem com uma palhinha de Antonio Cícero:

Oráculo


Vai e dize ao rei:


Cai a casa magnífica,


O santuário de Apolo;


Fenece o louro sagrado;


A voz da vidente emudece;


As fontes murmurantes se calam para


sempre.


Diz adeus adeus.


Tudo erra, tanto


A terra vagabunda quanto


Tu, planetário.


Criança e rei, Delira e ri:


Meu sepulcro não será tua masmorra.


Alimenta teu espírito também com meu


cadáver,


Pisa sobre estas esplêndidas ruínas e,


Se não há caminhos,


Voa.


Voa ri delira


Nessa viagem sem retorno ou fim.